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JP Debates

Espaço dinâmico reservado para a opinião dos leitores, que abordam fatos dos mais variados transitando com a mesma desenvoltura e responsabilidade entre o cenário político, a educação e outros temas.

Neiva, Cidadão do Mundo

Nagib Jorge Neto*


Nossa geração conviveu com Neiva Moreira, no Maranhão e no país, ao longo de sua atuação como jornalista e político, engajado nas lutas contra a opressão e a injustiça social. Nos anos 50, do século passado, então repórter de O Cruzeiro, Neiva passou a integrar a oposição aos grupos que detinham o poder no Maranhão, as oligarquias que se valiam da fraude e da violência para intimidar e esmagar os opositores. Na época, São Luís era uma cidade de conflitos, greves, indignação, sendo vista no país como “Ilha Rebelde”, rebeldia que entusiasmou o jovem repórter e iria marcar seus discursos, textos, sua visão de Estado e país.
Então ajudou no avanço das forças de oposição e ganhou dimensão nacional como político e líder de sua geração, ampliando a luta com os jornalistas Amorim Parga, Franklin de Oliveira, José Louzeiro, Reginaldo Teles e o general Lino Machado. Logo depois contribui para formar jornalistas comprometidos com os ideais de liberdade, democracia e justiça social, com a fundação do Jornal do Povo, que reagia às posições tímidas da imprensa da época. No período também lutou para ampliar as bases da oposição com lideranças como os médicos José Henrique, William Moreira Lima e Maria Aragão, os deputados Joaquim Mochel, José Sarney, José Bento Neves, Sálvio Dino e Erasmo Dias, integrantes das Oposições Coligadas.
Daí em diante, Neiva persistiu no combate às causas do atraso no Maranhão e no país e na defesa dos movimentos sociais. Essa posição cresceu mais tarde no Congresso Nacional, como líder da Frente Parlamentar Nacionalista, defendendo os recursos e empresas nacionais, postura que manteve após sua prisão e exílio no golpe de 1964. Então exilado, o menino pobre de Nova Iorque, cidade da área do Parnaíba, no Maranhão, vai além e passa a ser - na expressão feliz da ex-deputada Helena Heluy - um Cidadão do Mundo, editando uma revista que marcou época - os Cadernos do Terceiro Mundo. Naquela fase, Neiva Moreira defendeu os países do terceiro mundo, os anseios de libertação, liberdade e justiça social.
Nossa geração acompanhou essa trajetória e, no caso, fiz parte do Jornal do Povo, ao lado de Bandeira Tribuzzi, Ubiratan Teixeira, Manoel Lopes, Benito Neiva, Clóvis Sena, Joaquim Itapary, Benedito Buzar, Hubert Macedo e José Mário Santos. No período integrei sua assessoria na Frente Parlamentar Nacionalista, e depois de 79 - após sua volta do exílio - fui repórter de O País, sempre atento aos seus escritos, lições, marcantes em São Luís, também em Brasília, onde atuava com Ariosto Neiva nos encontros da Frente, com Sérgio Magalhães, Adão Pereira Nunes, Paulo de Tarso, Leonel Brizola, Fernando Santana, Cândido Aragão e Plínio de Arruda Sampaio.
Depois houve encontros no Rio, Recife, São Luís, com enfoque em sua ação no PDT, divergências de Arraes e Brizola, e lembranças de fatos, avanços e recuos. Na última conversa, Neiva afirmou em tom de brincadeira - da prisão para o Palácio. Um caminho penoso – observei - mas coerente com seu discurso, ações, atos, sempre generosos e solidários. Isto foi em 2008 e em abril deste ano estive na Ilha, numa UTI de hospital, tendo a impressão de despedida de um mestre, que mantinha no rosto marcas de idéias e convicções permanentes. A sua morte, pois, aos 94 anos, no dia 10 deste mês, é uma perda para o povo brasileiro, a política e o jornalismo, que enriqueceu com suas reportagens, artigos, lutas, um patrimônio que deixa para o Maranhão e o nosso país.

