Neiva, Cidadão do Mundo
Nagib Jorge Neto*
Nossa geração conviveu com Neiva Moreira, no Maranhão e no país, ao longo de sua atuação como jornalista e político, engajado nas lutas contra a opressão e a injustiça social. Nos anos 50, do século passado, então repórter de O Cruzeiro, Neiva passou a integrar a oposição aos grupos que detinham o poder no Maranhão, as oligarquias que se valiam da fraude e da violência para intimidar e esmagar os opositores. Na época, São Luís era uma cidade de conflitos, greves, indignação, sendo vista no país como “Ilha Rebelde”, rebeldia que entusiasmou o jovem repórter e iria marcar seus discursos, textos, sua visão de Estado e país.
Então ajudou no avanço das forças de oposição e ganhou dimensão nacional como político e líder de sua geração, ampliando a luta com os jornalistas Amorim Parga, Franklin de Oliveira, José Louzeiro, Reginaldo Teles e o general Lino Machado. Logo depois contribui para formar jornalistas comprometidos com os ideais de liberdade, democracia e justiça social, com a fundação do Jornal do Povo, que reagia às posições tímidas da imprensa da época. No período também lutou para ampliar as bases da oposição com lideranças como os médicos José Henrique, William Moreira Lima e Maria Aragão, os deputados Joaquim Mochel, José Sarney, José Bento Neves, Sálvio Dino e Erasmo Dias, integrantes das Oposições Coligadas.
Daí em diante, Neiva persistiu no combate às causas do atraso no Maranhão e no país e na defesa dos movimentos sociais. Essa posição cresceu mais tarde no Congresso Nacional, como líder da Frente Parlamentar Nacionalista, defendendo os recursos e empresas nacionais, postura que manteve após sua prisão e exílio no golpe de 1964. Então exilado, o menino pobre de Nova Iorque, cidade da área do Parnaíba, no Maranhão, vai além e passa a ser - na expressão feliz da ex-deputada Helena Heluy - um Cidadão do Mundo, editando uma revista que marcou época - os Cadernos do Terceiro Mundo. Naquela fase, Neiva Moreira defendeu os países do terceiro mundo, os anseios de libertação, liberdade e justiça social.
Nossa geração acompanhou essa trajetória e, no caso, fiz parte do Jornal do Povo, ao lado de Bandeira Tribuzzi, Ubiratan Teixeira, Manoel Lopes, Benito Neiva, Clóvis Sena, Joaquim Itapary, Benedito Buzar, Hubert Macedo e José Mário Santos. No período integrei sua assessoria na Frente Parlamentar Nacionalista, e depois de 79 - após sua volta do exílio - fui repórter de O País, sempre atento aos seus escritos, lições, marcantes em São Luís, também em Brasília, onde atuava com Ariosto Neiva nos encontros da Frente, com Sérgio Magalhães, Adão Pereira Nunes, Paulo de Tarso, Leonel Brizola, Fernando Santana, Cândido Aragão e Plínio de Arruda Sampaio.
Depois houve encontros no Rio, Recife, São Luís, com enfoque em sua ação no PDT, divergências de Arraes e Brizola, e lembranças de fatos, avanços e recuos. Na última conversa, Neiva afirmou em tom de brincadeira - da prisão para o Palácio. Um caminho penoso – observei - mas coerente com seu discurso, ações, atos, sempre generosos e solidários. Isto foi em 2008 e em abril deste ano estive na Ilha, numa UTI de hospital, tendo a impressão de despedida de um mestre, que mantinha no rosto marcas de idéias e convicções permanentes. A sua morte, pois, aos 94 anos, no dia 10 deste mês, é uma perda para o povo brasileiro, a política e o jornalismo, que enriqueceu com suas reportagens, artigos, lutas, um patrimônio que deixa para o Maranhão e o nosso país.
