Professora e mãe adepta de homeschooling comenta desafios e vantagens da prática

Educação domiciliar é adotada por famílias que querem educar os filhos fora da escola, ou seja, em casa. Texto-base do projeto de lei que regulamenta a prática no Brasil foi aprovado na Câmara na noite da quarta (18).

Professora e mãe adepta de homeschooling comenta desafios e vantagens da prática. Foto: Arquivo pessoal.

Dando aulas para crianças desde a adolescência, Raema Almeida, de 27 anos, descobriu que a vocação profissional dela seria ensinar. Depois disso, estudou Letras e se tornou professora de inglês. Após quase uma década, deu um novo rumo para a carreira profissional em Campina Grande. Ela se capacitou para a nova jornada e deixou o ambiente escolar para trabalhar com a educação domiciliar, conhecida como homeschooling em inglês. O método também foi adotado em casa, com o filho de 1 ano e 5 meses, que já passa pela integração das línguas portuguesa e inglesa.

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A educação domiciliar – chamada de homeschooling – é o modelo adotado por famílias que querem educar os filhos fora da escola, ou seja, em casa. Nessa modalidade, elas mesmas ensinam as crianças ou contratam professores particulares para isso. O texto-base do projeto de lei (PL) 3.179 de 2012, que regulamenta a prática no Brasil, foi aprovado na Câmara na noite da quarta-feira (18). Os destaques da matéria ainda não foram votados, e serão analisados na próxima sessão, que acontece nesta quinta-feira (19).

Para usufruir da educação domiciliar, o estudante deverá estar regularmente matriculado em uma instituição de ensino, que acompanhará o desenvolvimento educacional durante o ensino.

Uma das exigências é que pelo menos um dos pais ou responsáveis tenha escolaridade de nível superior ou profissional tecnológica reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). Outro requisito é a certidão negativa perante as justiças federal e estadual (ou distrital).

A modalidade de ensino do inglês em casa foi a que mais se encaixou na rotina familiar de Raema. Em um turno, ela cuida do pequeno, que também é fluente no idioma americano. No período seguinte, ele fica com o pai. Além disso, foi a opção encontrada pela mãe após uma experiência traumática em uma escola convencional.

A gente preferiu assim porque a gente tem mais controle sobre a educação dele. A gente se sente mais seguro com ele em casa”, justificou.

Raema e o filho durante ensino em casa. Foto: Arquivo pessoal.

É justamente esse  filtro que Raema considera um ponto forte do ensino domiciliar. “A criança vai ter você como referencial maior. Você pode ensinar os valores que você acredita, como paciência e generosidade”, concluiu.

Outra vantagem apontada por ela é a possibilidade de ensinar por meio de atividades cotidianas. Como exemplo, ela comentou sobre mostrar a transformação do sólido para líquido enquanto cozinha.

Por enquanto, até que o filho tenha entre 6 e 7 anos, a intenção de Raema e do marido é continuar com a educação em casa. Mas, depois da alfabetização, o casal pensa em matricular o garoto em uma escola bilíngue.

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Desafios, enquanto mãe, do homeschooling e como a prática se encaixa na rotina da família

Raema tem conhecimento teórico e prático sobre pedagogia, adquirido durante a formação de professora. Por isso, não enfrenta tantos obstáculos para ensinar ao filho. Mas ela pontua como ponto negativo, a forma com que se cobra.

Quando a gente coloca isso [o ensino] sobre os nossos ombros, a gente se cobra bastante. A gente pode se frustrar muitas vezes. Eu vivi isso na pele”, contou

Estudante fazendo prova

Ela ressalta também que, no início, a criança não reconhece a mãe como professora, mas como uma figura de referência materna. Essa fase demanda um pouco de adaptação.

Além disso, outro grande desafio é a necessidade de atualização constante dos estudos sobre educação. Mas o maior contratempo de todos, para ela, é manter a disciplina.

Precisa de muita organização. As atribuições de uma mãe são várias. Esse é um grande desafio. Eu tenho que separar um momento do meu dia. Em alguns momentos, fica difícil achar esse tempo”, contou.

Por outro lado, a professora reforça que os responsáveis que não possuem conhecimento pedagógico, precisa do auxílio de tutores ou consultores, que devem orientar os pais sobre o planejamento do ensino.

No geral, o sucesso da modalidade depende muito da rotina de cada família. Os alunos de Raema que recebem as aulas em casa, por exemplo, têm uma espécie de complemento educacional personalizado, pautado de acordo com a organização familiar e o desempenho escolar, e especialmente focado para potencializar o aprendizado.

“O que as mães gostam é que eu vou pra casa delas. Além delas [crianças] estarem brincando e se divertindo, elas estão aprendendo outra língua, de uma forma muito natural. Essas aulas particulares ajudam bastante porque as mães não têm condições, por a rotina ser muito frenética, de levar as crianças para outro espaço. Em casa, no conforto do seu lar, é bem melhor. Como a atenção é só pra criança, o aprendizado é mais acelerado, mais intenso”, explicou.

Em nota, a ONG Todos Pela Educação define a educação como “uma opção de educar as crianças sob a responsabilidade da família […]. Entre os defensores, estão aqueles que veem essa prática como protetora de supostas ideologias transmitidas em sala de aula e de possíveis violências escolares”.
A ONG considera, ainda, que a educação domiciliar não é capaz de atender a três finalidades da Educação, dispostos na Constituição Federal em seu artigo 205, que são “o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho”.