Depressão e suicídio: as dificuldades de se entender quem tenta tirar a própria vida

Suicídio é uma das possíveis consequências da depressão e afeta mais de 11 mil por ano.

Mileny usa a leitura como refúgio contra a depressão (Foto: Douglas de Oliveira)

O céu estava ensolarado naquela manhã de outono. Se bem que pouco adianta mencionar a estação, já que, em João Pessoa, o clima funciona de maneira indefinida. Interessa destacar o outono por questões de data. Era mais um 12 de junho, dessa vez em 2017. Dia dos Namorados. Os atrasados lotavam shoppings e lojas do centro da cidade. Enquanto o movimento fluía na cidade – e nas vidas de grande parte dos casais – conforme o esperado para essa data, o mundo de Milleny, 39, parecia ruir. Não enxergava vazão para o desespero de sentir-se só no primeiro 12 de junho, em dez anos, sem o companheiro, que tinha morrido em fevereiro de 2017.

A rotina comum daquele Dia dos Namorados chegou a ela como uma onda de devastação. Havia flores por todos os lados, mas elas só tinham cheiro de morte. Naquele momento, Milleny não decidiu. Não seria possível escolher nada diante da agonia. Ela foi arrastada, pela depressão que nem sabia que tinha, ao impulso de tentar tirar a própria vida. Nesta quarta reportagem, a série de reportagens ‘As Faces do Vazio’ aborda a relação entre a depressão e o suicídio.

(Esse texto faz parte da série  ‘As Faces do Vazio’, produzida por Douglas de Oliveira originalmente como trabalho de conclusão no curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba.)

Socorrida a tempo, Milleny precisou ficar internada numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por oito dias. Depois, foi encaminhada para a enfermaria, onde permaneceu durante um mês e 12 dias. Já nesse período, o psiquiatra conversou com ela. Explicou o que era depressão e diagnosticou-a com o transtorno em um nível grave. Ela não aceitou. Se agrediu. O médico disse que ela precisava tomar as medicações e fazer o tratamento adequado para voltar para casa.

Só a partir desse episódio, ela entendeu que precisava obedecer ao médico, que só assim ficaria bem, que o luto se estendera demais e transformara-se em depressão.

Histórico de dores

Milleny tivera alguns traumas em sua vida. O primeiro casamento, que durara 13 anos, foi indesejado e litigioso desde o início. Sua mãe a obrigara a sair de casa ainda na adolescência, depois que o rapaz pedira para namorá-la. Os únicos frutos saudáveis dessa relação foram seus dois filhos: a menina tem 21 anos de idade e o menino, 18.

Após quase dois anos de divórcio, Milleny encontrou um grande amor. Casou-se sem pressões e, com ele, construiu uma relação de confiança, carinho, zelo. O primeiro baque veio logo no início da convivência conjugal. Internado, o marido descobriu que o vírus HIV corria em suas veias. E disse à esposa que, sem saber, havia transmitido a doença para ela. Milleny chorou a noite inteira.

Dez anos depois, o marido se internou pela última vez. Como fora contaminado aos 17 anos de idade e não descobrira cedo, não se tratou durante muito tempo. Os medicamentos não conseguiram conter o avanço do vírus. Ele morreu em fevereiro de 2017. E Milleny chorou dias inteiros.

Momento da virada

Após o diagnóstico do transtorno depressivo, Milleny passou a se tratar com medicamentos e terapia. Voltou a estudar em fevereiro de 2018, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), a fim de cursar o único ano que lhe faltava para segurar com firmeza o certificado de conclusão do ensino médio.

Nos primeiros dias de aula, em um ciclo de discussões sobre transtornos mentais, ela se abriu para os colegas e deu uma palestra sobre depressão e suicídio. Mesmo assim, ainda convive com recaídas. “A minha depressão é num estágio tão avançado que eu não posso ter contrariedades. Se eu tiver contrariedade, eu me tranco, eu me isolo, e eu corro o risco de tentar suicídio”, diz ela.

Recaídas e retomadas

Algumas desavenças cotidianas impactam sua saúde mental. Depois do dia 12 de junho, Milleny tentou suicídio outra vez. Além disso, a depressão atingiu-a com ainda mais agressividade. Chegou a passar dois meses sem atravessar a porta de casa. Durante esse período, mal comia ou tomava banho. Seu refúgio era a cama. Perdeu 20 quilos.

Os medicamentos somados à terapia a resgataram dessa situação, conforme o médico havia dito. No entanto, em outubro de 2018, veio outra recaída. Milleny ficou 20 dias internada. Precisou se afastar da escola e acabou atrasando os conteúdos. Quatro dias após sair da internação, tentou prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Não conseguiu. Passou mal na sala. Só fez a prova do segundo dia de Exame.

