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ESPAÇO OPINIÃO

‘Andou’ na Pedra: A redenção de Rodolfo Abrantes (e do Raimundos)

Documentário 'Andar na Pedra' narra a trajetória do Raimundos e dá um desfecho para os fatos que motivaram a saída de Rodolfo.

Publicado em 30/04/2026 às 12:44 | Atualizado em 30/04/2026 às 14:13


					‘Andou’ na Pedra: A redenção de Rodolfo Abrantes (e do Raimundos)
Documentáiro 'Andar na Pedra', disponível no Globoplay, conta a trajetória do Raimundos.. Reprodução

Caminhada matinal, fones no ouvido. Eis que o algoritmo me entrega uma música que, de cara, reconheci a voz, mas não a letra. Quando espio o celular: Rodox. A banda que Rodolfo Abrantes, ex-raimundos, criou para prestar contas com a gravadora que “abandonou”, há mais de vinte anos. Gostei do que ouvi. Como uma fã do rock Brasil anos 90 e, no pacote, do Raimundos, passei ‘reto’ pelo grupo hardcore-gospel na época. E não só eu: entrei no ‘embalo’ das centenas de pessoas que não quiseram gostar do Rodox, magoadas, movidas por uma série de depoimentos de artistas que enfatizavam: Rodolfo Abrantes abandonou o barco para ‘virar crente’, e não daquele que crê.

Rodox tocou nos meus fones poucos dias depois de eu ter maratonado ‘Andar na Pedra: A História do Raimundos’, disponível no Globoplay. Um documentário de cinco episódios que narra a trajetória da banda brasiliense e, finalmente, dá um desfecho para os fatos que motivaram a saída de Rodolfo.

E eu, que esperei mais uma construção de depoimentos soltos e aleatórios, já que é assim que o fim de uma das melhores e mais ousadas bandas de rock do nosso país tem sido retratado nas últimas décadas, fui surpreendida positivamente. Me deparei com uma história contada pelos próprios atores, valorizando todos os pontos de vista dos envolvidos, com um respeito admirável pela ordem cronológica dos fatos. Aqui, o diretor Daniel Ferro gabaritou.


					‘Andou’ na Pedra: A redenção de Rodolfo Abrantes (e do Raimundos)
Documentário mostra em detalhes as razões que fizeran Rodolfo Abrantes deixar a banda no auge.. Reprodução

O documentário foi lançado no último 19 de março, mas tem rendido até então, devido a um vasto arquivo de imagens, repleto de detalhes da meteórica ascensão e do declínio do Raimundos. Declínio que veio em decorrência de vários fatores: entre eles, as mudanças de comportamento do público consumidor. Mas não foi isso que chamou atenção.

Rodolfo saiu. Ponto. O frontman do grupo de “Forrocore”, estilo consagrado pela banda formada por Rodrigo (Digão), Rodolfo, Fred e Canisso (aqui, foi fácil lembrar de cada integrante: ‘Cantei’ a ordem que eles mesmos colocaram na letra de “Pequena Raimunda”, hit inspirado em “I Wanna Be Sedated”, um clássico do Ramones. Grupo que, inclusive, inspirou o nome Raimundos - Ramones + Raimundo, figura facilmente encontrada no nordeste brasileiro e no sertão da Paraíba, de onde veio parte da família de Rodolfo Abrantes. Referências…), largou o barco no momento de maior sucesso da banda. Foi difícil perdoar. Para quem viveu a época, o quão louco é lembrar dessa mistura mágica de forró com hardcore punk, algo nunca visto pelos sedentos jovens, abertos a conhecer algo novo o tempo todo, seja no rádio, seja na MTV? Pois é, ficamos órfãos.