Educação e expectativa

Fernando Leal


Algumas experiências médico-científicas visando testar a eficácia de certos medicamentos no tratamento de doenças, fazem uso do chamado efeito placebo. Por ele o paciente, imaginando estar tomando um medicamento milagroso, que na verdade não passa de uma simples pílula de farinha ou de açúcar, o placebo, passa a apresentar melhoria no seu estado de saúde. Tais resultados estão, na verdade, associados a uma mera sugestão psicológica. Ou seja, a ação que se obtém está mais ligada ao lado emocional do que propriamente ao estado clínico do paciente.
Na relação entre o médico e o seu cliente, a expectativa gerada pelos resultados de um novo tratamento pode gerar consequências diversas. A forma como vê o paciente, como interage com ele, os seus cuidados, os procedimentos médicos, tudo isso pode ser determinado por essa expectativa, o que acaba interferindo no resultado do tratamento. A esse fenômeno, muito comum de acontecer entre as pessoas, dá-se o nome de profecia autorrealizável, ou efeito pigmalião.
Apresentado dessa forma parece coisa que diz respeito apenas aos cientistas. Mas, em nossa vida diária, estamos sujeitos a esse fenômeno muito mais que imaginamos. A sua relação, por exemplo, com um novo subordinado que você gostou do jeitão dele, será que é a mesma com aquele iniciante que, de cara, você achou que não ia dar certo na empresa? O seu cuidado, a tolerância, a vontade de ensinar e paciência, serão os mesmos com os dois? E a sua reação tanto ao erro quanto ao acerto de cada um deles, será igual? Estudos feitos tanto no campo da sociologia (Merton), como da psicologia (Rosenthal), indicam que não. Eles afirmam que, o fato de alguém prever algo sobre o outro (vai ou não dar certo), acaba por direcionar o seu comportamento, mesmo que de maneira inconsciente, involuntária, para que aquela profeciase realize.
Na relação professor aluno esse ato profético também é muito comum. O docente, ao iniciar o trabalho com um novo grupo, recebe vários dados sobre esses pupilos. Muitos que lhes são passados, outros, inferidos. Assim acontece com as informações sobre procedência étnica, nomes e sobrenomes, sexo, aspecto físico, conhecimento de parentes, amigos comuns, status socioeconômico, êxitos anteriores, conduta do aluno: tudo isso se transforma em fontes de informações importantes do professor. A partir delas começam a ser formadas expectativas que podem influir na conduta do mestre em relação àqueles alunos. Cordialidade, qualidade da interação, informação sobre o aprendizado, tipo de reforço, elogios e críticas, são formas como essas condutas se manifestam. Como resposta tem-se o comportamento do aluno que tende a se revelar coerente com o que se espera dele.
Esta é uma informação que não pode faltar no repertório de professores e professoras, ajudando-os a direcionar os atos em sala de aula, já que repercute no resultado dos alunos. Sem esquecer que a ciência existe é para isso mesmo: dar cientificidade às ações que empreendemos.
 

