Política
31 de março de 2024
07:28

‘Eu tenho muito vivas todas as sensações’: presa política da ditadura relembra tortura na Granja do Terror

Propriedade privada de Campina Grande, Granja do Terror foi cedida para o Exército Brasileiro na década de 1970 para sessões sistemáticas de tortura contra presos políticos.

Matéria por Phelipe Caldas

A professora Maura Pires Ramos tem 87 anos atualmente e nunca mais voltou naquele endereço escondido e misterioso localizado na Zona Rural de Campina Grande. Ela esteve lá apenas uma vez em toda a sua vida, em 29 de abril de 1974, e ao longo de todo o tempo que permaneceu no local foi mantida vendada, sem portanto ter muitas informações adicionais sobre aquele imóvel. Ainda assim, guarda na memória detalhes trágicos que ainda hoje são muito vívidos daquela experiência, patrocinada por um aparelho estatal comandado pelo Exército Brasileiro que começou a se tornar possível entre os dias 31 de março e 1º de abril de 1964, exatos 60 anos atrás, quando um golpe instituiu uma Ditadura Militar que se prolongaria pelos 21 anos seguintes no Brasil.

>> Quem foram os mortos e desaparecidos na PB durante a ditadura militar

O local em questão, ao longo das décadas seguintes, seria batizado e conhecido por Granja do Terror, um nome que ao mesmo tempo é sugestivo e estarrecedor, e que escancara os desrespeitos aos direitos humanos e às liberdades individuais e coletivas que foram cometidos pelos militares brasileiros em nome de uma subjetiva, criminosa e arbitrária perseguição contra pessoas que eram classificadas de “comunistas, subversivas e agitadoras”.

Um nome, aliás, que até hoje provoca reações imediatas em Maura.

Eu tenho muito vivas em minha pele e em minha mente todas as sensações. Muita coisa perversa foi cometida ali contra mim e contra outras pessoas que passaram por lá”.
Maura Pires Ramos
 Maura Pires Ramos, aos 87 anos, relembra a tortura que sofreu 50 anos atrás 

De acordo com o relatório final da Comissão Estadual da Verdade da Paraíba (CEV-PB), que foi publicado em 2017, a propriedade à época pertencia ao empresário campinense Manoel Bezerra, que era dono de uma grande loja de armas na cidade. E é uma das pouquíssimas propriedades privadas do Brasil que nos tempos da Ditadura Militar foi cedida para o Estado para o cometimento de torturas regulares contra presos políticos.

Ao longo da década de 1970, dezenas de pessoas foram presas em Campina Grande de forma aleatória e levadas para a Granja do Terror. Torturadas, agredidas, espancadas, ameaçadas, submetidas a situações degradantes e inumanas. Tudo isso à revelia da lei, sem autorização judicial ou mandado de prisão que justificasse a detenção.

A história de Maura Pires Ramos, portanto, é apenas uma das muitas que se cruzaram com aquele local. E que, décadas depois, ainda a atormenta.

Eu achei que eu ia morrer”
Maura Pires Ramos, ao rememorar tudo o que viveu no passado

À procura da granja

Para marcar os 60 anos da Ditadura Militar no Brasil, a reportagem do Jornal da Paraíba foi atrás de detalhes sobre a Granja do Terror. A maior parte dos dados, inclusive, estão reunidas no relatório final da CEV-PB. Na época, o local era conhecido como “paiol de B. Bezerra”, já que era onde os donos da loja de armas guardavam os produtos a serem vendidos – muita arma, muita munição também.

Ainda de acordo com a Comissão Estadual da Verdade, a granja não era usada apenas esporadicamente. Mas, ao contrário, “o espaço foi dotado de uma infraestrutura permanente” para as torturas. A granja, portanto, significou o “aperfeiçoamento” da estrutura de repressão no município paraibano.

A Granja do Terror fica localizada na região de Cuités, Zona Rural de Campina Grande, e foi localizada pela primeira vez em 1992, quando presos políticos que passaram pelo local a reconheceram. Já o último registro que se tinha do local era de 2016, quando o professor e historiador Herbert Andrade Oliveira, coordenador do grupo de trabalho Mapa da Tortura da Comissão, foi até o local.

A granja já foi vendida e os novos donos não dão entrevistas. Herbert conta, inclusive, que os moradores atuais, quando interpelados em 2016, se disseram surpresos com o antigo uso que era dado ao endereço. Ainda assim, a reportagem tentou encontrar o local. E, com muito esforço, chegou até ele.

 A Granja do Terror é uma área grande localizada na Zona Rural de Campina Grande 

Foram quase duas horas de procura, tendo Herbert como guia. Dezenas de ruas de barro, esburacadas e irregulares, com muito matagal nos arredores, foram vasculhadas sem sucesso. Até que, de repente, um homem muito idoso, que capinava um matagal em frente a uma casa, foi questionado uma vez mais sobre o “antigo paiol de B. Bezerra”. Rapidamente, ele deu as indicações de onde ficava a granja.

