COTIDIANO
Prefeitura explica fenômeno que pode ter provocado morte de toneladas de peixe no Açude Velho
Polícia Civil abriu inquérito para apurar possibilidade de que situação no Açude Velho tenha sido causada por crime ambiental.
Publicado em 13/01/2026 às 16:55

A Prefeitura de Campina Grande afirmou que o alto número de peixes mortos no Açude Velho, principal cartão-postal da cidade, e a retirada de quase 10 toneladas do material orgânico do local se deve a um fenômeno natural chamado de circulação vertical, que teria causado o levantamento da lâmina de esgoto no fundo do açude.
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“Nós estamos trabalhando com a hipótese de um fenômeno natural chamado de circulação vertical. No domingo, quando iniciou esse processo [de mortes dos peixes] aqui em Campina Grande, nós tivemos uma ventania muito forte. Como a lâmina de água está baixa no açude, por questão do verão e da evaporação excessiva, essa circulação [de ar] faz com essa pouca água circule fortemente, o que provavelmente levantou a lâmina de esgoto, do material orgânico depositado no fundo deste açude. Provavelmente esta movimentação liberou alguns gases que fizeram com que houvesse essa mortandade de peixes exacerbada”, afirmou a coordenadora de Meio Ambiente, Liliam Ribeiro, em entrevista à TV Paraíba.
Um inquérito foi aberto pela Polícia Civil para investigar o caso. Segundo o delegado Renato Júnior, a situação pode configurar o artigo 54 da Lei de Crimes Ambientais, que trata do crime de poluição ambiental. Além do Instituto de Polícia Científica (IPC), a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) também foi acionada para a realização de novas análises, com o objetivo de dimensionar a gravidade do problema.
De acordo com a coordenadora de Meio Ambiente, a aparição de peixes mortos no Açude Velho é um problema frequente, decorrente, segundo especialistas, de um processo de junção de fósforo e nitrogênio que sufoca os animais nesta época do ano. Segundo Liliam, ações já estão sendo tomadas para diminuir o mau cheiro no local.
“O trabalho aqui é incessante. Estamos o tempo todo retirando e monitorando essa matéria orgânica no objetivo de diminuir esse odor. Vamos fazer análise dos peixes, estamos fazendo o levantamento de tecnologias que ajudem a aerar esse açude, que é um local com uma demanda baixa de oxigênio. O prefeito tem estudos e projetos de médio prazo para fazer dragagem e limpeza real desse açude", afirmou.
De acordo com a Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente (Sesuma), as ações emergenciais no primeiro momento são a limpeza do Açude Velho, com a retirada do material biológico, e a avaliação para instalar aeradores, que são equipamentos que oxigenizam a água.
“Os aeradores já foram adquiridos, estamos só esperando as empresas entregarem, ou seja, é a curto prazo. A gente sabe que precisa investigar fundo, se há um depósito irregular de esgoto, para que a gente não fique enxugando gelo, se a gente não for na fonte e cortar o problema, isso vai se repetir mais cedo ou mais tarde”, disse Liliam Ribeiro.
O que é o fenômeno ambiental no Açude Velho?

De acordo com o professor de biologia Ronaldo Justino, após a liberação dos gases e do material orgânico do esgoto no Açude Velho, o local entrou em processo de eutrofização artificial, no qual a alta quantidade de substâncias provoca o sufocamento das espécies.
“O processo de eutrofização é uma sucessão ecológica que ocorre na água, que sugere basicamente o aumento da diversidade, o melhoramento das condições do ambiente. Isso é a eutrofização natural, que ocorre ao longo de séculos. No caso de eutrofização artificial, o fluxo é o contrário: o aporte de dejetos, o aporte de efluentes domésticos e industriais favorecem um tensionamento do ambiente e ao invés do aumento da riqueza, você tem a redução de espécies, da disponibilidade de oxigênio, uma série de fatores”, pontua o biólogo.
Conforme analisado por Justino, o processo de eutrofização no Açude Velho, que costuma ser comum nesse período do ano, pode ter se agravado pelo despejo contínuo de matéria orgânica no local desde a sua fundação, em meados de 1830.
“No Açude Velho, os efeitos da eutrofização artificial são recorrentes. Ano após ano, a gente observa que a água fica verde, os peixes sobem à superfície, existe mortalidade, apesar da tilápia ser um peixe muito resistente, mas que resiste a condições de disponibilidade de oxigênio baixíssimas. Esse cheiro podre é característico do metabolismo anaeróbio, quando há o metabolismo das bactérias dessa matéria orgânica em excesso, que vem adentrando ao longo de décadas nesse açude que foi construído em 1830 e vem recebendo matéria orgânica de lá pra cá em proporções crescentes. É como um doente que está em estágio terminal”, analisou Justino.
Além da morte dos peixes e poluição do açude, o biólogo fala que só a investigação aberta pela Polícia Civil em conjunto com os demais órgãos envolvidos pode determinar ao certo quais outros possíveis desequilíbrios o fenômeno do Açude Velho pode desencadear.
“Essas conclusões só podem ser atestadas mediante o que a gente tem como investigação na Polícia Civil, no Ministério Público que já entrou com essa análise. E a partir da elucidação do fato que causou essa mortandade massiva de peixes, é que a gente vai conseguir produzir um prognóstico mais próprio, mas imagino que se foi a floração de cianobactérias, inclusive as garças que se alimentaram desses peixes podem acabar morrendo e a restituição da vida nesse açude pode demorar um pouco mais de tempo até que esses compostos se dissolvam”.

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