Tecnologia
26 de março de 2022
17:10

Conflito entre Rússia e Ucrânia: entenda o que é uma guerra cibernética

Pesquisador da UFPB explica como a disputa entre os dois países está acontecendo no mundo digital e as consequências de ataques cibernéticos.

Matéria por Lara Brito

Em um mundo tão tecnológico, é difícil pensar em algum aspecto da vida que não se viva também no digital. O conflito entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, não acontece só nas ruas do país, mas já tomou o espaço cibernético. Segundo economista Pierre Nascimento Silva, pesquisador do Laboratório de Inteligência Artificial e Macroeconomia Computacional (LABIMEC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Rússia vem atacando ciberneticamente a Ucrânia como medida de desestabilizar ainda mais o país. Ao Jornal da Paraíba, explica o que é uma guerra cibernética e como o atual conflito se desenrola no digital.

Por parte da Ucrânia, o Grupo de Hackers ativistas Anonymous declarou uma guerra cibernética à Rússia, exigindo que o presidente do país, Vladimir Putin, retirasse as tropas do território ucraniano sobre risco de vários sites russos serem atacados.

Conforme o professor, o início da guerra cibernética entre Rússia e Ucrânia ocorreu no momento em que o país russo cortou o acesso à internet de regiões da Ucrânia que seriam diretamente atacadas, por volta do dia 24 de fevereiro.

Assim, o país impediu a comunicação entre tropas ucranianas e bloqueou os canais oficiais do governo ucraniano, uma das táticas de um conflito cibernético.

Mas o que é uma guerra cibernética?

Os ataques digitais podem ser feitos de diversas formas e as citadas acima não foram as únicas táticas usadas pela Rússia. Os hackers russos foram além e partiram para ataques a usinas de energia, estruturas financeiras, governamentais e militares, além de vazamento de dados e/ou documentos confidencias do país.

“Esses últimos às vezes podem ocorrer mais direcionado, de modo, a impedir que exista um alarde além do necessário por quem está cometendo o ataque”, explica o pesquisador.

Não é a primeira vez que um conflito diplomático toma proporções no meio digital. Em 2001, por exemplo, uma falha em computadores que executam o sistema operacional da Microsoft permitiu que diversos sites nos Estados Unidos fossem desativados, entre eles o da Casa Branca.

Pierre também relembra de 2003, quando o Grupo de Hackers ativistas Anonymous surgiu e desde então, realizam diversos ataques contra sites governamentais, corporativistas e religiosos.

Em 2008, o Pentágono sofreu um ataque hacker em uma base no Oriente onde alguns dados militares sigilosos foram transferidos por meio de um pen drive. Já em 2009, o governo de Israel foi bombardeado com milhões de spams por segundo, paralisando diversos computadores.

Em 2015, autoridades americanas anunciaram que hackers russos obtiveram acesso a e-mails da Casa Branca e do Departamento de Estado.

Anteriormente, hackers russos já haviam atacado ciberneticamente a Ucrnânica. Em 2016, eles causaram um blecaute no país, deixando milhares de pessoas sem energia.

Em 2017, lançaram o NotPetya que causou prejuízo de mais de 10 bilhões de dólares a diversos países no mundo, o que considerado o ataque cibernético mais devastador da história, de acordo com o professor.

Por isso, ele afirma que essa guerra invisível que existe a anos: “O fato é que o número de ataques é inimaginável, tendo em vista que muitos países e/ou empresas não divulgam quando são vítimas, até para não expor algum tipo de fraqueza de segurança, reduzindo assim a sua credibilidade ou até o valor de mercado de suas ações.”

Quais as consequências de uma guerra cibernética?

Pierre explica que para adentrar no conceito de Guerra cibernética é preciso retroceder até o início da Globalização.

Na década de 1950, empresas sediadas em países desenvolvidos começaram a direcionar suas filiais para países em desenvolvimento, dando início ao processo. A partir disso, o estreitamento das fronteiras entre países passou a ocorrer, intensificando-se na década de 90 com o boom da internet.

De acordo com o pesquisador, atualmente essas fronteiras praticamente inexistem em um mundo conectado: “É possível realizar transações financeiras em qualquer lugar do planeta mediante um dispositivo com acesso à internet. Investidores brasileiros podem comprar moedas estrangeiras, investir na bolsa de qualquer país e até mesmo comprar títulos da dívida de um país localizado a milhares de quilômetros do conforto da sua casa.”

Mas, o rompimento dessas barreiras também oferece malefícios e contrapartidas. Por exemplo, a mesma rede global de computadores que permite essa conexão também pode ser usada como uma arma de guerra, que traz consequências para países, empresas e até pessoas físicas.

Pierre explica que os dados muitas vezes são devastadores e irreversíveis, por se tratar de uma ameaça silenciosa.

“Um ataque cibernético pode desmantelar a rede de computadores de um país, deixando ele completamente isolado do resto do mundo. Todo o sistema financeiro e bancário estaria em “xeque”, uma vez que, atualmente, grande parte da população aplica o seu dinheiro em bancos e corretoras de investimentos, contas podem ser esvaziadas, investimentos podem sumir, fake news podem ser propagadas induzindo muitos investidores a comprarem ou venderem ações no timing errado e consequentemente perderem todo do seu dinheiro. Hospitais podem perder o acesso a prontuários de pacientes, resultando numa perda de vidas”, disse.

E o Brasil?

O professor afirma que os efeitos colaterais dessa guerra podem ser irreversíveis e já vem acontecendo. A Ucrânia corre um risco enorme de sofrer um colapso econômico ao ser diretamente atacado.

“O sistema bancário pode ser desmantelado, gerando uma perda de dinheiro incalculável. Serviços básicos essenciais muitas vezes são controlados por redes de computadores, empresas podem ser desmanteladas e isso pode privar a população de serviços como: saneamento básico, alimentos, comunicações, remédios etc”, explifica.

Apesar disso, pelo menos digitalmente, ele diz que o Brasil não seria diretamente atingindo, já que, por enquanto, o país acompanha a guerra de longe.

Porém, as fronteiras virtuais do Brasil podem ser atacadas e invadidas indiretamente por vírus utilizados em sites russos e/ou ucranianos que acabam se espalhando devido ao alto grau de conectividade entre as redes de computadores no mundo.

O pesquisador exemplifica: um site ucraniano pode ser alvo de ataques hackers e esse portal pode estar hospedado no mesmo servidor de uma empresa de e-commerce brasileira. Assim, o mercado nacional poderia ser atingido.

“A inexistência de fronteiras no mundo virtual pode trazer consigo consequências que podem desde paralisar serviços no país até perda de dados do governo brasileiro”, conclui.

Observações do Labimec

O LABIMEC decidiu observar “Guerra Ucrânia” no Google Trends e Twitter  e percebeu que as buscas pelo termo eram praticamente inexistentes no país. Por aqui, os usuários só começaram a se informar a partir do momento em que a Rússia atacou a Ucrânia e a projeção para os próximos 60 dias mostra um comportamento explosivo de buscas pelo termo. Em relação aos termos associados, o laboratório percebeu uma procura para tentar entender o motivo da Guerra.

Outra análise, dessa vez do termo “Sanções Rússia”, viu que as buscas também eram inexistentes, mesmo com o início da Guerra. No Brasil, os usuários só começaram a se informar a partir do momento em que a Rússia atacou a Ucrânia.

A projeção para os próximos 60 dias também aponta para um grande aumento nas buscas e em relação aos termos associados, percebe-se uma procura para entender o que é uma sanção e as sanções já anunciadas.