É uma área cercada por um muro alto, que se diferencia de todos os imóveis da região. Tem um portão grande que dá para uma alameda ladeada por grandes coqueiros. Um terreno extenso leva até à casa principal ao fundo, onde, segundo as testemunhas, aconteciam as torturas.

Eu passei o tempo todo vendada. Mas eu sabia que era uma granja pelos sons de galinhas e de outros animais que eu escutava ao longe”.
Maura Pires Ramos
 Situação atual da Granja do Terror em Campina Grande 

Um dia em meio ao terror

Era um dia de sol em Campina Grande. Final de manhã. A professora Maura Pires Ramos, dona da Escola Pequeno Príncipe, deixara a unidade escolar de sua propriedade e voltava para casa quando foi abordada por dois homens armados, que a tratavam com truculência e violência. Apontaram-lhe revólveres em direção a ela, disseram que ela estava sendo presa e a obrigaram a entrar num carro.

Maura estava tensa. Tentava argumentar que precisava avisar a sua família da prisão, mas não houve acordo. Ela foi vendada e o carro partiu em seguida. “Rodaram muito pela cidade para que eu perdesse a noção de espaço. Só depois de muito tempo eu fui levada para a granja”, ela conta.

 Maura Pires Ramos revisita o passado 

Sem tempo a perder, ela foi levada para uma sala de tortura. Foi rapidamente despida, deixada nua no local. Foi espancada. Depois, submetida a sessões de choque elétrico. O relato é forte.

Eles mandaram eu tirar as minhas roupas, aplicaram choques elétricos nos seios, nas orelhas, nos cantos mais sensíveis. No outro canto eles não chegaram perto. Mas... era de você achar que ia morrer mesmo. Os choques eram muito grandes, era de chorar e de gritar e eu gritava até não poder mais. Eles colocaram um rolo de cordão na minha boca. Acho que era para não quebrar os dentes ou para abafar o som. Mas... Acho que eles não se incomodavam que quebrassem os dentes não. Era mais a questão dos gritos”
Maura descreve a tortura que sofreu em 29 de abril de 1974

Seu algoz, segundo suas lembranças, repetia uma única pergunta: “Onde estão os arquivos do partido?”.

O questionamento, aliás, demonstra uma completa aleatoriedade da Ditadura Militar, que via todo mundo como suspeito e como um perigo em potencial. O partido, no caso, era o Partido Comunista Brasileiro, conhecido por “Partidão”, de onde inclusive Maura nunca foi filiada.

Ela não tinha o que responder. Ela não sabia de nada sobre aquilo o que estava sendo questionado. E, assim, a tortura continuaria por toda uma tarde. Em paralelo a isso, agentes da repressão foram até a sua casa. Revistaram o seu quarto, o seu armário. Apreenderam banalidades. Uma revista de um antigo Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), um livro intitulado de “Liberdade sem Medo”, do escritor escocês Alexander Sutherland Neill, que havia sido publicado originalmente em 1960. Um material que, a despeito da aparente desimportância, foi rapidamente classificado como subversivo.

Da Granja do Terror, em Campina Grande, Maura foi levada de carro para o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de Recife, que ficava na sede do 4º Exército. Foram mais dez dias de ameaças, maus tratos, condições indignas, violações de direitos básicos. Em todo esse tempo, por exemplo, ela não teve direito a dar um único telefonema para a sua família. E nem mesmo pôde tomar banho. Permaneceu por todo o tempo com a mesma roupa com que fora presa. A essa altura, já suja e mal-cheirosa.

Foi abandonada, de volta a Campina Grande, no meio da noite, num matagal mal iluminado. Sem dinheiro, desorientada, assustada, sem saber como voltar para casa. A propósito, a viagem de volta de Recife para Campina Grande lhe reservaria um último instante de pânico.

Tinha um motorista e eu ia no banco do passageiro. Entre nós dois, um revólver aparente. Bem atrás de mim, sentou um homem que conversava muito com o motorista. Eu não conseguia vê-lo. Mas, pela voz, eu sabia que era o mesmo homem que tinha me torturado. Quando eu tentava me virar, ele cobria o rosto com uma revista”.
Maura Pires Ramos ao falar sobre o seu torturador, que anos depois seria identificado por autoridades públicas como sendo o Sargento Marinho

Em todos aqueles dias, a sua mãe não recebera nenhuma informação da filha, cujo paradeiro seguia incerto. E quando Maura finalmente chegou em casa, foi no exato momento em que a mãe, desesperada, se reunia com um vereador da cidade em busca de informações. Três cartas tinham sido escritas à mão, para diferentes autoridades (o prefeito Evaldo Cruz, o governador Ernani Sátiro, o comandante do Exército Major Câmara). Seriam enviadas no dia seguinte, mas a operação foi abortada com a chegada da filha. Maura guarda ainda hoje as cartas não enviadas. Todas são datadas de 11 de maio de 1974.