EM BUSCA DA VERDADE

MARCOS SOUTO MAIOR


O que mais se faz nesse Brasil é criar novas leis ao sabor do respectivo momento que renda notoriedade aos idealizadores. Já cumpri-las é outra difícil coisa.
Pois não é que o projeto de lei 7673/2010 fora aprovado por votação simbólica, sem a devida conferência de votos, instituindo a “Comissão Nacional da Verdade” composta por sete membros, número cabalístico que integra o tempero da proposta presidencial!
De acordo com o texto divulgado publicamente, a comissão de nobres autoridades brasileiras seriam “de reconhecida idoneidade e conduta ética, identificadas com a defesa da democracia e institucionalidade constitucional, bem como com o respeito aos direitos humanos”, fato incontroverso.
O divulgado objetivo seria, então, a elaboração de um relatório, para apresentar conclusões sobre episódios com tortura, sumiço e morte de opositores ao regime militar brasileiro dos anos 1964 a 1988.
Detalhe intrigante fora a entrevista do petista José Genoíno anunciando que “nós temos hoje o referendo dos comandantes militares para votar o texto da Comissão da Verdade do jeito que está”, sob a coordenação do ministro da Defesa, Celso Amorim. Como se os chefes das armas brasileiras não exercessem cargos comissionados...
Em meio às discussões sobre a matéria, temos que os eventuais crimes praticados no período da ditadura brasileira carecem do poder de punir, ficando à margem do conhecimento do Poder Judiciário nacional. Assim, um esforço apenas histórico!
Além do mais, apenas dois anos de reuniões de pessoas ocupadíssimas, a exemplo do ilustre ministro Gilson Dipp do Superior Tribunal da Justiça, do diplomata Paulo Sérgio Pinheiro e do advogado militante José Carlos Dias, ex-ministro da justiça seria muito pouco tempo.
As provas reais a serem debruçadas nos colos dos doutos membros da referida comissão demandarão muito mais, que o próprio tempo de vigência da comemorada comissão verdadeira, para mostrar os seus primeiros resultados.
Nietzsche, didaticamente, ensina que a verdade é um mero ponto de vista. Ele não chega a definir e aceitar conceituação da verdade, porque entende não ser possível alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira.
Os filósofos admitem que a verdade seja a simplória interpretação mental daquilo que é valorizado pelos sentidos humanos e, confirmado ou não por outros seres humanos. O que é verdade para uns não é reconhecido por outros...
Não vislumbro a alardeada maioria do povo brasileiro no reconhecimento da “comissão da verdade” formada pela presidenta Dilma, até porque ela garantiu publicamente sua presunção de que “não tenham medo, eu vou ser bastante firme na área de direitos humanos”.
Os famigerados “anos de chumbo” do período militar brasileiro serão exumados da memória forçando um reabrir feridas saradas e já esquecidas, como a polêmica “lei da anistia”.
A desejada harmonia entre passado e presente, envolvendo atos políticos da direita e da esquerda, reacenderá momentos desagradáveis de desvio da ordem pública nacional para a discussão estéril e histérica das ideologias ultrapassadas.
“Comissão da Verdade”, instituição com rótulo de autoritarismo e demagogia bem merecia outra denominação com objetivos práticos e permanentes, até porque a verdade é sempre relativa.
 

CADÊ A TRANSPOSIÇÃO DO CHICO?

Ocino Batista


Quando o fanfarrão de Caetés prometeu tornar o semiárido nordestino um novo oásis, com a transposição das águas do Rio São Francisco, obra orçada, a princípio, em 4,2 bilhões de reais, e que seria entregue ao povo no final do ano de 2010, o nordestino se encheu de orgulho, agradeceu aos céus, finalmente um filho da terra olhava com bons olhos para esta gente sofrida, e lhes aliviaria o sofrimento milenar causado pela escassez de chuvas e ausência de água armazenada em seus reservatórios.
Era a redenção da nação nordestina, era Lula guiando seu povo pela terra árida, tal como fizera Moisés, ao libertar seus patrícios da tirania dos egípcios.
Foram muitos os palanques, inúmeros foram os discursos, entrevistas, reportagens, da mídia local e alhures, a água nem mesmo começou a correr e já jorrava dinheiro por todos os lugares, grandes empreiteiras já enchiam as burras de grana, o mega-projeto era tão grande quanto à ganância dos inescrupulosos de plantão, todos de boca aberta à procura de seu quinhão tal qual abutres em carniça. E o povo..., bem, o povo é uma página à parte, este rezava suas novenas, missas e cultos, em agradecimento ao grande presidente que faria a tão sonhada independência do Nordeste brasileiro, somente a sensibilidade de um filho da terra para erguer tão importante obra.
Veio 2010, o presidente fez sua sucessora, sempre com a mesma promessa de que, passados 500 anos de descobrimento, alguém teria a coragem e disposição de fazer a transposição das águas do Velho Chico, uma obra prometida há centenas de anos, mas que jamis saíra do papel.
E o povo? Bem, o povo nordestino, como dizia Euclides da Cunha, é, acima de tudo, um forte; e eu acrescento, forte e ingênuo, e esta ingenuidade é que o levou a acreditar nesta farsa de transposição do Rio São francisco. Agricultores, políticos, religiosos, pecuaristas, fazendeiros, peões e boias frias, todos no mesmo credo, na mesma reza, na mesma esperança, acreditando nas promessas políticas de um fanfarrão, que sabe jogar para a plateia como poucos. Porém, com o passar do tempo, a esperança transformou-se em decepção, a alegria virou tristeza, e onde deveria correr água, hoje correm lágrimas de pequenos agricultores, que veem suas parcas rês morrendo por falta de água.
Até mesmo o mais tradicional dos festejos do povo nordestino está ameaçado por falta de chuvas, o São João. O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, que outrora gostava de festas populares, hoje arranjou uma ótima desculpa para não auxiliar as prefeituras do interior do Estado na realização dos folguedos. Diz Sua Excelência que, não tendo chuva, não tem São João, esquecendo que esta festa popular resiste há centenas de anos, mesmo diante das maiores estiagem registradas na história do Nordeste brasileiro.
Mas, como se diz “lá em nois”, quem quer fazer, encontra um meio, quem não quer, encontra uma desculpa. O governador optou pela segunda hipótese. Assim, não bastasse ao nordestino ter sido enganado com a vã promessa de transposição do Velho Chico, os paraibanos ainda serão privados de festejar a mais tradicional festa da região, o São João e o São Pedro. Muito embora, ainda possa fazê-lo indo até o vizinho Estado de Pernambuco, e curtir Caruaru, a Capital do forró.

