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COTIDIANO

Conversas mostram policial tentando interferir em soltura de traficante: 'Tem santo aqui não'

Áudios revelam Everton Aires, agente da Polícia Civil, falando com um interlocutor sobre a tentativa de tirar traficante da prisão, na Paraíba.

Publicado em 09/06/2026 às 13:43


					Conversas mostram policial tentando interferir em soltura de traficante: 'Tem santo aqui não'
Conversas mostram policial tentando interferir em soltura de traficante: 'Tem santo aqui não' - Foto: TV Globo.

Conversas via áudios obtidas durante a investigação que levou à prisão de um delegado e também de Everton Aires e Eduardo Jorge, agentes da Polícia Civil na Paraíba, mostram a tentativa do grupo criminoso em interferir em uma prisão e também na posterior soltura de traficantes.

O Jornal da Paraíba teve acesso aos áudios de Everton Aires, conhecido como "Bomba", sobre essa suposta interferência. Escute os áudios mais abaixo.

Aires, assim como Eduardo Jorge, conhecido como "Mão Branca", e o delegado Braz Morrini foram presos, juntamente com integrantes de uma facção criminosa, na semana passada, em um suposto esquema que desvia drogas apreendidas pela Polícia Civil e revendia ilegalmente depois.

Os áudios

Em um dos áudios, Everton fala sobre uma quantidade de drogas que teria motivado a prisão de um homem chamado por ele de "Ricardo". Conforme o relato, o homem foi preso por estar com 4 kg de crack em uma blitz. Depois, disso, Everton afirma ter "batido na porta de quem tinha que bater".

"A noite tudo é ruim de resolver. O Ricardo caiu mês passado, com. 4 kg de crack a noite. A gente não conseguiu resolver. Todas as portas que gente tinha bater, a gente não conseguiu. Quer dizer, bicho desceu pra Central (de Polícia Civil), desceu pra Caceragem. Aí no outro dia de manhã, no sábado mesmo, o cabra correr atrás foi uma desgraça, pô. Foi uma desgraça. E se você tivesse feito seu correzinho de dia, você não tinha baixado nem na Central. A gente tinha resolvido tudo na rua mesmo", disse.

Em outro áudio, o policial civil afirma que "quem livrou ele foi os PC", em alusão a tentativa de livrar o homem da prisão após a apreensão da droga.

"Diz a ele, meu filho, quem ele livrou ele foi os PC, Foi muita batida de esteira, meu filho, para poder ele escapar dessa. Mas graças a Deus, deu certo. Ricardo é um cara bom, é um cara de coração bom. Não tem que estar morfando de presídio, não. E é errado, é errado, gente é tudo errado, molque. Tem santo aqui não, não nenhum alecrim dourado aqui não. É a gente pela gente", ressaltou.

Ao fim da conversa, "Bomba" diz que Ricardo saiu da prisão após audiência de custódia que determinou o uso de tornozeleira eletrônica para o homem.

Ao Fantástico, o advogado de "Bomba" afirmou que o devido processo legal se instaurou e que o policial não aceita as acusações.

A investigação

O secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, afirmou que a investigação durou mais de um ano e que foram utilizados mais de 40 mil áudios durante as apurações.

Mais de um ano de investigação, mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e Gaeco. A gente tá combatendo a chegada do Comando Vermelho no nosso estado e agentes de segurança pública associados com traficantes alimentam essa facção para que possam retornar as drogas para as ruas. É uma gravidade importante de considerar”, disse.

A investigação também cumpriu mandados contra outros cinco suspeitos de integrar uma facção criminosa.

Segundo a Polícia Civil, a investigação teve início em fevereiro de 2025, após a denúncia de um traficante que relatou que drogas apreendidas teriam sido desviadas por agentes da corporação. Ao longo das apurações, os investigadores reuniram elementos que indicam que o esquema investigado teria movimentado cerca de R$ 10 milhões em vendas ao longo de quatro anos.

Dos nove mandados de prisão expedidos pela Justiça contra os suspeitos, oito foram cumpridos na operação Perfídus.

O que dizem as defesas dos citados

Em contato com o Jornal da Paraíba, a defesa do delegado Braz Morroni disse que a decisão da Justiça citada que fala sobre a suposta idade do investigado para a delegacia recolher uma cota da venda de drogas, "se baseou integralmente nos relatórios policiais" e que, estes, "se utilizam de conversas indiretas, entre os agentes de policia e outros invstigados" e que "não há uma única conversa do delegado com qualquer dos envolvidos em todos os relatórios policiais".

O advogado disse também que "isso revela que a Polícia Civil errou ao não fazer a devida individualização das condutas entre o delegado e os demais investigados".

Ele afirmou também que o delegado "está sendo preso e injustamente acusado antes mesmo de ser ouvido, exercer o contraditório ou de que a investigação esteja encerrada".

A defesa também disse que "repudia todas as presunções que se baseiam exclusivamente em conversas de terceiros" e que "não há uma única conversa que mostre o seu envolvimento em qualquer prática ilícita, e ao longo da investigação todos os fatos restarão devidamente esclarecidos e a inocência do delegado com efetivo serviço prestado no combate ao crime será evidenciada".

Procurada, a defesa de um dos agentes da polícia disse que os "investigados negam categoricamente a prática dos fatos que lhes são atribuídos e confiam que, ao final da apuração, a verdade será devidamente esclarecida". Além disso, a defesa também afirma que "as prisões decretadas possuem natureza temporária, instituto jurídico voltado exclusivamente a subsidiar o andamento das investigações, não representando qualquer juízo de culpa".

A defesa do outro agente, Everton Aires, emitiu uma nota e informou que foi formalmente constituída na quarta-feira (3), ressaltando "sua inocência, seu compromisso com a busca da verdade real e com a garantia constitucional da ampla defesa e do contraditório" e que "o trabalho técnico para assegurar a regularidade do processo e demonstrar a realidade dos fatos está sendo executado de forma profissional".

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Jornal da Paraíba

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