SILVIO OSIAS
Meu bem, meu mal, a família é inevitável
Pai Mãe Irmã Irmão é pérola minimalista de Jim Jarmusch.
Publicado em 09/06/2026 às 5:25

Uma vez, há uns 40 anos, entrevistei José Ângelo Gaiarsa. Na época, Gaiarsa devia ter uns 65 anos. Psiquiatra famoso, o cara se debruçava sobre a família.
Logo na primeira resposta, veio a definição precisa: "Meu bem, meu mal, a família é inevitável". Frase de efeito que ele foi buscar na canção de Caetano Veloso.
"Meu bem, meu mal, a família é inevitável", a frase que guardo com carinho no meu HD afetivo, foi a primeira coisa que me ocorreu quando vi Pai Mãe Irmã Irmão.
Exibido nos cinemas e agora disponível numa plataforma de streaming, o novo filme de Jim Jarmusch é uma pérola minimalista que tem a família entre seus temas.
Pai Mãe Irmã Irmão tem três histórias independentes. Um filho e uma filha em visita ao pai que mora sozinho, duas filhas em visita à mãe que também mora sozinha, um rapaz e uma moça, gêmeos, que se encontram depois da morte do pai e da mãe.
A primeira história contada por Jarmusch se passa nos Estados Unidos. A segunda, na Irlanda, e a terceira, na França. São breves. Cada uma dura uns 40 minutos.
Contemplação é uma boa palavra para definir Pai Mãe Irmã Irmão. O americano Jim Jarmusch, aos 73 anos, contempla seus personagens e os lugares onde estão. E nós, espectadores, também somos chamados a um lento exercício de contemplação.
Os episódios são independentes, mas há vários pontos de conexão entre eles, além dos temas que o filme aborda: a família, a solidão, a passagem do tempo, a velhice, o luto.

Os skatistas, quase sempre filmados em slow motion, estão nas ruas de Dublin e de Paris e na estrada que leva o filho e a filha à casa do pai no começo do filme.
As ruas (e a estrada), enquadradas sob o ponto de vista de quem está dentro dos carros, também se repetem em cada um das três histórias que Jim Jarmusch conta.
Os personagens tomam chá no primeiro e no segundo episódio e tomam café no terceiro. As mesas, em vários momentos, são filmadas do alto, em plongée.
A água que as pessoas tomam. O brinde com água. O rolex que pode ser verdadeiro ou falso. As expressões idiomáticas. Tudo isso é comum aos três episódios.
É como uma assinatura que Jim Jarmusch imprime no filme. As pessoas são muito diferentes, mas também são muito semelhantes. Como as famílias e os retratos que evocam a infância, a juventude, as ausências impreenchíveis.
Amigo de Jim Jarmusch, Tom Waits é o pai. Charlotte Rampling é a mãe. Adam Driver é um dos dois filhos que o filme mostra. Cate Blanchet é uma das quatro filhas.
Todo o elenco é admirável. Tudo, aliás, é admirável nesse pequeno grande filme. Belo e denso, Pai Mãe Irmã Irmão é um tipo de cinema que, mesmo não sendo mainstream, existe e resiste. Pai Mãe Irmã Irmão é puro Jim Jarmusch.

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