SILVIO OSIAS
"ESTÚPIDO!"
Lembranças do maestro Eleazar de Carvalho.
Publicado em 27/05/2026 às 7:40

A Orquestra Sinfônica da Paraíba vai fazer homenagens ao maestro Eleazar de Carvalho. O primeiro concerto será nesta quarta-feira (27) no Teatro Pedra do Reino.
Durante o segundo governo de Tarcísio Burity, Eleazar de Carvalho foi diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica da Paraíba. Ele morava nos Estados Unidos e vinha uma vez por mês. Imagino que devia custar muito caro ao Estado, mas era incrível.
Eu adorava conversar com o maestro Eleazar de Carvalho. Diziam que era um chato irrecuperável, mas costumava ser cordial comigo. Contava histórias maravilhosas.

Eleazar de Carvalho era amigo de Leonard Bernstein, um dos meus ídolos. Bernstein, Lenny - maestro, pianista, compositor, homem de esquerda, gay, amante do jazz, louco pelos Beatles. Uma das figuras mais extraordinárias da música do século XX.
Nos Estados Unidos, quando muito jovens, Eleazar de Carvalho e Leonard Bernstein foram alunos do mesmo professor, o judeu russo Serge Koussevitzky.
"Lenny vive um dilema", me disse Eleazar. "Não me diga, a essa altura, que tem a ver com a homossexualidade", comentei. "Não, o problema é com a música que compõe", afirmou.
Puxa, que problema terá Leonard Bernstein com a sua música, compondo as peças maravilhosas que compõe? E veio a explicação, que me pareceu completamente sem sentido: "Ele acha que não há contemporaneidade, que sua obra não é do século XX".
Outra vez, Eleazar falou sobre Zubin Mehta, que obtivera sucesso estratosférico ao reunir os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo num concerto.
"Fez tanto sucesso quanto os Beatles", comentou Eleazar. Como ele tinha fama de não gostar de música popular, perguntei: "O senhor gosta dos Beatles?".
E ouvi: "É claro que gosto!". A única vez em que foi ligeiramente ríspido comigo, assim como quem diz: "Ora, não me faça perguntas idiotas!".
Uma noite, fui vê-lo reger a Orquestra Sinfônica da Paraíba no velho Cine Banguê, executando Also Sprach Zarathustra. Friedrich Nietzsche traduzido por Richard Strauss.
Não é música fácil. A maioria das pessoas só conhece a abertura, popularizada por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço. E usada por Elvis Presley para abrir seus shows. É um poema sinfônico belo e denso, e seu final não tem grandiloquência.
Justamente nos minutos finais da execução, numa noite em que a orquestra brilhou sob a condução de Eleazar de Carvalho, alguém gritou na plateia: "Dá-lhe, negão!"
O maestro, de punhos fechados, batendo sobre o peito (fazia parte do seu expressivo gestual), reagiu em voz baixa, porém indignado com tamanha inconveniência:
"Estúpido!".

Comentários