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COTIDIANO

O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba

Indígenas venezuelanos estão no estado desde 2019. Em 7 anos, muitos choques culturais aconteceram mas, também, muitos se sentiram acolhidos.

Publicado em 19/04/2026 às 6:42


				
					O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba
Waraos em suas terras, na Venezuela, morando em casas de palafita. (Foto: Arquivo pessoal/Jamerson Lucena).

Rostos como um mapa esculpido pela umidade do Delta do Orinoco, região de onde são originários, na Venezuela. Uma pele de um bronze profundo e terroso, que retém o brilho do sol que ilumina suas atividades como a agricultura e a pescaria. São esses os rostos que começaram a fazer parte do dia a dia dos paraibanos, desde 2019. Rostos do “povo da água”. Rostos de venezuelanos indígenas da etnia warao.

Atualmente, são cerca de 600 indígenas warao vivendo na Paraíba. Alguns deles, inclusive, já nasceram aqui no estado. Crianças que não podem mais ser chamadas de warao venezuelanos mas, sim, de warao paraibanos. Segundo o IBGE, os warao já representam a terceira maior população indígena do estado.

As primeiras chegadas desses imigrantes ao Brasil datam de 2014. Na Paraíba, os grupos começaram a chegar em 2019, pouco antes da pandemia de Covid-19 mudar tudo a que todos estavam acostumados. Nessa época, diante do desconhecido, não fazia diferença onde se havia nascido: todos, sem exceção, estavam apavorados.

Ficamos vulneráveis frente ao desconhecido. Na verdade, a vulnerabilidade dos warao era um pouco diferente da que nós, brasileiros, enfrentamos. Enquanto paraibanos se desesperavam para que fosse feita logo uma vacina que pudesse proteger-lhes a saúde, os warao estavam chegando a um local cuja língua principal eles mal entendiam, depois de ter andado por horas ou navegado por dias, sem saber se o próximo estado iria lhes acolher.


				
					O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba

Suas chegadas, onde quer que fosse (antes de migrar para a Paraíba, eles já estiveram em cidades como Belém, Manaus, São Luiz do Maranhão e Natal), causaram um grande choque cultural, em ambas as partes. Se, de um lado, os warao sentiam dificuldade até mesmo para se comunicar, do outro lado os paraibanos se sentiam incomodados com algumas de suas crenças e hábitos.

O primeiro choque

Uma das primeiras situações que causou estranhamento foi quando paraibanos passaram a ver, rotineiramente, mulheres warao com seus filhos no braço em semáforos, fazendo uma espécie de coleta.

Tendo em vista que os warao viviam na zona rural, enquanto os homens saíam para caçar ou pescar, as mulheres ficavam responsáveis pela coleta. Coleta de frutos, no caso. E quando voltavam para suas casas, feitas de palafita, dividiam o que tinham conseguido naquele dia.

Assim accontecia também com o artesanato, que homens e mulhere produziam, seja com miçanga ou com buriti.


				
					O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba
Rafaela Gambarra

Quando chegaram aqui, por se tratar de um ambiente urbano, os warao basicamente continuaram a fazer aquilo que já faziam - sendo que, a partir daí, as mulheres não saiam mais para a coleta de frutas e, sim, para o sinal, conseguir alguma ajuda para se sustentarem.

Para eles não há nada de errado nisso. Afinal, antes, nas suas casas, eles dividiam o que conseguiam com aqueles que por algum motivo não tinham tido ido em busca de frutas, peixes, e caça. A sociedade deles se baseia na coletividade, enquanto a nossa é individualista.

O pesquisador e antropólogo Jamerson Lucena explica que o fato das mulheres levarem as crianças para esses movimentos de coleta (o que acaba por aumentar ainda mais o preconceito em relação aos warao) se dá única e exclusivamente como forma de proteger seus próprios filhos. Sim. Enquanto alguns acham um absurdo as crianças estarem embaixo do sol quente com suas mães por horas e horas, na verdade a mãe está apenas fazendo o que considera melhor para a proteção desses filhos.

"Na cultura dos indígenas warao as crianças são como dádivas, precisam ser bem cuidadas no que corresponde aos cuidados físico e espiritual. Então, para simplificar a compreensão, as mães geralmente não deixam os seus filhos com parentes porque podem, por exemplo, pegar mal olhado ou adoecer por algum outro motivo, razão que envolve questões espirituais ligadas a sua cosmovisão".

