MERCADO EM MOVIMENTO
A Paraíba no vermelho: 1,3 milhão de devedores e a dúvida sobre a eficácia do Desenrola 2.0
Enquanto PIB estadual projeta liderança no Nordeste, endividamento das famílias e empresas paraibanas ameaça sustentabilidade do crescimento
Publicado em 06/05/2026 às 17:21

A economia paraibana vive um cenário de contrastes que desafia qualquer análise superficial. Se, por um lado, o PIB do estado projeta o maior crescimento do Nordeste para 2026 (4,4%), segundo a Resenha Regional do Banco do Brasil, por outro, os dados da Serasa Experian revelam um abismo financeiro: a Paraíba encerrou o último ano com 44,08% de sua população adulta inadimplente. São 1,31 milhão de paraibanos que iniciaram 2026 com o nome restrito e contas que somam um rombo bilionário.
Nesse contexto, o Governo Federal lançou o Desenrola 2.0, uma tentativa de corrigir as falhas da primeira versão (1.0). Mas o questionamento que fica para o mercado e para o consumidor é: até que ponto esses programas resolvem o problema ou apenas "rolam" a dívida?
O Paliativo 1.0 x a Aposta do 2.0
Lançado em julho de 2023, o Desenrola 1.0 focou em renegociações com descontos agressivos. No entanto, o impacto foi estatisticamente irrelevante para mudar a trajetória da inadimplência nacional, que já vinha caindo antes da medida. O programa limpou CPFs momentaneamente, mas não impediu que o número de negativados saltasse de 71,4 milhões, quando começou, para 72,5 milhões ao final do Desenrola, em maio de 2024. E atingiu incríveis 82,8 milhões de brasileiros agora, em maio de 2026.
A nova versão do programa tenta ser mais robusta, atacando dívidas de cartão, cheque especial e Fies contraídas até 31 de janeiro de 2026, com o uso inédito do FGTS e uma trava comportamental contra as "bets". Para entender se a medida é a solução ou apenas um novo fôlego, veja o balanço entre especialistas ouvidos pelo g1.

Super resumo: o que pesa na balança?
Pontos Positivos (o Alívio):
- Controle financeiro: o alívio imediato no orçamento ajuda a reduzir o estresse das famílias endividadas.
- Corte de juros: ataca dívidas com taxas que chegam a 400% ao ano, oferecendo saída real para o ciclo do rotativo.
- Fies no jogo: a inclusão de dívidas estudantis limpa o futuro financeiro de jovens e recém-formados.
- FGTS estratégico: troca um recurso de baixo rendimento (fundo) por uma dívida de custo altíssimo.
- Trava nas bets: o bloqueio por 12 meses em sites de apostas tenta conter o desvio de renda para o vício em jogos.
Pontos Negativos (o Risco):
- Tratamento de sintoma: alivia a dívida atual, mas não resolve o problema estrutural: renda baixa e crédito caro.
- Círculo vicioso: o uso de garantias públicas pressiona as contas do governo, o que pode manter a Selic (e os juros) em patamares elevados.
- Risco moral: pode sinalizar que "não pagar compensa", desestimulando o bom pagador que mantém as contas em dia.
- Desproteção do trabalhador: o uso do FGTS consome a reserva de emergência para demissões e afeta o financiamento da habitação popular.
- Reincidência: sem educação financeira, o acesso ao novo crédito pode gerar um novo ciclo de endividamento em poucos meses.
O risco paraibano: empresas e CPFs no limite
Na Paraíba, o cenário é ainda mais complexo devido à interdependência entre os negócios locais e as finanças das famílias. O estado lidera a abertura de novas empresas, mas registra um rombo de inadimplência empresarial superior a R$ 1,5 bilhão.
Embora o Desenrola foque no CPF, o endividamento das empresas (que recorrem ao cheque especial em níveis recordes, com alta de 23% em um ano) atinge diretamente a renda do paraibano através da pressão sobre salários e empregos. Com quase metade da população adulta negativada, o Desenrola 2.0 pode ser uma ferramenta de fôlego, mas o mercado local segue em alerta: estamos crescendo de forma sustentável ou apenas tentando organizar a nossa incapacidade de arcar com as dívidas?
Para o consumidor e o empresário da Paraíba, cautela é a palavra de ordem. O desconto de 90% atrai, mas a capacidade de não voltar ao vermelho em um cenário de juros reais recordes é o que definirá o sucesso da economia estadual no segundo semestre.

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