É preciso reconhecer que o São João não é mais o mesmo. Meu São João é o que está muito bem guardado na memória afetiva

Em meados dos anos 1980, quando Ronaldo Cunha Lima era prefeito de Campina Grande, e eu era assessor cultural da Comissão do IV Centenário, fui ver de perto a festa que logo seria conhecida como o maior São João do mundo. Era encantadora. Já tinha traços de modernização, mas ainda era fortemente fincada nas nossas tradições juninas.

A última vez em que estive lá, já faz tempo, foi no ano 2000. Vi Eu, Tu, Eles, um filme profundamente nordestino, na última sessão do Cine Babilônia e, mais tarde, no Parque do Povo, assisti ao show de Marinês. Em seguida, Gilberto Gil mostrou um repertório quase todo dedicado ao cancioneiro de Luiz Gonzaga. Noite inesquecível.

Quando as quadrilhas começaram a mudar, percebi que o São João também mudava. As quadrilhas perderam a espontaneidade que tinham, o seu senso de improvisação, e se transformaram em algo ensaiado demais, coreografado demais. Havia beleza, claro, mas também uma ruptura que provocava estranheza aos meus olhos.

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Depois vieram os shows cada vez menos juninos. Artistas nordestinos – como Elba Ramalho – se queixaram, mas foi inútil. Até padres cantores já vimos. Sabem a minha opinião? Gosto? Não. Mas acho normal. “All things must pass”. Tudo passa. Não adianta estrebuchar. É o tempo, meninos e meninas. O tempo, o que ele leva e o que ele traz.

Na infância, morei numa rua que festejava os três santos juninos. Santo Antônio, na casa de Dona Júlia; São João, na casa de Dona Ivete; São Pedro, na casa de Seu Rosendo. Eram festas que envolviam a vizinhança. Posso dizer, então, que o meu São João é o que está bem guardado na memória afetiva. Ao som dessa marchinha de Luiz Gonzaga.