SILVIO OSIAS
As tais fotografias...
Caetano Veloso e a Terra vista da Lua.
Publicado em 10/04/2026 às 7:21

"Quando eu me encontrava preso/Na cela de uma cadeia/Foi que eu vi pela primeira vez/As tais fotografias/Em que apareces inteira/Porém lá não estavas nua/E sim coberta de nuvens/Terra, Terra/Por mais distante/O errante navegante/Quem jamais te esqueceria?" - Caetano Veloso, Terra.
Lembro bem da primeira audição. Agosto de 1978. Eu, aos 19 anos, e meu pai, aos 42, fizemos juntos. Muito, o disco novo de Caetano Veloso. Terra, a faixa de abertura.
O impacto dos versos da canção sobre a minha juventude e sobre a maturidade do meu pai. Meus sonhos misturados com os desencantos dele.
Caetano, que admiramos juntos desde aquele festival de 1967, registrava na letra de uma música a lembrança de um episódio - a prisão dele e de Gilberto Gil pela ditadura militar - sobre o qual ainda havia um grande silêncio, mesmo quase uma década depois.

Astrônomo amador, meu pai guardara a revista com as tais fotografias. A Terra vista e fotografada de longe pelos astronautas de uma das missões do Projeto Apollo.
No Natal de 1968, eles - os tripulantes da Apollo 8 - abriam caminho para o voo de julho de 1969, no qual Neil Armstrong seria o primeiro homem a pisar no solo lunar.
Ouvimos a canção. Revimos as fotografias. E meu pai disse que o trecho "gente é outra alegria, diferente das estrelas" era o que mais tocava a sua sensibilidade.
Há uma outra lembrança da prisão de Caetano e Gil na minha memória. Em novembro de 1969, aos 10 anos, meu pai pediu que eu comprasse, numa banca próxima à nossa casa, a revista (Manchete, provavelmente) com a reportagem sobre a execução, em São Paulo, de Carlos Marighella, o líder da guerrilha urbana.
Era a mesma revista que trazia, pela primeira vez para nós, brasileiros, fotos de Caetano Veloso e Gilberto Gil exilados em Londres.
Somente em 1997, aos 55 anos, Caetano Veloso tornou públicas suas lembranças da prisão ocorrida no dia 27 de dezembro de 1968, 14 dias depois da decretação do AI-5. E o fez nas 62 páginas de um dos capítulos do livro de memórias Verdade Tropical.
O capítulo se chama Narciso em Férias. Se sustenta em pé, como um livro à parte - me disse um amigo que transita entre a crítica de cinema e as teorias literárias.
Narciso em Férias não é grande somente pela importância histórica do relato ou pela força extraordinária do testemunho de Caetano Veloso. O capítulo é grande também pelos méritos que ostenta como literatura.
Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram um show de despedida, em Salvador, no dia em que o homem pisou na lua. Está no disco Barra 69.
Caetano Veloso, já em Londres, escreveu para o Pasquim um artigo em que falava sobre a morte de Marighella, mas pouca gente entendeu.
Mais de 40 anos depois, Marighella e Londres e o texto do Pasquim apareceram numa canção chamada Um Comunista.
Tudo isso está no documentário Narciso em Férias, de Ricardo Calil e Renato Terra, disponível no Globoplay. Tudo isso está na minha memória. Mexo nela, agora, por causa da Missão Artemis II. A tripulação da Orion fez de novo as tais fotografias.

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