Vamos Trabalhar
16 de abril de 2023
08:01

Ex-aluno de escolas públicas da PB passa em quase 20 concursos públicos e seleções

Paulo Henrique Jacinto também conseguiu uma bolsa pelo Prouni para estudar Direito em uma universidade particular de João Pessoa.

Matéria por Iara Alves

De origem humilde, ex-aluno de escola pública e bolsista no ensino superior, Paulo Henrique Jacinto, de 31 anos, encontrou nos estudos uma oportunidade de mudar a realidade financeira dele e da família. A transformação chegou junto com o investimento em concursos públicos. Ao todo, foram quase 20 resultados positivos entre aprovações e classificações no Brasil e em Portugal.

Paulo nasceu em João Pessoa, capital paraibana. Morou a maior parte da vida no bairro de Mandacaru, em uma casa erguida com barro.

“O meu contexto familiar era pobre, não só financeiro, mas de estudos. Meus pais me deram uma educação não muito diferente da que lhes foi dada, mas valiosa em integridade e princípios”.

Por causa da dificuldade financeira, o jovem precisou trabalhar cedo para contribuir com as despesas da casa, onde morava com o pai e os irmãos.

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“Eu já vendi munguzá, tapioca, pé de moleque com minha avó para ganhar 50 centavos, que na época era uma boa grana. Também já vendi papelão e sorvete quando era adolescente para ter algum dinheiro”.

Durante todo o ensino fundamental, Paulo estudou em uma escola perto de casa. Já no ensino médio, a unidade ficava no Centro de João Pessoa, algo que ele já considerou uma vitória. Para ele, passear pela capital paraibana é como “conhecer o mundo”.

“Depois de terminar o ensino médio, meu pai queria que eu já trabalhasse para colocar dinheiro na mesa. No entanto, fui contra a pressão familiar e comecei a estudar para o vestibular”.

A própria experiência de vida fez com que o jovem escolhe a profissão que seguiria.

“Gostava muito de ler, me interessava por questões jurídicas e por um mundo mais justo. Tudo isso me levou a optar pelo curso que mudou minha vida”.

Paulo passou um ano inteiro estudando para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2010. Ele lembra que conseguiu uma média geral boa, mas insuficiente para ser aprovado no curso de direito em uma universidade pública por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A inscrição no Programa Universidade para Todos (Prouni) veio logo em seguida.

“Fiz minha candidatura e visualizava meu nome naquela lista de convocação todos os dias […]. Me vi aprovado e estudando. Desde à candidatura até o resultado do processo seletivo, eu visitei várias vezes a faculdade cuja candidatura eu apliquei, mesmo que para passear ou ficar na biblioteca. E assim aconteceu, fui aprovado e convocado”.

No ano seguinte, Paulo também foi aprovado para estudar Direito na Universidade Federal da Paraíba, mas resolveu continuar na instituição particular.

“A minha vida começou a mudar, dei orgulho para minha família, foi uma festa. Tudo que eu pensei se cumpriu, até aqueles simples pensamentos como carregar o Vade Mecum no ônibus”.

‘Minhas preocupações passaram a ser qual concurso escolher’

Enquanto cursava o ensino superior, Paulo ainda passava por dificuldades financeiras. Nesse momento, enxergou nos concursos públicos a possibilidade de criar a vida que sempre sonhou.

Ele sabia que a área do Direito lhe abriria portas para o serviço público.

“Tinha apenas um familiar concursado na família, que era tido como estável financeiramente. Cresci ouvindo que concurso público era o caminho para estabilidade financeira e isso influenciou. Eu só não sabia que iria ingressar no mundo dos concursos tão cedo”.

Durante o convívio com os colegas no ambiente universitário, Paulo sentiu que estava em desvantagem em relação à formação que tinha até então. O hábito da leitura não era tão comum. Além disso, não conseguia comprar os livros necessários para estudar.

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Aos 19 anos, após seis meses de estudo, foi aprovado no primeiro certame para trabalhar como técnico administrativo na Secretaria da Administração do Governo da Paraíba.

Paulo ficou lotado em uma escola pública localizada perto da casa em que ele morava. Sete minutos de caminhada eram suficientes para chegar ao trabalho “tranquilo, calmo e em um horário flexível”. Assim, conseguiu conciliar com facilidade o serviço público com a universidade.

Paulo conseguiu 17 resultados positivos entre classificações e aprovações, sendo 15 no Brasil e outros dois em Portugal. Hoje ele é servidor da Câmara Municipal de João Pessoa.