Visão crítica

Aucélio Gusmão


Visão crítica é percepção de fatos e realidades. É a leitura interpretativa do discurso e das práticas.
Apostar na mesmice é acreditar que a vida corre sem mudanças, que o tradicional inspira segurança, esquecido o fato de que tal atitude não é verdadeira, mascara inclu
Imitar é bem mais fácil que criar; contudo, nada acrescenta, por repetir os mesmos caminhos. Verdades anteriores nem sempre resistem à contemporaneidade. Serviram e foram eficientes, mas as necessidades mudaram.
A “onda vitoriosa” tem levado muita gente ao dissabor. O “bem coletivo” não existe, pois as pessoas são diferentes. O que é construtivo e promissor para uns pode não atender outros, pode até desconfortá-los.
A verdade é que o mundo conservador cede importantes espaços ao mundo moderno. São novos valores que influenciam as pessoas de forma bem marcante.
Os hábitos e costumes foram bastante impactados. Os comportamentos, também. Muito do não aceito, discriminado até pouco tempo, é assumido e praticado sem nenhum constrangimento.
Duro mesmo tem sido para os grupos pré-transição. Estes não se rendem. Não foram convencidos, nem tiveram oportunidade e tempo para adaptação. Sentem-se violentados e agredidos nas suas maneiras de pensar e agir.
A visão crítica na modernidade é uma exigência, pois as realidades são bastante distintas e suscitam diversidades comportamentais.
Esta é a moral da história do barqueiro inexperiente e do peixe que nadava sempre contra a corrente. Indagado a propósito da “lógica” do peixe, até hoje o inadvertido barqueiro não conseguiu ouvir a resposta, pois seu barco mergulhou indefeso no despenhadeiro.
Sua avaliação foi plenamente inadequada, tanto que o tributo pago foi muito caro.
Perdeu a vida. Faltou visão crítica.
Sem dúvidas, uma visão crítica é antes de mais nada, uma visão analítica, onde as chances de um julgamento mais adequado se ampliam consideravelmente.

 

