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ESPAÇO OPINIÃO

Nordeste no Espelho: um laboratório do Brasil

Embora com características próprias, o Nordeste pode ser entendido, a partir da leitura do livro Brasil no Espelho, como um laboratório do Brasil.

Publicado em 03/05/2026 às 19:05 | Atualizado em 03/05/2026 às 19:35


					Nordeste no Espelho: um laboratório do Brasil
Dia do Nordestino: por que a data é comemorada em 8 de outubro - Foto: Senado Federal. Gustavo Demétrio

Num país que caminha polarizado para mais uma eleição presidencial, preocupa quando o debate público está carente de profundidade e do conhecimento empírico sobre seu próprio povo. Não raro, é possível observar discussões sobre “a sociedade” sem que ela tenha sido, de fato, consultada, escutada ou diagnosticada corretamente.

Me incomodam o preconceito com a fé, com os costumes ou com o voto independente dos mais simples. Independente do lado escolhido. É como se vivêssemos numa nova era do “coronelismo", mas agora reposicionado pela retórica ideológica de quem não compreende a complexidade de um povo sofredor, trabalhador e que luta para sobreviver diariamente.

Mas, para quem não tem a experiência empírica ou o tempo para uma vivência sociológica real com as pessoas que “fazem o Brasil acontecer”, surge um atalho qualificado: o livro Brasil no espelho, do meu xará, o cientista político Felipe Nunes. É preciso lê-lo sem as lentes do preconceito. Eu fiz isto.

Para mim, a obra funciona como um raio-x de um país de contrastes, que mudou muito, mas nunca deixou de ser, em essência, tradicional. A religião continua central, a família é o principal eixo de decisão e o conservadorismo tem forte presença, inclusive entre os que se consideram de esquerda, maioria no Nordeste.

As desigualdades, embora tenham diminuído em alguns aspectos, ainda pesam na vida do brasileiro e do nordestino. Isso resulta em um cotidiano marcado por coisas urgentes, como a preocupação com a violência. Realidade que para muitos é distante, mas para quem vive na comunidade, é cruel.

Ao concluir a leitura do livro, tomei a liberdade de escrever este texto com foco na região Nordeste. Para mim, uma espécie de "laboratório" do Brasil.

Preconceito com o sotaque

Começo por este ponto porque, infelizmente, nesse cenário a Paraíba se destaca no livro.

Entre as várias formas de discriminação no país, uma chama atenção quando falamos sobre o Nordeste: o preconceito linguístico persiste, embora hoje de forma disfarçada. Parte significativa dos brasileiros relata já ter sofrido discriminação pelo modo de falar, fenômeno que atinge principalmente Norte e Nordeste.

A Paraíba aparece no topo do ranking como o estado com maior incidência desse tipo de preconceito no país. É um dado que constrange, mas nos ajuda a revelar como ainda precisamos avançar contra algo que parecia estar no passado.

Povo cansado

De acordo com a pesquisa conduzida por Nunes, no Nordeste se concentram alguns dos sinais mais claros do que o autor chama de um “país cansado”.

Coloco esta informação também em evidência, pois, embora a pesquisa não traga números fechados por estado, o livro aponta a Paraíba como um dos mais exaustos do Brasil, ao lado de Acre, Amapá, Sergipe e Goiás.

Um dado nacional ajuda a dimensionar o problema: 51% dos brasileiros relatam emoções negativas relacionadas ao cansaço. A explicação passa pelas condições de vida. O estudo aponta que 84% dos brasileiros precisam complementar a renda com mais de um trabalho.

Sem dúvida, um reflexo do aumento no custo de vida.

Religião e valores

No livro, a Paraíba é citada de forma direta nos exemplos anteriores. Mas outros dados ajudam a ampliar a análise estadual com foco no Nordeste.

Brasil no espelho descreve uma migração religiosa em massa, com crescimento acelerado das igrejas evangélicas. O autor fala na formação de um “cinturão evangélico” nas periferias urbanas do país, presente em todas as classes sociais, mas mais concentrado entre os mais pobres. Vemos isso ocorrer na Paraíba.

Depois do catolicismo, as igrejas evangélicas, com sua diversidade, se fazem presentes em praticamente todos os territórios do Nordeste. A Assembleia de Deus aparece como a denominação mais numerosa, seguida por igrejas batistas. É assim na Paraíba.