“Foi só o começo, eu não parei. As minhas preocupações passaram a ser qual concurso escolher”.

‘Simplesmente começar’: dicas para antes e durante os estudos

“Acho que a nossa maior concorrência somos nós mesmos, antes dos outros”. É assim que Paulo começa a conversar sobre o processo da aprovação. Para ele, antes de começar a estudar, de fato, é preciso treinar a mente com pensamentos positivos.

“Esse é meu maior conselho […]. E se manter positivo é essencial para essa jornada. Para ser aprovado em 17 concursos eu precisei ser reprovado em centenas deles. Não é que eu precisei, mas eu fui. Não focava em um conteúdo programático coerente. Foi assim que aprendi que o caminho do sucesso não é uma linha reta, os fracassos são necessários, devem ser sentidos e analisados para que a falha seja superada e não mais cometida”.

Manter o foco em algo bom também ajuda a enfrentar outras pedras que são comuns nesse caminho, a exemplo das horas exaustivas de estudos e a renúncia da vida social. Outro ponto chave nessa jornada é dar o primeiro passo.

“Às vezes esperamos o momento perfeito [para estudar], mas eu aconselho simplesmente a começar do jeito que você tá agora. E aposto que as circunstâncias e pessoas certas vão aparecer na sua vida e você vai se ajustando e melhorando seu desempenho”.

No início, Paulo estudava seis horas por dia. Depois da primeira aprovação, diminuiu a carga horária de estudos para quatro horas diárias. O que nunca falhou foi a constância.

“É mais eficiente estudar nem que seja uma hora por dia, todos os dias, do que seis ou oito horas e depois ter muitos intervalos de estudos. É importante estar em contato com a matéria sempre”.

Nesse sentido, o concurseiro recomenda fazer um cronograma de estudos para que também seja reservado tempo para revisões e testes.

Muitas vezes também foi comum trocar o dia pela noite. Era mais fácil se concentrar com o silêncio da madrugada e sem distrações sociais.

“Você pode achar que minha vida era dura, mas não era. Eu já trabalhava e ajudava em casa. Sabia que pelos estudos minha vida estava transformada. E quando estava um caos fora, eu olhava para o meu interior e ficava em paz por ver minha aprovação e minha mudança de vida no novo cargo”.

Para absorver bem os conteúdos, a principal aposta de Paulo era revisá-los. Dessa forma, ele conservava as informações na memória até o dia da prova.

“Eu criava um cronograma no Excel e estudava um assunto hoje. Amanhã revisava esse assunto. Daqui a uma semana revisava novamente e depois com um mês. Ao mesmo tempo fazia simulados”.

Mudanças: para Portugal e de destino

Paulo ama João Pessoa incondicionalmente e incontestavelmente. Porém, aos 27 anos de idade, não havia saído da cidade. Então, começou a pensar em ter alguma experiência no exterior e escolheu Portugal para viver essa aventura.

Ele pediu licença da função de técnico legislativo, na Câmara Municipal de João Pessoa, e se candidatou a um curso de pós-graduação em uma universidade portuguesa. Em 2019, viajou para Portugal, onde foi aprovado no Mestrado em Direito Constitucional na Universidade de Lisboa.

No país europeu, ele quis testar o desempenho ao disputar uma vaga no setor público e foi aprovado em duas seleções.

“A concorrência é absurdamente inferior aos concursos do Brasil. Portugal é uma ótima opção para concurseiros que buscam uma ‘facilidade’ em aprovações por causa da baixa concorrência”. Por outro lado, não há grandes diferenças entre os salários oferecidos pelos setores público e privado”.

Ele já voltou ao Brasil, mas agora considera Portugal como o segundo país que pode chamar de lar.

Para Paulo, não há dúvidas os estudos foram o principal instrumento para a transformação da vida e do destino dele. Ele até vai lançar um livro sobre essa história toda.

“Hoje eu ajudo financeiramente minha família. Consegui influenciar meu irmão a ser aprovado em concurso público”.

Além disso, ele alimenta a vontade de palestrar em escolas públicas de João Pessoa, onde espera ser um incentivo para que outros jovens também possam apostar e investir nos estudos.

“Pretendo agregar valor à vida desses adolescentes e jovens. O foco é mesmo mostrar a esses jovens que eles são capazes. Quero quebrar paradigmas acadêmicos ao demonstrar que alunos baixa renda, provenientes de escola pública, conseguem chegar no topo da vida acadêmica e profissional”.