 Primeira de duas páginas de uma das três cartas escritas de próprio punho pela mãe de Maura em busca de notícias da filha 

A primeira prisão

Quando Maura Pires Ramos foi presa e torturada na Granja do Terror, ela já tinha uma ficha criminal no DOI-Codi do Exército Brasileiro. Isso porque, em 1968, ela participou do famoso Congresso da UNE de Ibiúna, no interior de São Paulo. Naquela época, a UNE tinha sido fechada pelos militares e a entidade estudantil funcionava na clandestinidade.

Ainda assim, o evento aconteceria com delegados de todo o Brasil. Estudante de Letras da antiga Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB), ela foi eleita delegada da Faculdade de Filosofia e Letras da instituição.

Apesar de sua militância política, Maura explica que a Ditadura Militar via riscos em qualquer lugar. E a classificou como subversiva apenas por ser professora. “Eu não fiz, assim, pichação, ou qualquer coisa que chamasse a atenção. Mas como eu era professora, era como se eles dissessem assim: ‘Ela sabe o que está fazendo’”.

A militância de Maura, segundo ela mesmo destaca, eram reuniões estudantis que precisavam acontecer de forma secreta, e mobilizações de rua, passeatas de estudantes, alguns protestos. “Caminhando e cantando e seguindo a canção. Geraldo Vandré, né? A música. Era quase o nosso hino nacional”.

Até que, em 13 de outubro de 1968, começaria o Congresso da UNE de Ibiúna. Ela chegou a São Paulo no dia anterior e foi levada pelos organizadores para a fazenda onde o evento estudantil aconteceria de forma clandestina. Eram cerca de mil estudantes universitários de todo o Brasil. Dormiram uma primeira noite no local e, na manhã de início do encontro, o Exército invadiu o local. Todos foram presos, com a exceção de poucos que conseguiram fugir.

“O Exército já invadiu dando rajadas de metralhadoras e todos precisamos se jogar no chão”, ela descreve.

 Maura quando foi presa e fichada pelo DOI-Codi em 1968 

Maura, contudo, destaca que não chorava, que conseguia manter a serenidade, a cabeça erguida. Ela conta, inclusive, uma cena prosaica que se passou com ela naquele dia:

“A gente saiu caminhando na estrada, por um caminho de barro, de terra batida, para chegar na estrada onde os carros do Exército esperavam por a gente. Eram colunas de dez pessoas e com os soldados de um lado e de outro segurando metralhadoras. Aí eu empurrei com a mão a metralhadora de um dos soldados e disse assim: ‘com licença’”.

E diante da reação tensa do soldado, ela explicou melhor.

Não. Eu não vou fugir não. Eu só vou recolher aquela florzinha'. Já pensou? Numa hora dessas? Eu tenho essas coisas. Eu não sei, se eu tinha a intenção de transformar aquele momento tão trágico, tão severo, num momento amoroso”.
Maura fala do momento em que colheu uma flor enquanto era presa

A estudante-professora, agora presa política, foi levada para o Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde foi fichada, interrogada, fotografada. Liberada apenas dez dias depois, foi acolhida por um casal de professores que ela nem mesmo conhecia. Deu-lhe de comer, comprou passagens de ônibus de volta para Campina Grande. Na bagagem, a flor arroxeada que ela retirou do mato no momento que estava sendo presa, que ela preservou consigo na prisão, e que ela mantém num envelope, murcha, até os dias atuais.

 Maura mostra a flor que ela colheu no momento de sua prisão e que já guarda com cuidado por 50 anos 

A relação com os jovens

Maura Pires fundou a Escola Pequeno Príncipe em 1960, quando ela já possuía um curso pedagógico de nível técnico. Antes mesmo, portanto, das duas prisões. Quando foi presa pela primeira vez em 1968, foi cassada do curso de Letras por dois anos. Mas, depois, retomou aos estudos. Formou-se primeiro em Letras e depois em Pedagogia, sendo o segundo curso pela UFPB (atual UFCG). Nunca se casou, não teve filhos, mas diz que a escola que ela dedicou a vida salvou-lhe de seus dramas, de seus pesadelos, de seus traumas.

Eu me tratei com as crianças. Eu vivia num mar revolto, mas os corações das crianças eram o meu ancoradouro”.
Maura, sobre sua relação com as crianças
 Maura Pires Ramos retornou aos estudos após o período de cassação de seus estudos por parte da Ditadura Militar 

E essa relação, para ela, foi fundamental. Porque o encalço dos militares demoraram anos. Ela conta que depois da prisão de 1974 precisou por muito tempo comparecer semanalmente na sede da Polícia Federal, vez ou outra alguém passava de carro por sua casa fotografando-a, iam disfarçados à escola fazer perguntas. Era uma forma de deixar claro que ela estava sendo vigiada, monitorada.

Tudo isso, de certa forma, moldou também a forma como a escola foi sendo administrada, numa postura mais progressiva que era rara à época. Por exemplo, foi a primeira escola particular da cidade a excluir aulas de religião e de eucaristia do currículo escolar. E tinha um método de ensino que, segundo Maura, incentivava o debate.

Quando você contesta, você está em busca da verdade".
Maura Pires Ramos
 Maura Pires Ramos, 87 anos, foi presa política torturada pela Ditadura Militar