Citação

"É por isso, muitas vezes, que vemos as mães (e em alguns casos avó materna) com seus filhos nesses espaços urbanos, tais como cruzamentos".

Jamerson Lucena - antropólogo

Diferentes paladares

Como, inevitavelmente, o paladar dos warao é diferente do paraibano, a princípio houve um estranhamento entre aquilo que lhes era oferecido e aquilo que de fato eles comiam.

Algumas comidas como feijão, por exemplo, eles rejeitavam; acostumados a não usar sal nos seus preparos, qualquer quantidade mínima de sal fazia com que a comida tivesse um gosto estranho para eles.

“O que costumava acontecer quando chegava feijão é que eles trocavam ou vendiam esse produto com vizinhos do vilarejo e, assim, ficavam com pacotes de fubá de milho ou goma de tapioca, por exemplo”, explica o antropólogo.


				
					O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba
Cacique Rafael fala sobre os diferentes tipos de tempero nas comidas brasileiras. Rafaela Gambarra

Para o cacique Rafael, a boa surpresa é quando encontram carne de caranguejo ou açaí, duas comidas que já faziam parte do seu cardápio na Venezuela.

Passados mais de cinco anos das suas chegadas ao Brasil, porém, hoje já é possível vê-los até mesmo tomando refrigerante e comendo alimentos processados. A preocupação é outra: lembrá-los o tempo todo da necessidade de uma alimentação saudável. Sim, os warao já estão mesmo bem brasileiros.

Para ter saúde, uma conjunção de fatores está interligada

Citação

"Não é que nós não gostemos da vacina. Pelo contrário. Nós gostamos e, hoje, sabemos da importância dela. Sabemos o quanto é importante para os nossos filhos. O que aconteceu, lá atrás, é que nós não conhecíamos ela.".

Ramón - cacique warao

"Por sermos da parte rural lá na Venezuela, não tínhamos acesso à assistência à saúde. Então, assim, quando falaram disso [da vacina] pra nós, aqui, foi muito violento. Porque a gente também se preocupa com a saúde, mas de outra forma", ressaltou o cacique Ramón.

Segundo o antropólogo Jamerson Lucena, é preciso ter em mente que a saúde indígena deve ser compreendida como um conceito sociocultural e cosmológico, e não apenas biológico.


				
					O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba

"Sendo assim, a saúde integra o corpo, território, espírito e inter-relações com seu conjunto de conselheiros, praticantes dos processos de cura, que pode ser um pajé, xamã, curandeiros/as etc, além de envolver os elementos da natureza, animais, plantas e o mundo espiritual por onde o pajé, por exemplo, se comunica com suas entidades espirituais. Todos os povos indígenas possuem esse complexo sistema relacionado à saúde, aos processos de cura", explana.

Hábitos vêm sendo moldados

Andréa Coutinho, gestora de uma escola onde os warao estão tendo aula, tanto para os adultos (através do EJA) como para as crianças, acredita que, aos poucos, tanto os warao estão se esforçando para compreender e respeitar a cultura do estado que os acolheu, como, também, os paraibanos estão tendo um olhar mais compreensivo.


				
					O alfabeto das águas em solo estrangeiro: como os warao se adaptaram a Paraíba
Rafaela Gambarra

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Humano do Estado (SEDH), além do EJA, que promove a participação dos warao nas redes de ensino, o atendimento à população conta também com 7 unidades de abrigamento e 2 locais de moradia em regime de aluguel; por meio do Serviço Pastoral do Migrante é garantido o fornecimento de alimentação e itens de higiene às famílias acolhidas nessas localidades.

Já o antropólogo Jamerson Lucena traz a voz da necessidade de que tudo sempre pode melhorar.

Citação

"Muitas vezes eles relatam que precisam de um lugar para viver melhor, para plantar, enfim, buscar viver de acordo com sua cultura e tradições".

Jamerson Lucena - antropólogo

Questionados, porém, se têm algum plano de uma nova migração, os caciques respondem que não. Dizem que aqui já formaram laços com outras pessoas, pessoas que ajudam, e de quem já são amigos. Além disso, com os cursos profissionalizantes que estão fazendo no EJA, pretendem reconstruir suas vidas.

Se alguém disser: “Vai para Venezuela!”, é bem capaz de, hoje, eles dizerem: “não, melhor aqui!”. Sofrem com as notícias sobre o país que veem nas TVs e nos portais de notícias. Sentem saudade. Relembram com carinho das suas canoas.

Mas preferem a paz.

Imagem

Rafaela Gambarra

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