SILVIO OSIAS
O Leblon de Manoel Carlos pode ser aqui
Gigante da teledramaturgia, Maneco morreu aos 92 anos no sábado, 10 de janeiro de 2026.
Publicado em 13/01/2026 às 4:01

Em Por Amor (1997/1998), o tema de abertura era Falando de Amor, de Tom Jobim, na versão do Quarteto em Cy com o MPB4.
Em Laços de Família (2000/2001), o tema de abertura era Corcovado, de Tom Jobim, na versão de João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz.
Em Mulheres Apaixonadas (2003), o tema de abertura era Pela Luz dos Olhos Teus, de Vinícius de Moraes, na versão de Tom Jobim e Miúcha.
Em Páginas da Vida (2006/2007), o tema de abertura era Wave, de Tom Jobim, em versão instrumental com o próprio autor.
Em Viver a Vida (2009/2010), o tema de abertura era Sei Lá, a Vida Tem Sempre Razão, de Toquinho e Vinícius, na versão de Tom Jobim, Miúcha e Chico Buarque.
Finalmente, Em Família (2014) tinha como tema de abertura Eu Sei que Vou te Amar, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, na versão de Ana Carolina.
Antônio Carlos Jobim, o maior compositor popular do Brasil, presente, como autor, em quatro dessas seis aberturas. E, nas outras duas, como intérprete.
Era um luxo absoluto. Em telenovelas de 200 capítulos, a música de Tom Jobim entrava em nossas casas, no horário nobre, nas tramas de Manoel Carlos para a Globo.
Foi uma lembrança que tive, ainda que oblíqua, quando soube da morte de Manoel Carlos, aos 92 anos, neste sábado, 10 de janeiro de 2026.
Não que essas músicas falassem especificamente do que esse mestre da teledramaturgia criava. Mas tomo o uso delas como símbolo do que Maneco era e do que ele gostava.
Manoel Carlos Gonçalves de Oliveira. Manoel Carlos. Maneco. Um paulistano nascido em 1933 que foi morar no Rio de Janeiro, amou o Rio e de lá não saiu mais.
A outra lembrança - a mais óbvia - foi das suas Helenas. Manoel Carlos fez na Globo uma série de telenovelas em que a protagonista, por inspiração da mitologia grega, se chamava Helena, e várias atrizes interpretaram as suas Helenas.
Da Lilian Lemmertz de Baila Comigo (1981) à Júlia Lemmertz, filha de Lilian, de Em Família (2014), foram muitas Helenas. Regina Duarte fez três delas.
Em 2024 e 2025, no Globoplay, revi Laços de Família, Mulheres Apaixonadas e Páginas da Vida, e vi Viver a Vida, que não acompanhei na época em que foi exibida.
Também revi duas minisséries escritas por Manoel Carlos: Presença de Anita (2001) e Maysa, Quando Fala o Coração (2009).
Amor, família, mulheres, vida - as palavras usadas nos títulos dessas produções já desvendam o que vamos encontrar dentro delas, em suas tramas.
Regina Duarte talvez tenha sido a mais popular das Helenas de Manoel Carlos. Mas a minha preferida é a Vera Fischer de Laços de Família.

A Helena de Vera Fischer, deslumbrantemente bela, abre mão do homem que ama e enfrenta uma gravidez improvável movida pelo amor que tem pela filha.
Lília Cabral, essa atriz imensa, talvez tenha desejado, mas nunca foi uma Helena. É que, nela, Manoel Carlos enxergava a melhor antagonista para suas musas: a avó Marta de Páginas da Vida e a Tereza de Viver a Vida.
Banido do vídeo em 2017, por causa de uma denúncia de assédio sexual, não há como não mencionar a presença de José Mayer numa série de novelas de Maneco.
Ele era o protótipo do macho e não era o vilão. Fez personagens marcantes que hoje não seriam mais aceitos, a não ser que fossem vilões.
Manoel Carlos escreveu grandes diálogos para cenas absolutamente antológicas da história da teledramaturgia brasileira. E criou extraordinárias personagens femininas. Tinha singular sensibilidade quando escrevia o que as mulheres iam dizer em cena.
Maneco - outro traço de sua assinatura autoral - enchia suas novelas de menções a livros, filmes, músicas, botando no horário nobre o que nem sempre está no horário nobre.
Também foi pioneiro na abordagem de temas importantes que, através de suas novelas, entravam no cotidiano das pessoas e nos debates da sociedade brasileira.
Por fim, o Leblon. O Leblon de Manoel Carlos é como a Nova York de Woody Allen. O Leblon, esse pedaço do Rio, onde vivem e por onde passam os seus personagens.
Há os ricos, os de classe média, os pobres - eles se amam, se odeiam, se cruzam, sentam à mesa, vão para a cama, traem, se batem, se matam. Como na vida real. E mostrados assim, como seriam - como somos - fora da trama de uma telenovela.
Era isso o que Manoel Carlos fazia como poucos. O nome dele está no topo da história da teledramaturgia brasileira como estão os de Dias Gomes, Janete Clair ou Gilberto Braga.
São grandes criadores, estabeleceram diálogos profundos com o público, entraram por frestas numa época em que não havia tantas frestas assim. Consolidaram um gênero. Fizeram do Brasil o melhor produtor desse gênero no mundo.
A morte de Manoel Carlos é sobre o fim de uma era de ouro. Ele veio dos palcos, passou por grandes momentos musicais da televisão nos anos 1960 e ancorou todo o seu talento na teledramaturgia. O Leblon de Manoel Carlos é tão carioca quanto é universal.
O Leblon de Manoel Carlos pode ser aqui. É por isso que a gente vê e revê suas novelas e se enxerga nelas. O tempo passa, e elas vão ficando na memória afetiva do Brasil.

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