SILVIO OSIAS
Lixo branco, Elvis Presley ressuscitou dos mortos em 2026
EPiC, o filme de Baz Luhrmann, é extraordinária experiência audiovisual.
Publicado em 04/03/2026 às 7:21

Acróstico. As primeiras letras de cada verso de uma poesia formam uma palavra. Se os versos estão na horizontal, a palavra formada vai estar na vertical.
EPiC, o título do novo filme de Baz Luhrmann sobre Elvis Presley, é um acróstico. O documentário entrou em cartaz na quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026.
EPiC, Elvis Presley in Concert. E (maiúsculo) de Elvis. P (maiúsculo) de Presley. i (minúsculo) de in. C (maiúsculo) de Concert. EPiC, Elvis Presley in Concert.
A ideia de fazer EPiC surgiu quando Baz Luhrmann estava filmando Elvis, a extravagante cinebiografia de Elvis Presley. O Elvis de Luhrmann chegou aos cinemas em 2022.
O cineasta australiano teve acesso a dezenas de horas de shows filmados de Elvis. Inédito, o material, para não se deteriorar, estava guardado numa mina de sal.
Peter Jackson tivera experiência semelhante ao realizar Get Back, com material também inédito dos Beatles. Baz Luhrmann seguiu os passos de Peter Jackson.
O que Peter Jackson fez com os Beatles, Baz Luhrmann fez com Elvis Presley: restaurou áudio e vídeo usando os recursos tecnológicos de que se dispõe atualmente.
O resultado de Get Back é extraordinário. O resultado de EPiC, Elvis Presley in Concert é igualmente extraordinário. Elvis como nunca foi visto na tela grande do cinema.
Em EPiC, Elvis conta a sua história. O essencial desse conteúdo é uma entrevista de áudio, sem vídeo. Mas há também falas do artista com áudio e vídeo.
Baz Luhrmann usa imagens bem conhecidas: trechos de shows da década de 1950, quando Elvis começou a fazer sucesso, e cenas dos filmes que fez em Hollywood.
Mas isso não é o essencial em EPiC. O essencial é o material inédito e a qualidade com que chega ao público, o que faz do filme uma incrível experiência audiovisual.
Há números que foram gravados durante ensaios. Semelhantes aos que vimos anteriormente nos documentários Elvis É Assim (1970) e Elvis Triunfal (1972).
E há, sobretudo, números gravados ao vivo nas temporadas que Elvis Presley fez no International Hotel, em Las Vegas, e na turnê americana de 1972.
Os números musicais ao vivo são o ponto alto do filme de Baz Luhrmann. A força dos registros originais somada à altíssima qualidade da restauração e ao primoroso trabalho de montagem - vem daí o impacto que EPiC provoca no espectador.
Na década de 1970, a gente ia ao cinema ver documentários de rock. Vi todos. De Woodstock, que abriu a década, a O Último Concerto de Rock, que fechou.
Tenho quase todos esses filmes em meu acervo doméstico, em boas (ou ótimas) edições físicas oficiais. Mas tê-los visto no cinema foi um privilégio para a minha geração.
Parece inacreditável que, tanto tempo depois, quando já estamos no segundo quarto do século XXI, a gente volte ao cinema para assistir a um documentário de rock com um artista que morreu há quase 50 anos, e que isso ainda possa nos impactar.
Visto numa dessas salas de shopping (em João Pessoa, está em cartaz no MAG), EPiC, Elvis Presley in Concert me impactou fortemente, para além da minha expctativa.
Quando já se encaminha para o desfecho, o filme de Baz Luhrmann tem números "matadores". Se tivesse que escolher um, ficaria com How Great Thou Art.
How Great Thou Art é um gospel poderoso. O número ao vivo foi montado em duas partes. Entre as duas, Elvis fala sobre o gospel. Elvis aprendeu a cantar na igreja, quando era menino. Não existiria Elvis Presley - nem o rock - sem a influência do gospel.
No final, EPiC traz uma poesia de Bono Vox, o frontman do U2. Sem Elvis Presley, não existiria Bono Vox. Nem Lennon e McCartney nem Mick Jagger nem David Bowie.
American David é o título da poesia de Bono. No primeiro verso, ele chama Elvis de "lixo branco", expressão usada para os brancos pobres da América. Lá pelo meio do texto, Bono lembra que Martin Luther King foi assassinado perto da casa de Elvis, em Memphis.
"Elvis devorou a América antes que a América o devorasse" - é como Bono Vox conclui. EPiC, Elvis Presley in Concert funde a irresistível cafonice das performances de Elvis Presley com os excessos de Baz Luhrmann. É um casamento mais que perfeito.

Comentários