Bolsonaro foi um mau militar, e ele está humilhando as Forças Armadas

Em 1974, eu gostava de visitar o Museu Fotográfico Walfredo Rodrigues. Era uma novidade em João Pessoa.

As fotografias do pioneiro Walfredo estavam ampliadas e expostas – todas legendadas – numa daquelas casas antigas na Duque de Caxias, entre a Praça Rio Branco e a Igreja de São Francisco. Passei horas diante delas nas muitas visitas que fiz ao museu.

Uma vez, estava todo feliz porque acabara de comprar o livro Laranja Mecânica, enquanto esperávamos pelo filme que havia sido proibido pelo regime militar.

Outra vez, levei minha avó materna, que tinha 75 anos e, de certo modo, se viu ali naquelas velhas e belas fotografias.

Em algumas, havia um homem que se destacava porque era mais alto do que os demais que apareciam ao seu lado.

Sabem quem era? Um jovem chamado Ernesto Geisel, que passara por aqui e ocupara um cargo público nos anos 1930.

Em 1974, quando eu visitava o museu, aquele jovem das fotografias de Walfredo Rodrigues era o quarto e penúltimo presidente dos 21 anos de ditadura militar.

Muita gente, inclusive gente de esquerda, acreditava que ele começaria, ao lado do general Golbery do Couto e Silva, a encaminhar o Brasil para o término do ciclo militar.

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O cineasta Glauber Rocha ouviu muito o antropólogo Darcy Ribeiro, e não foi à toa que Glauber chamou Golbery de “gênio da raça”.

Como breves ilustrações, menciono a ação dura do presidente contra seu ministro do Exército, o general Sylvio Frota, que queria endurecer o jogo; e o ostracismo no qual Geisel jogou o general Ednardo d’Ávila Mello no episódio do assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

Essas lembranças me ocorreram nesta terça-feira (10) quando vi as imagens daquele desfile de blindados na Praça dos Três Poderes, com o presidente Jair Bolsonaro no alto da rampa do Palácio do Planalto. Um “espetáculo” golpista para intimidar seus opositores.

Senti vergonha ao ler as notícias nos grandes jornais dos Estados Unidos e da Europa.

Mas onde entram as lembranças da minha juventude, nos anos 1970?

Entram no que o general Ernesto Geisel pensava sobre Jair Bolsonaro.

Foi ele – Geisel – que disse que Bolsonaro era um mau militar.

E certamente têm razão os que dizem que Bolsonaro – como militar frustrado e homem perverso que é – está humilhando as Forças Armadas.