A todos esses acontecimentos, algumas pessoas da família respondem com ignorância. Milleny diz que notou um afastamento de seus familiares depois do seu diagnóstico. E ouviu injustas ofensas: “Ela é louca”, “Isso é frescura dela”, “Ela só quer aparecer e ser a dondoquinha”, “Ela não tem como chamar atenção, aí tá chamando atenção nisso”, “Ela quer uma empregada que faça as coisas pra ela”, “Ela tem que aprender que tá viva e tem que fazer as coisas”, “Se levanta e sai dessa porque se não tu vai morrer”. Desacreditar dos pesares de um potencial suicida e duvidar das consequências alertadas durante o tempo pode contribuir com a concretização das ideações.

Suicidas nunca devem ser ‘encorajados’

Segundo a psiquiatra Diana Martins, “não se deve encorajar a tentativa de suicídio”, dizendo, por exemplo, “vá, se jogue da ponte” ou “tome o veneno”. Para ela, “mesmo que, naquele momento, ter dito aquilo [que quer se matar] tenha sido intencional pra chamar a atenção do outro, nós consideramos que não é normal alguém tentar chamar a atenção de uma forma tão drástica e dramática. Então, se a pessoa está tentando chamar atenção dizendo que vai se matar, já é um indício de que algo deve ser feito por aquela pessoa porque, de uma forma meio mascarada, ela está pedindo ajuda”.

“Eu digo pra minha psicóloga que eu não sinto vontade de viver. Eu não sei o porquê. Eu me sinto bem, mas a minha mente me diz que eu não sinto vontade de viver. Se eu disser a você que eu não penso em tirar a minha vida… Eu penso nisso todos os dias, todos os dias. Quando eu tô em casa só, eu penso em fazer, mas também, quando minha mente tá fixada naquilo, eu vou pro banheiro, fico embaixo do chuveiro pra tirar aquilo da minha mente. Eu choro. Porque eu não quero isso, mas a minha mente quer. Eu disse até à minha psicóloga que não sei explicar o porquê”, desabafa Milleny.

‘Vida que não vale a pena’

Diana Martins explica que os pensamentos suicidas são coerentes com o estado de humor da pessoa na hora em que eles vêm à tona. Na Psiquiatria, usa-se o termo “egosintônico” para definir o estado de sintonia entre as sensações ou os comportamentos do ser humano em determinado momento e as necessidades que ele julga ter a partir disso.

Assim, a morte pode surgir como um objetivo para as pessoas com depressão em períodos nos quais elas sentem que a vida não vale a pena, sofrem com a ausência de projetos de futuro, ou até mesmo descontentam- se com a própria imagem. A ideação suicida é, portanto, a consequência de um estado extremo de humor deprimido.

Hoje em dia, a partir do autoconhecimento propiciado principalmente pelas terapias, Milleny encontra outros refúgios além da cama para as lutas que trava com sua mente, seja no chuveiro, seja nos livros. Ela viaja naquelas páginas, esvai-se de seus pensamentos suicidas. “Se eu não durmo à noite, eu leio. Eu consigo entrar no livro. É incrível!”.

Uma de suas obras favoritas é ‘Quem me roubou de mim?’, do Padre Fábio de Melo. Milleny mergulha ali numa história semelhante à sua e reencontra a paz que a depressão lhe roubava. Sua filha gosta de fotografá-la lendo. Os livros escondendo o rosto abaixo dos olhos. É a jovem também quem estimula a mãe a estudar, a fazer os exercícios da escola.

E nas páginas do caderno, Milleny também lembra de si e esquece a depressão. Lembra-se do seu sonho de chegar à universidade e tornar-se engenheira. E o futuro, então, surge não mais como um caminho fechado, mas como uma rota traçada, um lampejo duradouro de vida.

Diana Martins diz que “não se deve encorajar a tentativa de suicídio” (Foto: Douglas de Oliveira)

CVV e vidas ressignificadas

Preocupado com o preenchimento dos vazios da mente e com o acolhimento da palavra daqueles que se asfixiam nas próprias angústias, o Centro de Valorização à Vida (CVV) presta um serviço voluntário de apoio emocional. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 90% dos casos de suicídio podem ser evitados. Como rede preventiva, o CVV atende por telefone, chat, Skype, e-mail e pessoalmente. O meio mais procurado é o telefone (188).

E por que falar sobre as próprias emoções é importante? Como a mente de um potencial suicida normalmente está embaralhada de pensamentos que causam angústia e agonia, o ato de conversar ajuda a organizar minimamente as coisas. No momento da fala, a pessoa precisa ajustar suas ideias para que a mensagem seja compreensível ao outro. E assim, encontrando palavras e elaborando frases, ela consegue explicar o que está acontecendo e entender a confusão que embaça sua visão.