A exemplo da Primeira Igreja Batista de João Pessoa, cujo templo embeleza os arredores do Parque Solon de Lucena.

O livro traz uma reflexão que eu também já havia comentado na CBN Paraíba: nesses espaços, onde o Estado muitas vezes é ausente, as igrejas extrapolam a função religiosa. Atuam com apoio social, familiar e comunitário. Mas, claro, também exercem influência política.

Festas populares

A cultura também revela diferenças regionais marcantes. Enquanto o Sudeste se identifica mais com o Carnaval, a maioria dos estados nordestinos aponta o São João como a principal festa popular do país.

É na Paraíba, aliás, que fazemos o maior e melhor São João do Mundo. Seguido por Caruaru, em Pernambuco. São eventos que consolidam a identidade nordestina, transformando a celebração em símbolo regional. Inclusive contra o preconceito.

Orgulho do Brasil

Apesar do cansaço e do preconceito, como vimos anteriormente, moradores das regiões Norte e Nordeste são os mais orgulhosos do país. Cerca de 71% afirmam ter “muito orgulho” do Brasil, seguidos pelo Centro-Oeste, com 65%. Também aparecem entre os mais orgulhosos os brasileiros de maior renda, católicos praticantes e os mais jovens.

De esquerda e conservador

De acordo com a pesquisa, os brasileiros se autoclassificam majoritariamente ao centro (37%) e à direita (36%), enquanto 23% se identificam com a esquerda.

No Nordeste, no entanto, a predominância é maior entre os que se declaram de esquerda, assim como entre jovens, pessoas negras, mais escolarizadas e moradores de capitais.

Ainda assim, nem toda esquerda é progressista: apenas 47% dos que se identificam como de esquerda também se dizem progressistas, enquanto 36% se classificam como conservadores.

No total, 51% dos brasileiros assumem o conservadorismo.

Embora o conservadorismo seja tradicionalmente associado à direita, o livro mostra que, no Brasil, ele também está presente entre eleitores que se identificam com a esquerda.

Dependentes do Estado

Outro dado relevante é o tamanho do grupo classificado como “dependente do Estado”, que representa 23% dos brasileiros pesquisados.

Esse segmento se concentra majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste, com menor poder de compra e maior vulnerabilidade social.

Discriminação de gênero

Há dados que também nos fazem refletir um pouco mais.

Brasil no Espelho mostra que Norte e Nordeste concentram maior prevalência de crenças relacionadas a normas tradicionais de masculinidade e que ainda carece de mais conscientização sobre a discriminação de gênero.

Em meio a números cada vez mais alartamentes de feminicídios, precisamos avançar aqui.

A percepção sobre a discriminação de gênero varia até 37 pontos percentuais entre os mais jovens e os mais velhos.

Entre os homens, os maiores índices de percepção de discriminação aparecem no Centro-Oeste (68%), seguidos pelo Sul (62%) e Sudeste (60%). Os menores estão entre homens mais velhos do Nordeste (40%), do Norte (36%) e do Sul (31%).

Nordeste, um laboratório do Brasil

Embora com características próprias, o Nordeste pode ser entendido, a partir da leitura do livro, como um "laboratório" do Brasil, com suas próprias nuances históricas.

Na mesma região onde há forte presença de programas sociais e maior identificação com a esquerda, existe também uma base conservadora nos costumes, religiosa, trabalhadora e preocupada com a segurança.

Aliás, as últimas pesquisas Genial/Quaest mostram que a segurança segue sendo o principal item de preocupação, com 34% dos entrevistados citando este item. Mas o índice de preocupação com a corrupção cresceu de 09% para 18% entre fevereiro e abril.

Em linhas bem resumidas, nas periferias nordestinas a fé é presença constante. O trabalho é árduo e a desigualdade é visível. É um povo que se vê em dificuldade, mas entrega a vida "nas mãos de Deus".

É um Nordeste que nos chama a pensar: em vez de apontarmos o dedo para esta realidade, por que não compreendê-la? O Nordeste não pode ser visto apenas como uma parte do país. É uma peça central de um mosaico complexo. Assim, não podemos inseri-lo numa senzala ideológica do século XXI.

O livro Brasil no espelho revela uma realidade que não pode ser ignorada. Nem distorcida. E eu diria que, talvez, esteja na hora de olharmos, com mais atenção e menos preconceito, para o Nordeste no Espelho.

Imagem

Felipe Nunes

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