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SILVIO OSIAS

Já houve vida inteligente na direita brasileira

Nelson pai, Nelson filho, uma história incrível do tempo da ditadura militar.

Publicado em 26/02/2026 às 7:01


				
					Já houve vida inteligente na direita brasileira
Foto/Reprodução.

Já houve vida inteligente na direita brasileira. Não se pode mais dizer o mesmo depois dessa aberração que atende pelo nome de bolsonarismo.

Já houve vida inteligente na direita brasileira. Pode ser só uma frase que me ocorreu ao saber, nesta quarta-feira (25), da morte de Nelson Rodrigues Filho.

Nelson Rodrigues Filho, claro, era filho de Nelson Rodrigues. Nelson Rodrigues não era só vida inteligente na direita brasileira. Nelson Rodrigues era genial.

O teatro brasileiro era um antes de Nelson Rodrigues. O teatro brasileiro passou a ser outro depois de Nelson Rodrigues. Teria sido o suficiente na sua existência.

Mas Nelson Rodrigues foi mais do que um extraordinário dramaturgo. Talvez o nosso maior. Nelson Rodrigues foi um grande escritor e um cronista excepcional.

Nelson Rodrigues era de direita. Fazia questão de dizer que era. Quando falava. Quando escrevia. Ia mais longe: se autoproclamava um reacionário.

Nelson Rodrigues filho era o oposto do pai. Era de esquerda. E foi mais longe: entrou no MR8, foi para a clandestinidade e aderiu à luta armada contra a ditadura.

Na luta armada, todo mundo tinha um codinome. Ninguém era identificado pelo nome de batismo. "Prancha" - esse era o codinome de Nelson Rodrigues Filho.

Nelson Rodrigues não acreditava que havia tortura no regime militar. Ele admirava Médici e, durante um jogo em São Paulo, fez o presidente garantir que não havia tortura.

O "Prancha" foi preso em 1972. Preso e barbaramente torturado. E disse isso ao pai. Nelson Rodrigues Filho foi solto em 1979, quando houve a anistia.

Nelson Rodrigues e Nelson Rodrigues Filho eram antagônicos. O reacionarismo do pai. A luta armada do filho. No meio, havia o pai que amava o filho, e o filho que amava o pai.

Há um Nelson Rodrigues antes da prisão de Nelson Rodrigues Filho. E há um Nelson Rodrigues depois da prisão de Nelson Rodrigues Filho. O pai seguiu anticomunista, mas sabedor de que o regime militar que ele defendia prendia, torturava e matava.

O "Prancha" passou sete anos preso. Ao seu modo, do jeito que pôde, o pai gritou contra a violência do regime militar. O ponto alto desse grito, ou o momento de maior força simbólica, foi a entrevista de 17 minutos que deu ao Jornal Nacional em 1979.

"A tortura é a suprema infâmia. A infâmia jamais concebida" - isso é Nelson Rodrigues na entrevista ao Jornal Nacional. Edição do dia 25 de maio de 1979.

Nelson Rodrigues Filho deixou a barba crescer na prisão e nunca mais cortou. Livre, fundou um bloco de carnaval: Os Barbas. Não era mais o "Prancha", mas o "Barba".

Nelson pai amava Nelson filho. Nelson filho amava Nelson pai. Não é política. Não é ideologia. São seres humanos. A história deles é uma história incrível.

Nelson Rodrigues morreu em dezembro de 1980 aos 68 anos. Nelson Rodrigues Filho morreu nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026 aos 79 anos.

Foto/Reprodução

Silvio Osias

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