Fundamentos diferentes

Dom Genival Saraiva


Graças ao exercício da liberdade, há visões diferentes e posições divergentes, em tudo que é administrado pelo ser humano,. A humanidade cresce em razão da pluralidade de ideias, do confronto de opiniões e da soma de experiências. Encontra-se esse fenômeno, em todas as civilizações. Evidentemente, em nenhum setor da atividade humana se chegará a um ponto de equilíbrio sem um consenso básico, por parte das pessoas ou instituições envolvidas, em torno de determinada causa. Essa é a concepção filosófica de Hegel: diante de uma tese, contrapõe-se uma antítese; daí, obviamente, deve-se chegar a uma síntese. Isso acontece, no dia a dia, no diálogo entre pessoas e nas relações institucionais, sob pena de se estabelecerem distâncias que comprometem a relação interpessoal, a ordem pública, a paz social e o desenvolvimento econômico.
Na sociedade, há lugar para o pluralismo e para a diversidade; todavia, diante disso, deve haver parâmetros fundamentais que norteiem a posição que alguém ou alguma instituição deva tomar, em face da verdade. Na falta deles, a razão não prevalece, a ciência é relativizada, o poder é absolutizado e a religião é desconsiderada. Há sempre um perigo para a sociedade quando, por falta desses parâmetros, se adota uma posição ao sabor das circunstâncias, soprada pelos ventos do momento ou tocada pelo radicalismo intransigente. É muito comum, nesse caso, criar-se uma situação desfavorável à vida e à convivência.
A sociedade deve ter pleno respeito às instituições que existem, legalmente, no âmbito dos três poderes da República; embora discordando de posições adotadas, administrativa ou normativamente, os cidadãos devem observar o que foi disposto, legalmente. Por isso, por um ato do Poder Executivo, elevando o preço de determinado bem, os usuários estão submetidos a essa decisão; uma Lei aprovada na Assembleia Legislativa de um Estado obriga a sua observância por seus cidadãos; a posição do Supremo Tribunal Federal sobre determinada matéria não é mais objeto de recorrência judicial, por ser este ente a última instância de decisão. O cidadão ou a instituição pode não concordar, porém há uma obrigação de observar aquilo que foi definido.
Um caso emblemático foi definido pelo Supremo Tribunal Federal, recentemente: o aborto de feto com anencefalia, isto é, com má formação congênita. A boa ciência ensina que esse “defeito congênito” não retira do feto a condição de ser humano; é um ser em gestação que, ao nascer, tem uma curta existência, em consequência do problema no encéfalo, “o conjunto de órgãos do sistema nervoso central contidos na caixa craniana.”
A posição da maioria dos membros do Supremo Tribunal Federal, favorável ao aborto do feto nessa situação, está fundamentada em leis positivas e na sua formação jurídica, não considerando o princípio natural e também constitucional do direito à vida. O aborto, como tal, mesmo quando aprovado por lei em muitos países, transfere para a mãe o direito de decidir que o feto não deve nascer.
A posição do STF não é antítese à posição da religião sobre a vida, é antítese à tese da lei natural, segundo a qual o feto tem o direito à vida, mesmo com anencefalia. A posição do STF e a posição da Igreja Católica são divergentes, por fundamentos e visões diferentes.

Pilares da Empresa Familiar

Domingos Ricca*


Sem dúvida, afigura mais importante da empresa familiar é o fundador. O pai, o avô, aquele que desenvolveu e concretizou o negócio é exemplo a ser seguido pelos familiares. Ele possui todo o conhecimento sobre a empresa e sabe a melhor forma de solucionar cada tipo de problema corporativo.
Além disso, a imagem que a própria organização apresenta frente ao mercado está diretamente vinculada à personalidade do patriarca. Seus princípios e valores são incorporados no modo de atuação da empresa, direcionando o posicionamento que ela apresenta frente aos funcionários, aos clientes e à comunidade.
A identidade de uma empresa familiar está pautada em quatro pilares, que foram adotados pelo fundador no início do negócio. Garantir a perpetuação desses sustentáculos,transmitindo-os aos sucessores, é o principal meio para dar continuidade ao modelo de gestão consolidado. Os quatro pilares são: palavra/ credibilidade, perseverança, carisma/ liderança e cultura.
No início, a palavra é tudo o que o fundador possui como forma de garantia, ou seja, toda sua credibilidade fica pautada na concretização de suas ações. Se o sucessor estiver consciente da força que tem a palavra dada, a confiança que os clientes depositaram em seu antecessor também será transmitida a ele.
Além disso, é importante que a futura geração conheça a trajetória de vida do fundador, a fim de compreender a importância da sua perseverança e do seu esforço no desenvolvimento da empresa. Os herdeiros que sabem das dificuldades enfrentadas tendem a valorizar mais o negócio da família.
A liderança e o carisma são as únicas características que o patriarca não consegue transmitir aos seus herdeiros, pois a personalidade é moldada a partir da trajetória de vida de cada um. O herdeiro deverá, além de apresentar capacidade necessária para assumir a gestão, possuir e transmitir os valores que simbolizam a organização.
A palavra, a credibilidade, a perseverança, a liderança e o carisma foram os pilares de apoio na formação e expansão do negócio, formando a cultura empresarial. Um planejamento sucessório consiste em manter esse conjunto de valores, transferindo-os às próximas gerações.
Por este motivo, a presença do fundador, como fonte do conhecimento, é fundamental no processo sucessório. Ele é quem deve indicar a pessoa mais capacitada para assumir seu cargo na empresa, sendo ela da família ou não.
Esse sucessor fica responsável por levar adiante toda a cultura do patriarca, inclusive suas crenças e suas atitudes relacionadas aos desafios, aos sucessos e aos insucessos enfrentados. Assim, é possível perpetuar o negócio desenvolvido e consolidado, mantendo também a imagem da empresa no mercado.

