SILVIO OSIAS
As Copas do Mundo da minha vida
Futebol na memória afetiva de quem não gosta de futebol.
Publicado em 19/06/2026 às 7:08 | Atualizado em 19/06/2026 às 7:28

1930, 1934, 1938, 1950, 1954, 1958, 1962, 1966, 1970, 1974, 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, 2022.
De 1930, no Uruguai, a 2022, no Catar, a Copa do Mundo foi realizada 22 vezes. A de agora, 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, é a de número 23.
O Brasil ganhou cinco: 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Coreia do Sul/Japão). E foi vice em 1950 (Brasil) e em 1998 (França).
Não gosto de futebol, não acompanho, não torço por ninguém, mas a Copa do Mundo, notável marcador de tempo, está na minha memória afetiva.
A Copa do Mundo foi realizada seis vezes antes de 1959, o ano em que nasci. Sou, portanto, contemporâneo de 16 mundiais e estou testemunhando mais um.
Quando nasci, fazia um ano que o Brasil conquistara sua primeira Copa do Mundo. Na conquista do bicampeonato, em 1962, eu estava com três anos.
1962. Minha mãe contava que Dona Pequena, a velhinha da casa ao lado, morreu no dia da final. Dona Pequena me dava bolachas, e eu a chamava de Quequena.
Naquele 17 de junho, a rua estava mais movimentada, a vizinhança toda no velório. Minha mãe achou cedo para me falar sobre morte. Disse que era a Copa do Mundo.
Tenho uma vaguíssima lembrança - um instantâneo - da minha mãe dizendo: "É a Copa do Mundo". Talvez seja só uma imagem que criei depois.
1966. A Copa do Mundo ainda era pelo rádio. A primeira depois que comecei a estudar. O Brasil fracassou. A final foi num sábado, e não num domingo, como costuma ser.
1970. A primeira transmitida ao vivo pela televisão, ainda em preto e branco. Aos 11 anos, vi todos os jogos da melhor seleção que o Brasil já teve.
Havia a Copa do Mundo e havia a ditadura militar. Esta fez uso daquela. A ditadura passou, e a Seleção Brasileira do tri segue viva em nossa memória afetiva.
1974. Havia conflitos na família reunida para ver o Brasil jogar. Uma voz da extrema direita esculhambava Pelé - "negro safado!" - porque ele não foi para a Copa.
Aos 15 anos, eu estava somente a quatro meses de começar a atuar no jornalismo, tentando fazer crítica de cinema no velho Correio da Paraíba.
1978. A Copa do Mundo da Argentina. A Copa do Mundo da ditadura argentina. A Argentina antes de Maradona. Um episódio duvidoso deu a vitória aos anfitriões.
Eu estava às vésperas do vestibular. O mundo vivia a onda da dance music. O Brasil caminhava para a abertura política. Logo, logo, os exilados estariam de volta.
1982. Uma grande seleção, uma derrota traumática. Os flamenguistas da era Zico dizem que a Seleção Brasileira de 1982 era melhor do que a de 1970. Não era.
Eu estava na universidade, já atuava profissionalmente no jornalismo, e o Brasil voltava a eleger seus governadores pela via direta. A ditadura estava nos estertores.
1986. A Copa do Mundo de Maradona. A mão de Deus e o jogo espetacular contra a Inglaterra. Zico perdeu um pênalti, e a França tirou o Brasil da competição.
A ditadura militar acabara. Tancredo Neves morrera. José Sarney era o presidente da transição. Com o Plano Cruzado, o governo ganhou todas na eleição de 1986.
1990. O time de Lazaroni. Um Brasil medíocre, que a Argentina eliminou no primeiro jogo da segunda fase. Foi minha primeira Copa do Mundo na TV Cabo Branco.
Um ano antes, os brasileiros voltaram a escolher o presidente pelo voto direto. A direita venceu com Collor, um "filhote da ditadura" depois defenestrado pelo impeachment.
1994. A Copa do Mundo do tetra. Ganhou, mas não encantou. Ou encantou quem não viu 1970. Uma vitória nos pênaltis dá muita saudade do 4 x 1 da final do tri.
Minha mãe morreu durante a Copa do Mundo do tetra. No velório, as pessoas pediam desculpas porque queriam falar de futebol na véspera de um jogo decisivo.
A primeira Copa do Mundo da minha vida, a de 1962, está associada a uma morte. A de 1994, à morte da minha mãe. A Copa do Mundo é marcador de tempo.
2002. A Copa do Mundo do penta. Acordei no final da madrugada para ver o Brasil enfrentar a Inglaterra. Era pura nostalgia daquele 1 x 0 de 1970 no México.
2002. O Brasil redemocratizado. Entre o final do segundo mandato de FHC e a eleição de Lula. Era difícil imaginar o retrocesso que nos aguardava, alguns anos depois.
Futebol de resultado. Tetra em 1994. Vice em 1998. Penta em 2002. Depois, nunca mais. No caminho, a vergonha do 7 x 1 no jogo contra a Alemanha, em 2014.
Copa do Mundo como marcador de tempo. A primeira depois, a última antes. A de 2006 foi a última do meu irmão, que adorava futebol. Também do meu pai, que detestava.
A Copa do Mundo se mistura com o frio junino, com o São João que já foi mais bonito, com os meus aniversários, com a lembrança de quem não está mais aqui.
A Seleção Brasileira de 1970 nos representava. A Seleção Brasileira de 1982 nos representava. A Seleção Brasileira não nos representa mais. Já faz algum tempo.
A cor amarela foi sequestrada pela mais nefasta extrema direita, mesmo que a ela não pertença. Foi parcialmente recuperada, mas ainda falta alguma coisa.
"Viva Pelé do pé preto!, Viva Zagallo da cabeça branca" - Gil cantou em 1974. A Copa do Mundo de 2026 é a primeira sem a presença física, entre nós, de Pelé e de Zagallo.
O que nos reserva a Copa do Mundo de 2026? O Brasil vai perder? O Brasil vai ganhar? Neymar vai jogar? O que ela vai deixar para o acervo da nossa memória afetiva?
O Brasil dos impasses. O Brasil cindido. O Brasil com seu pior parlamento. O Brasil dos milicianos e dos narcotraficantes. O Brasil dos feminicídios. O Brasil desigual, sem saúde e sem segurança. O Brasil dos jogadores milionários que não estão nem aí para o Brasil.
Vejo o Brasil jogar sem ansiedade pela vitória e sem sofrimento na derrota. Vejo na Copa do Mundo o marcador de tempo. Do meu tempo. Essa de 2026 pode ser a última.

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