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SILVIO OSIAS

Os filmes de Spielberg marcando a passagem do tempo

Dia D é o novo filme do cineasta, que vai fazer 80 anos em dezembro.

Publicado em 02/07/2026 às 6:15


					Os filmes de Spielberg marcando a passagem do tempo

Steven Spielberg e seus filmes me fazem pensar na passagem do tempo. É que sou contemporâneo do seu filme de estreia, por mais de meio século fui ao cinema ver quase tudo o que ele fez, e, agora, o cara está prestes a completar 80 anos.

O tempo passou, a vida passou, e Steven Spielberg, esse judeu de Cincinnati, Ohio, dialogou com a gente através do seu humanismo e dos muitos filmes que realizou. Obra extensa, naturalmente irregular, mas com muitos grandes momentos.

Há a linhagem dos cineastas que filmam pouco e só fazem grandes filmes. Nesse perfil, a gente vai lembrar logo de enquadrar Stanley Kubrick e Quentin Tarantino.

E há a linhagem dos cineastas que filmam muito e não fazem somente grandes filmes. É gente como Alfred Hitchcock e John Ford. Steven Spielberg também.

O interessante é que esses cineastas de obra extensa são tão bons e têm uma assinatura tão marcante, que até seus filmes menores trazem uma marca inconfundível. E costumam estar acima da média do que, de um modo geral, se produz no cinema.

Em 1971, quando realizou seu longa-metragem de estreia, Steven Spielberg tinha 25 anos. Encurralado era um telecine que acabou chegando aos cinemas.

Vi Encurralado em 1974, quando foi lançado em João Pessoa. Um homem comum numa estrada, dirigindo seu carro, e, inexplicavelmente, perseguido por um caminhão.

Em 1974, o ano em que vi Encurralado, Spielberg já havia realizado Louca Escapada, seu primeiro filme para o cinema. Ambos, embora bem diferentes, são road movies.


					Os filmes de Spielberg marcando a passagem do tempo

Em 1975, Tubarão mudou a vida de Steven Spielberg, então com 29 anos, e a própria história do cinema. Tubarão chegou às salas brasileiras no dia de Natal de 1975.

Tubarão (1975), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), E.T. (1982), O Parque dos Dinossauros (1993), A Lista de Schindler (1993) - há outros, mas esses trazem Spielberg fazendo o seu melhor.

Steven Spielberg é um mestre absoluto da arte de realizar filmes. Foi criticado a vida toda por fazer filmes comerciais. É verdade, mas não é um defeito. Spielberg é um homem da indústria do cinema, do negócio do cinema, mas isso não o torna menor.

Ele também foi - e ainda é - muito criticado pelos que acham seu cinema piegas. Não é mentira, mas, legitimamente, é um dos traços autorais do cineasta.

Sempre cobrado a fazer filmes "sérios", mostrou como se faz quando realizou A Lista deSchindler.Seus críticos, infelizmente, não percebem o quanto também são bons os filmes de Spielberg que eles rejeitam porque são "comerciais" e não seriam "sérios".

Em 2021, em plena pandemia, Steven Spielberg realizou um sonho: refilmou West Side Story, o clássico musical de 1961. Spielberg sabia que não podia fazer melhor do que Robert Wise, aí fez diferente, e o resultado é simplesmente esplêndido.

Em 2022, Steven Spielberg fez um belo e delicado filme autobiográfico. Os Fabelmans é a sua história, de como descobriu o cinema, e é a história da sua família. No desfecho, ainda brinda os cinéfilos com David Lynch fazendo John Ford em breve aparição.


					Os filmes de Spielberg marcando a passagem do tempo

Agora em 2026, às vésperas de se tornar um octogenário, Steven Spielberg está nos cinemas do mundo com seu novo filme - Disclosure Day. No Brasil, Dia D.

Há alienígenas em vários filmes de Steven Spielberg. O primeiro, e o que mais me atrai, é Contatos Imediatos do Terceiro Grau. O desfecho da narrativa é magnífico e ganha maior beleza com os sons minimalistas criados pelo maestro John Williams.

E.T. é uma fábula infantil. A descoberta de que não estamos sozinhos através dos olhos de uma criança. Nos anos 1980, a gente via E.T. e se perguntava como seria revê-lo 30, 40 anos mais tarde. Já sabemos. E.T. atravessou o tempo e resistiu à sua ação.

Guerra dos Mundos é um remake do clássico dos anos 1950. O Guerra dos Mundos de Byron Haskin, de 1953, é sobre o medo do comunismo. O Guerra dos Mundos de Steven Spielberg é de 2005. No pós-11 de setembro, é sobre o medo do terror.

Dia D é menos sobre alienígenas e mais sobre o mundo em que estamos vivendo. É um thriller ágil que não deixa o espectador respirar. Não é um grande Spielberg, se formos pensar nos grandes Spielberg. Mas - o que importa - é um autêntico Spielberg.

Os críticos de Dia D argumentam que o filme é analógico demais num mundo que não é mais analógico. E perguntam porque o roteiro opta por uma emissora de televisão e não por redes sociais no dia da revelação, o Desclosure Day do título original do filme.

Em Lincoln, de 2012, Steven Spielberg conversava com a gente sobre política num filme que conta a história de um presidente assassinado em 1865. Em The Post, de 2017, a conversa é sobre o presente numa trama que se passa no pré-Watergate.

Dia D se passa nos dias atuais e é sobre os dias atuais. Se o filme tem uma "pegada" dos thrillers dos anos 1990, como enxergam seus críticos, é certamente porque Steven Spielberg e David Koepp, seu roteirista e parceiro há muitos anos, assim o quiseram.

West Side Story é um musical como os musicais clássicos do cinema e, por isso, dirigido a um nicho do público que vai aos cinemas. Os Fabelmans é um filme intimista.

Dia D devolve Steven Spielberg ao mundo dos blockbusters, ele que, em 1975, com Tubarão, reiventou o cinema de entretenimento e, assim, fez história em Hollywood.

Os críticos americanos detestavam Alfred Hitchcock sob o argumento de que ele só sabia fazer filmes comerciais, com poucos méritos artísticos. Foi preciso que os críticos franceses se debruçassem sobre a obra do mestre e dessem a ela a merecida dimensão.

Essa comparação faz sentido, a despeito de que Hitchcock e Spielberg estejam separados um do outro por grandes diferenças. Mas Hitchcock atravessou décadas injustiçado pelos críticos, e Spielberg está chegando aos 80 anos sem total justiça ao seu cinema.

Dia D é um filme muitíssimo bem realizado e positivamente inserido em debates cruciais do mundo em que vivemos. É um legítimo Spielberg que brota no caos da América sob Donald Trump. "Escutem!" - é a última palavra que ouvimos antes dos créditos finais.

Imagem ilustrativa da imagem Os filmes de Spielberg marcando a passagem do tempo

Silvio Osias

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