Educação e competência

Fernando Leal


É provável que você, leitor, já tenha se referido a alguém o chamando de competente. Isso em razão de alguma habilidade especial que essa pessoa tenha, qualquer que seja a atividade que ela desempenhe. Tanto faz que seja um eletricista, um encanador, um médico ou um engenheiro.
O termo competente vale para todos aqueles que são mestres no que fazem. Os dicionários registram para essa palavra o significado: aquele que tem capacidade para realizar, resolver ou apreciar determinada coisa.
Competência e desempenho são coisas distintas. Os pilotos da fórmula 1 são competentes para resolver a situação complexa que é dirigir um daqueles carros. Caso não fossem, escuderia nenhuma entregaria o seu carro para ser guiado por eles. Ocorre, no entanto, que os seus desempenhos são bem diferentes.
Essas competências podem ser aprendidas ou mesmo desenvolvidas? Tal questionamento tem sido constante em educadores, mais efetivamente a partir de 1990, ano em que foi elaborada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, em conferência realizada na Tailândia. Questionou-se muito fortemente na ocasião, a forma como os ensinamentos eram transmitidos, como uma série de assuntos para guardar na memória do aprendiz ou exercícios para praticar à exaustão, vindo daí a necessidade de se proceder mudanças estruturais na forma como a educação vinha sendo conduzida.
Surge desse movimento a ideia de educação orientada para competências. E o que é isso? Segundo o sociólogo suíço, Philippe Perrenoud,um dos grandes teóricos do assunto, competência em educação é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos – como saberes, habilidades e informações – para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.
E o que muda com isso na educação? Desde que somos levados à escola pela primeira vez, a cada dia vamos acumulando novas informações. Muitas delas apresentados de forma desconexa, sem que sejam feitas ligações que permitam ao aluno entender a sua utilidade. Com a educação orientada para a competência, o que deixa de fazer sentido é a apresentação do conteúdo pelo conteúdo. Já não cabe mais a fala daquele professor que se orgulha de ter ministrado todos os itens previstos no seu plano de ensino, mas sem a preocupação de saber o que os alunos farão com aquelas informações.
No conceito de Perrenoud chama a atenção a sua parte final, que é a solução de situações complexas, o que deve ser feito com a mobilização dos recursos cognitivos apresentados ao aluno. E são essas situações que passam a ser valorizadas. Um exemplo: o que fazer numa cidade desconhecida, com um mapa na mão? Como situar-se? Como encontrar determinados locais? Numa situação complexa como essa, diversos conteúdos, de disciplinas também diversas que se entrelaçam, são mobilizados para a resposta. História, Geografia, Matemática, Comunicação, tudo isso se junta na solução. Só falta agora os professores se juntarem para resolverem mais essa situação complexa em benefício dos alunos.