Embora atue preventivamente, a porta-voz do CVV João Pessoa, Aparecida Melo, deixa claro que o serviço não substitui o tratamento medicamentoso e a psicoterapia. “O papel do voluntário é diferente do trabalho de um psicólogo. Ele passa por três meses de treinamento para atuar numa função de escuta sem julgamentos nem direcionamentos. Muitas vezes, quem procura o serviço está cercado de pessoas, mas sente um vazio e quer conversar com alguém que o escute sem críticas. O trabalho é totalmente sigiloso e anônimo, não religioso, não político. O voluntário é treinado para ouvir e conversar, mas não deve opinar sobre isso ou sobre outras decisões de quem liga”, explica Aparecida.

Atendimento após tentativa

Assim como a prevenção desempenha um importante papel de controle dos casos de suicídio, a fase de atendimento chamada de posvenção, após uma tentativa de suicídio, também tem grande relevância. No Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, mais de 150 pessoas foram socorridas em decorrência de tentativa de suicídio em 2018. Números elevados também eram registrados nos anos anteriores, alguns deles por reincidência.

Percebendo essa possibilidade recorrente, a coordenadora de Psicologia do hospital, Anne Michelle, criou o projeto “Ressignificando Vidas”, no intuito de prestar maior assistência às vítimas de tentativas de suicídio e evitar que repetissem o ato. Em vez de somente encaminhar os pacientes para os serviços públicos de saúde mental, a psicóloga insere-os no projeto após a alta hospitalar.

Atendimento especializado

Em um ambulatório construído no Hospital de Trauma, eles e suas famílias são assistidos por uma equipe de psicólogos e psiquiatras, em atendimentos individuais ou grupais. O acompanhamento dura geralmente entre seis e oito semanas. Após esse período, os pacientes são encaminhados para serviços como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

“ A importância do projeto é ressignificar vidas. Porque, quando o paciente vem, ele vem cheio de fantasias, medo, conflito e negatividade. Querendo matar não a sua própria vida, mas a dor que lhe causa a angústia a ponto de ter o pensamento suicida. E na psicoterapia, ele vai ressignificando o valor da vida dele através das intervenções terapêuticas. Existe uma nova chance”, diz Anne Michelle.

Mileny sonha em terminar os estudos (Foto: Douglas de Oliveira)

Sonhos seguem vivos

Milleny está aproveitando a nova chance, equilibrando-se na corda bamba da vida. Quando nos encontramos, ela usava uma blusa com os dizeres “gratidão te faz sorrir até na fila do pão”. A estudante segue sorrindo quando consegue. E tem conseguido. O motivo? Gratidão. Pela vida. Pelos filhos. Pelos familiares que a apoiam. Pelo seu marido, a quem deve um juramento. Ele, que era analfabeto, após as tentativas de investimento na educação da esposa, oferecendo-se para pagar uma faculdade particular para ela, ouvia sempre a mesma resposta: “Quem sabe um dia…”.

Durante a última internação, 15 dias antes do seu falecimento, pedira que ela fizesse um juramento com algumas cláusulas: não ficar triste se o marido morresse; nunca tentar tirar a própria vida; jamais esquecê-lo, embora case com qualquer outro homem; estudar, se formar e falar o nome dele na formatura, pois esse sonho também lhe pertencia.

Sonhos e metas

Devido às faltas ocasionadas pelas internações em 2018, Milleny teve dificuldades para concluir as avaliações e decidiu repetir o ano. Não desistiu e vislumbra seu futuro. “Meu sonho? Terminar meus estudos, fazer o Enem, cursar Engenharia Civil. Não quero fazer particular, quero fazer público, porque isso é um sonho de infância. Eu tenho fé em Deus que eu vou conseguir. Não só pra eu dar uma vida melhor aos meus filhos, mas também pra realizar um sonho que eu tenho. Ser uma engenheira… Eu gosto muito de Matemática, de Química, de Física. Então isso pra mim já é um ponto. E se eu não conseguir, eu tenho outro sonho, que é fazer Gastronomia. Nunca disse isso pra ninguém. Mas também é um sonho porque eu amo cozinhar. Esse é o meu projeto de vida daqui pra frente. E eu tenho fé em Deus que eu vou conseguir”, diz ela sorrindo mais uma vez.

* Com edição de Jhonathan Oliveira

* A série ‘As faces do vazio’ é originária da grande reportagem ‘Entre semblantes, sentimentos e sentidos: a (des)construção discursiva da depressão sob a ótica do jornalismo’ apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo do acadêmico Douglas Oliveira, sob orientação de Carlos Azevedo.