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SILVIO OSIAS

"Americanos sentem que algo se perdeu, algo se quebrou, está se quebrando"

"Bicha é bicha, macho é macho, mulher é mulher, dinheiro é dinheiro".

Publicado em 27/01/2026 às 6:36


				
					"Americanos sentem que algo se perdeu, algo se quebrou, está se quebrando"
Foto/Reprodução.

Nesta terça-feira, 27 de janeiro de 2026, no lugar de um texto meu, publico a letra de uma música. Ela se chama Americanos. O autor é Caetano Veloso.

É de 1992. Nunca foi gravada em estúdio. Estava no show Circuladô. Caetano fazia Americanos num medley com o hit Black or White, de Michael Jackson.

Todos os versos de Americanos que vão do início até "Para deter a disseminação do HIV" vão soar datados. É porque eles têm a ver com o tempo em que foram escritos.

O trecho que vai de "Americanos são muito estatísticos" até o final segue com grande atualidade. Caetano Veloso fotografa os americanos - e os Estados Unidos - com sua permanente lucidez e com a espantosa sensibilidade do grande poeta que é.

Os Estados Unidos estão convulsionados. Os Estados Unidos estão convulsionando o mundo. Por isso, lembrei de Americanos e posto hoje aqui na coluna.

AMERICANOS (Caetano Veloso)

"Americanos pobres na noite da Louisiana

Turistas ingleses assaltados em Copacabana

Os pivetes ainda pensam que eles eram americanos

Turistas espanhóis presos no Aterro do Flamengo

Por engano

Americanos ricos já não passeiam por Havana

Veados americanos trazem o vírus da AIDS

Para o Rio no carnaval

Veados organizados de São Francisco conseguem

Controlar a propagação do mal

Só um genocida potencial

- de batina, de gravata ou de avental -

Pode fingir que não vê que os veados

- tendo sido o grupo-vítima preferencial -

Estão na situação de liderar o movimento

Para deter a disseminação do HIV

Americanos são muito estatísticos

Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos

Olhos de brilho penetrante que vão fundo

No que olham, mas não no próprio fundo

Os americanos representam boa parte

Da alegria existente neste mundo

Para os americanos branco é branco, preto é preto

(E a mulata não é a tal)

Bicha é bicha, macho é macho,

Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro

E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se

Concedem-se, conquistam-se direitos

Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime

E dançamos com uma graça cujo segredo

Nem eu mesmo sei

Entre a delícia e a desgraça

Entre o monstruoso e o sublime

Americanos não são americanos

São velhos homens humanos

Chegando, passando, atravessando.

São tipicamente americanos.

Americanos sentem que algo se perdeu

Algo se quebrou, está se quebrando."

Foto/Reprodução

Silvio Osias

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