BRINCANDO COM A POUPANÇA

MARCOS SOUTO MAIOR


Nesse final de semana, chego à fazenda do meu sogro Hermano, porque gosto de animais e daquele cheiro de natureza que a cidade grande não tem.
O sol vai se escondendo devagarzinho, dando sinal para o término dos trabalhos de agricultura e pecuária, com os trabalhadores arrumando seus instrumentos.
Aproximei-me do vaqueiro Ricardo que retirava arreios, cela e bridão do seu cavalo “Pensamento” e, enquanto escovava a crina da montaria me perguntou: “‘dotô’ eu tenho uma poupancinha mixuruca e o ‘gunverno’ tá querendo ficar com um pedaço. O ‘sinhô’ sabe dizer?”
Não esperava pergunta tão complicada. Fiquei meio confuso, até porque, honestamente, quanto mais o ministro Mantega aparece na TV, com cara de bolacha redonda, para tentar explicar o corte da remuneração das poupanças, eu tenho mais dúvidas.
Essa pergunta do vaqueiro me faz lembrar os resultados do desastroso e inesquecível “plano Collor”, organizado pela falante ex-ministra Zélia Cardoso.
O rendimento da poupança era de 6,17% ao ano, o que significa dizer míseros 0,5% ao mês, com uma inflação cinco vezes mais, com única vantagem de não pagar impostos nem taxas.
Para tirar um pedaço das economias do povo, o governo Dilma continua usando e abusando de utilizar Medidas Provisórias, que vêm a ser primas carnais do extinto Decreto-lei e imitando seu antecessor.
Só está faltando mesmo é o anúncio de confisco da desvalida poupança brasileira, pesadelo que se mantém aceso quando mexem no único meio de evitar a desvalorização da nossa moeda.
Resumo da ópera bufa: a mudança da remuneração da poupança seria medida técnica para baixar os escorchantes juros praticados pelos ricos banqueiros deste país verde-amarelo.
Como tem acontecido nesse mundo desigual, para que os banqueiros baixem os valores dos juros praticados pela velha poupança a população enganada sofre as consequências da sua desvalorização.
O vaqueiro Ricardo, desolado, só vai entender e sentir essa injusta Medida Provisória daqui a um mês, quando o sistema estiver praticando o novo modelo. Até porque Selic poderia ser o nome de novo potro da fazenda...
Nem mesmo o período pré-eleitoral em curso fora levado em conta para previsão do impacto, na base popular do país. A ânsia imprudente de igualar os juros internacionais com os nossos e o complicado equilíbrio do câmbio sobrou para a poupança popular que pagará com a diminuição da pequena remuneração praticada até então.
Permito-me utilizar da palavra mágica inventada pelo ex-ministro do Trabalho, sindicalista Antônio Rogério Magri, nos idos de 1990, quando bradou em plenos pulmões, o neologismo “o plano Collor é IMEXÍVEL”, o que seria justa a extensão à poupança do povo, no protesto dos esquecidos.
Poupança é coisa séria para o povo! Brincar com ela não é o melhor caminho para tapar o sol com a peneira dos juros praticados no Brasil e se equiparar aos valores internacionais.
 

AO LONGO DOS LONGES

CASSIMIRO DO Ó


Dentro dos encantamentos que se acomodam em nossa alma, não me incomodo se porventura não chegarem a acontecer.
Buscar ávido uma sustentação para se compor perante um momento móvel, que se consome num simples chegar, sem uma identificação prévia, não vale a pena ir ao seu encontro, não merece confiabilidade.
Porém, em algum lugar, algo, alguém, tentará “impor” vontades desnudas de sentimento, apenas com o firme propósito de atender aos seus “descuidos”, numa tentativa vã de se fazer notar; precisa disso, é todo prontidão.
“Silenciosamente” requisita planos para tentar abraçar o que na realidade nem chega a formar uma lembrança, uma saudade, uma razão de ser.
Seria, poderíamos assim dizer: uma aproximação que tenta aniversariar, mas que na realidade não vai à intimidade da alma, não consegue ultrapassar degraus de uma emoção mais pura; não é séria.
Diante do “tudo”, não chega a formar mensagens que se aproximem, que promovam encontros, que cheguem a atender as necessidades.
Por mais que tente não conduz recados purificados.
Observa-se uma distância que teima em prosseguir, que não consegue formar uma sólida amizade. Dar azo a dúvidas.
O aproximar torna-se dificultado por conta da ausência do confessar felicidade. É esquisito.
Fica, forma manifestação superficial.
Perde-se ao longo dos longes.
* *
Doar-se a tudo que se faz é algo que requer intensidade de propósitos e a necessária crença em sua realização.
O caminho é inteiro, supera adjetivação.
Ele transmite recados erguidos, aquecidos pelo sentir sem submissão.
Ele se encontra sempre disponível, em regime autêntico.
Quando diante dos fatos,não se permite ser falso. Ele confessa tempo que acontece em cada momento do sonho, vive-o num sabor de encanto, resiste...
No vento seu, embarca na nau dos desejos em busca de oceanos que de preferência não indiquem “batismos”, mas que sejam trajados de pacíficos, não ultrajando o que resta de...
Dentro dos nossos espaços de viver, reflexivos então, saibamos diferenciar aquilo que se aproxima vestido de “um mais que nós”, mas que nós em verdade não o acompanhamos.
Poderíamos até concluir: não chegamos a reconhecê-lo, é descartável.
E, num amanhã, numa bela manhã, possamos abraçar sem surpresas aquilo que não surpreenda o amor pela dor, mas pelo ardor de como procura se compor.
“Perduto é tutto il tempo ch’in amor non si spende”.
 

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