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SILVIO OSIAS

Quando a heresia é uma coisa muito boa

Álbum de Alice Caymmi é belo tributo ao avô Dorival.

Publicado em 14/05/2026 às 7:15


					Quando a heresia é uma coisa muito boa

A música popular brasileira tem poucos compositores tão bons quanto Dorival Caymmi. Esse cara nascido em Salvador em 1914 era realmente um gigante.

Caymmi inventou um negócio chamado canções praieiras. Um disquinho de 10 polegadas, oito faixas, uma voz, um violão. O mar, a praia, os pescadores e suas jangadas.

Caymmi fez um álbum só de sambas. Os sambas de Caymmi. As mulheres, os amores, os trajes, as comidas. Os sambas de Dorival são tão lindos quanto simples e perfeitos.

Dorival Caymmi não existe. Acho que ele veio de outro planeta. Só sendo. Porque, francamente, não dá para ser da Terra fazendo essas coisas todas que ele fez.

Como se não bastasse, Dorival Caymmi ainda nos deixou a Família Caymmi. A filha Nana, os filhos Dori e Danilo e, depois, já bem depois, a neta Alice, tremenda cantora.

Há muitos anos, a GloboNews tinha um programa chamado Sarau. Conversa e música nas noites das sextas-feiras. Tudo conduzido por Chico Pinheiro.

Foi no Sarau que vi Alice pela primeira vez. Alice e seu pai, Danilo. Devia ter uns 20 anos. Ainda não gravara seu primeiro álbum e já exibia, na voz, o DNA dos Caymmi.

O tio Dori é um grande músico. Toca, canta, compõe, arranja. Músico de formação. Do ponto de vista estético, é um conservador, mas isso não o faz menor.

A tia Nana, que morreu há um ano, era uma grande cantora. Uma das nossas maiores. Mas era uma desbocada e, por isso, acabou arranjando bronca com muita gente.

Danilo, o pai, parece ser o mais transante. Bem menos conservador do que o irmão, percorre com mais desenvoltura os muitos caminhos da música brasileira.

Danilo cantava e tocava flauta na banda de Tom Jobim. Era casado com Simone, que estava no coro feminino de Tom. Alice nasceu nesse tempo. Em 1990.

O primeiro álbum de Alice Caymmi é de 2012. Bom, mas aquém do seu talento. O segundo, Rainha dos Raios, lançado em 2014, é simplesmente excepcional.

Nana, a tia, esculhambou a sobrinha. Dori, o tio, não sei o que ele acha dela. Mas temo que reprove muito do que ela faz. Danilo, bem, Danilo é o pai.

Alice é tudo de bom. Primeiro, tem uma voz lindíssima, totalmente Caymmi. Depois, traz a Família Caymmi para a contemporaneidade. Com coragem e ousadia.

Toda essa minha conversa sobre Dorival, Nana, Dori, Danilo, é pra chegar no álbum que Alice acaba de lançar. Caymmi é todo dedicado ao cancioneiro do avô.

A foto que ilustra a coluna é a capa do álbum. Alice com o punho direito cerrado diante do sobrenome. Está nas plataformas digitais. Não sei se vai ter edição física.

Herético. Herético é quem pratica heresia. Heresia é o que faz aquele que contraria a doutrina oficial, o cânone. Heresia não é coisa boa. A não ser a de Alice.

Heresia. Foi a palavra que me ocorreu quando ouvi Caymmi. Vi um crítico usar uma outra palavra, ao escrever sobre o álbum: dessacralização. É isso mesmo.

Alice Caymmi comete uma heresia com a obra do avô. Alice Caymmi dessacraliza a obra do avô. Diferente do pai, do tio e da tia. E a gente ama o que ela faz.

Nas 12 faixas de Caymmi, é como se Alice dissesse: está aqui, meu avô era foda, e eu estou trazendo ele para a contemporaneidade da música popular.

O álbum reúne clássicos do repertório autoral de Dorival Caymmi com a sonoridade do que a gente ouve hoje, dentro e fora do Brasil. E como é bonito, como soa bem!

"Dora, rainha do frevo e do maracatu". Ou: "O pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no mar". Ou ainda: "Quando eu vim para esse mundo".

É tudo Dorival Caymmi. É tudo expressão de uma beleza excepcional, singularíssima. E Alice pega a sua voz completamente Caymmi e comete a bendita heresia.

Os ouvintes caretas da MPB não vão suportar. Os que são arejados e conectados com as transformações, bem, esses vão adorar. É Caymmi revivido na transgressão da neta.

Imagem ilustrativa da imagem Quando a heresia é uma coisa muito boa

Silvio Osias

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