‘Andar na Pedra’ parte do gênesis, contando como Digão e Rodolfo se conheceram. A identidade visual noventista nos coloca naquele exato momento em que tudo aconteceu e nos faz entender que um laço muito forte foi criado ali. Um relacionamento que, como não é novidade pra ninguém, foi profundamente afetado pelo tempo; convivência, ego… e, mais na frente, pelas brigas por direitos autorais, situação que também viria a balançar as estruturas do Charlie Brown Jr. anos depois. Era difícil não sentir raiva de Rodolfo. Eu lembro, eu ‘estava’ lá. Mas, como o próprio cantor e compositor disse em depoimento para o doc, ‘toda raiva tem prazo de validade.’ Ou, pelo menos, deveria ter. E foi aí que muitos dos problemas foram atribuídos ao Digão, que sempre foi um sujeito polêmico.

Depois de vários momentos constrangedores (em público, inclusive!), eis que Rodolfo Abrantes, afundado nas drogas, doente e em um ciclo que não fazia mais sentido para ele, encontrou razões suficientes para sair da banda, mesmo com uma agenda lotada de shows. Para os companheiros e para o público “um mané que saiu pra virar crente”, imagem pejorativa endossada pela mídia da época. Rodolfo nunca tentou retrucar. Desesperado por paz, ‘vendeu’ a imagem de bad boy, de letrista escrachado do rock, e foi viver um processo pessoal e intransferível. Parece que foi ontem, mas foi em 2001.

No documentário que, para mim, foi esclarecedor e muito maduro, ouvir os depoimentos sensatos de Rodolfo sobre essa decisão, tira de cena qualquer contra-argumento dos colegas de banda. Inclusive, do próprio Canisso, que não teve a oportunidade de falar sobre o assunto para a produção, mas deu entrevistas sobre o ocorrido em vários outros momentos, ainda em vida. Mas antes da ruptura, Rodolfo tentou, assim como todos tentaram. Saíram do país para produzir um novo álbum, o vocalista perdeu a inspiração e, ainda assim, saiu dali um trabalho que eu considero o melhor do Raimundos: Lapadas do Povo, terceiro álbum de estúdio da banda. Visceral, fugindo daquele humor que viria a inspirar bandas caricatas, como a Mamonas Assassinas. História que está lá no doc.

Hoje, os integrantes do Raimundos estão em paz. Pelo menos é esse o desfecho que o longa de Daniel Ferro nos traz. Ou não. Digão chora em boa parte da entrevista, o que cabe, a nós, diversas interpretações: seria a humanização de um músico que batalhou para a banda existir até hoje, ou a face de um cara que nem esperou a cadeira do amigo esfriar para assumir o lugar dele e ainda falar muito mal do ex colega de labuta, sempre que tinha oportunidade? O tempo passou, Fred entendeu, Digão reatou laços mas ainda sente, Canisso se foi sem perdoar ou ser perdoado. Rodolfo segue convicto na mesma escolha que o fez sair da banda, lá atrás. E me perdoem os mais céticos, mas é inegável que foi o que o salvou.

‘Andar na Pedra - A história do Raimundos’ é sobre redenção. Da banda, sim, mas principalmente de Rodolfo. Um dos primeiros cancelados da internet no Brasil, fez uma escolha que, convenhamos, não era nem da minha, nem da sua conta, rs. Estamos falando de cansaço, burnout, de quando todos nós, em algum momento da vida, sentimos a necessidade de largar tudo em prol da nossa saúde mental. É sobre arrancar correntes e, simplesmente, seguir. Hoje, Rodox está em turnê. Não conheço praticamente nada da banda, mas “Dia Quente” tocou no talo, enquanto eu caminhava em uma brisa de domingo. “Só quem me conheceu doente / Vê como estou melhor”, disse Abrantes. Continuo amando Raimundos, ao mesmo tempo que tenho amado entender que a redenção de cada um vem quando a gente escolhe viver, apesar de. Andar na pedra, moleque, em cima da pedra. E ter o direito de seguir.

* Mayara Medeiros é jornalista e apresentadora da CBN Paraíba

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Mayara Medeiros

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