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SAÚDE ALERTA

São João também é saúde: o poder do encontro, da memória e da alegria

Publicado em 03/06/2026 às 14:12

Por Dr. André Telis


					São João também é saúde: o poder do encontro, da memória e da alegria
Parque do Povo durante o São João de Campina Grande | Foto: Divulgação. (Divulgação)

Junho chega diferente no Nordeste.

Na Paraíba, talvez chegue ainda mais forte. As ruas mudam de cor, as cidades mudam de ritmo, as famílias começam a se organizar para viajar, reencontrar parentes, voltar ao interior, visitar Campina Grande, acender lembranças antigas.

O cheiro de milho cozido parece abrir uma porta dentro da memória. A sanfona toca e, de repente, muita gente lembra da infância, da casa da avó, das festas de rua, das roupas de matuto, das quadrilhas improvisadas, das noites frias em volta da fogueira.

O São João não é apenas uma festa. É uma forma de pertencimento.

E talvez seja por isso que a rivalidade entre Campina Grande e Caruaru seja tão simbólica. A disputa pelo “maior São João do mundo” não é apenas sobre tamanho, palco, estrutura ou número de visitantes. No fundo, é quase uma disputa bonita para saber quem consegue produzir mais alegria, mais encontro, mais música, mais dança, mais felicidade.

É uma “guerra” diferente. Não é uma guerra de tristeza. É uma guerra de festa.

E isso tem muito a ver com saúde.

Durante muito tempo, quando se falava em saúde, muita gente pensava apenas em exames, remédios, pressão arterial, glicose, colesterol e peso na balança. Tudo isso é importante, claro. Mas saúde é maior do que isso.

Saúde também é vínculo. É convivência. É movimento. É afeto. É memória. É sentir-se parte de uma comunidade.

E o São João nordestino reúne tudo isso.

A comida junina, por exemplo, não é apenas comida. É memória afetiva. Milho, pamonha, canjica, bolo, munguzá, amendoim, pé de moleque. Para muitos, esses sabores carregam histórias de família. Às vezes, a pessoa não come apenas um pedaço de bolo. Come uma lembrança. Come um pedaço da própria infância.

Por isso, falar de saúde nessa época exige cuidado.

O papel do médico não pode ser o de apagar a fogueira da alegria ou transformar tradição em culpa.

O milho, inclusive, está longe de ser vilão. O milho cozido é um alimento nutritivo, fonte de energia, fibras, vitaminas do complexo B e minerais. O problema, na maioria das vezes, não é o milho em si, mas o excesso de açúcar, leite condensado, manteiga, creme de leite e a quantidade consumida ao longo de várias noites de festa.

O mesmo vale para muitas comidas típicas. O problema não é celebrar. O problema é transformar o “só hoje” em uma rotina de exageros durante o mês inteiro.

Mas há outro lado muito bonito do São João: o forró.

Dançar forró pode ser, sim, uma forma de atividade física. Movimenta o corpo, melhora a circulação, estimula equilíbrio, coordenação, condicionamento e gasto energético. Para muita gente que não gosta de academia, a dança é a maneira mais prazerosa de sair do sedentarismo.

Mas o benefício vai além do corpo.

Dançar também melhora o humor. Aproxima pessoas. Reduz isolamento. Estimula memória, interação social e sensação de pertencimento. Para idosos, isso pode ser ainda mais importante. Uma música antiga pode despertar lembranças, reacender histórias e devolver à pessoa a sensação de participação na vida.

Em tempos de tanta pressa, solidão e tela, o São João coloca gente na rua. Faz as pessoas se olharem, conversarem, rirem, dançarem juntas. Isso também é saúde mental.

Mas é claro que o alerta precisa existir.

O corpo também participa da festa.

Noites mal dormidas, excesso de álcool, pouca água, comidas muito salgadas, muito açúcar e mistura de bebida alcoólica com energético podem trazer consequências. Aumentam os riscos de desidratação, gastrite, descontrole da pressão arterial, palpitações e arritmias cardíacas.

Existe até uma situação conhecida na medicina como “síndrome do coração de feriado”, quando episódios de palpitação e arritmia aparecem após períodos de festa, exagero alcoólico, sono ruim e sobrecarga do organismo.

Por isso, a orientação não é deixar de viver o São João. É viver melhor.

Beba água. Coma devagar. Escolha o que você realmente gosta. Não precisa provar tudo numa noite só. Evite exagerar no álcool. Não misture bebida alcoólica com energético. Quem tem pressão alta, diabetes, arritmia ou doença cardíaca deve manter os remédios e respeitar os sinais do corpo.

Dor no peito, falta de ar, tontura importante, desmaio, suor frio ou palpitação intensa não devem ser ignorados.

Mas, acima de tudo, não transforme saúde em culpa.

O São João pode fazer bem. Faz bem quando aproxima. Faz bem quando movimenta. Faz bem quando desperta alegria. Faz bem quando resgata histórias. Faz bem quando devolve às pessoas a sensação de pertencimento.

Talvez o melhor São João não seja apenas o maior do mundo.

É aquele que faz a gente se sentir vivo, inteiro e feliz.

Então dance seu forró. Coma seu milho. Abrace quem você gosta. Reencontre sua história.

Só não esqueça: o corpo também está na festa.

E cuidar dele é a melhor forma de continuar dançando quando a sanfona tocar.

Parque do Povo durante o São João de Campina Grande | Foto: Divulgação

André Telis

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