OPINIÃO: Flávio Tavares não será vomitado

Jamarrí Nogueira fala da nova obra do artista plástico paraibano.


Embora não seja um homem cristão, a Bíblia faz parte de meus hábitos de leitura. Agrada-me a provocação filosófica e a tessitura poética de grande parte dos versículos. A discordância ideológica não me impede de enxergar na Bíblia sua essência sábia e sua construção técnica que é fundamental para quem deseja ter o domínio da escrita.

O primeiro dos livros bíblicos que li, ainda criança, foi ‘Apocalipse’. Um desmantelo! Não consegui ir além do nono capítulo… Era aterrorizante demais para uma criança. A imagem de um ‘gafanhoto com dentes de leão e cauda de escorpião’ me fez tremer. Um bicho digno de um filme hollywoodiano.

E o seguinte trecho do Apocalipse me fez ter pesadelos: “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles”. Li e fechei a Bíblia. Somente voltei a abri-la na pré-adolescência. Ressabiado, preferi ‘começar do começo’, lendo o Gênesis. Aliviado, pulei vários livros e fui direto para os sinóticos.

Os livros históricos era muitos e saltei para os encantadores livros poéticos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cânticos. Uma delícia de leitura!!! Coisa para quem gosta de poesia. Há amor de paixão em Provérbios. Há desejo em Cânticos. “Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho”.

E bêbado de poesia (já refeito de livros polêmicos do Levítico) achei-me leve para retomar o Apocalipse. A leitura ainda me pareceu pesada, mas bem mais palatável que a experiência anterior. Sobrevivi aos muitos selos e trombetas… E olhei nos olhos daquele tal gafanhoto com dentes de leão e cauda de escorpião.

‘Uma ópera do fim do mundo’

Recentemente, recorri novamente ao Apocalipse, logo após visitar o admirável artista plástico Flávio Tavares, em sua ‘casa de quatro águas’, em João Pessoa. Seu painel ‘Brasil – Uma ópera do fim do mundo’ não saia de minha cabeça. Uma piramidal sequência de imagens que linka momentos históricos de um Brasil contemporâneo a poéticas infernalmente dantescas.

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“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Esse trecho da ‘Divina Comédia’, de Dante Alighieri, não põe medo no artista plástico paraibano Flávio Tavares. Porque neutralidade não pertence ao espírito inquieto de Flávio…

Diante do atual cenário político brasileiro, o artista toma partido!!! Sua produção mais recente – ‘Brasil – Uma ópera do fim do mundo’ – está exposta no Sesc Cabo Branco, em João Pessoa. Flávio acaba de concluir o painel ‘Brasil – Uma ópera do fim do mundo’. A tela de um artista indignado.

Marielle

O painel começa com uma releitura de ‘A mesa’, de 1848, feita por Jean-Baptiste Debret, em Paris. A moça bebendo água no Léthé, o Rio do Esquecimento, está linkada a Marielle (que é explicitamente retratada na tela). Figuras mascaradas na tela são baseadas em uma escultura do artista dinamarquês Jens Galschiot.

Há, ainda, uma barca com Caronte e uma ‘inquisição’ contra Dilma Rousseff. Lula é retratado como guardador de rebanhos. À mesa, estariam os responsáveis pelo golpe político: Michel Temer, Rosa Weber, Raquel Dodge, Luiz Fux, Cármem Lúcia, Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Gilmar Mendes e Sérgio Moro.

E, mais uma vez, recorrendo ao Apocalipse, é importante que – em tempos tão sombrios – tomemos partido… “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”. Definitivamente, Flávio Tavares não será vomitado…

* Jamarrí Nogueira é repórter da CBN João Pessoa e escreve sobre cultura e arte para o Jornal da Paraíba aos domingos