José Targino Maranhão entrou para a história como o primeiro governador da Paraíba que ganhou uma disputa pela reeleição. Com a aprovação da Emenda Constitucional nº 16, em 1997, ele pôde concorrer a um novo mandato e venceu as eleições de 1998, em primeiro turno, após um dos episódios mais marcantes da política paraibana: o rompimento com o senador Ronaldo Cunha Lima, até então um dos principais aliados dentro do então PMDB.
A história é contada no novo episódio da série especial "Governadores: A História do Executivo na Paraíba", projeto original do Jornal da Paraíba e da Rádio CBN, idealizado pelo repórter Guilherme Bezerra e com reportagens de Gustavo Demétrio.
O episódio está disponível no Spotify e nas principais plataformas de áudio. OUÇA ACIMA.
A reeleição muda a política paraibana
Em 4 de junho de 1997, foi promulgada a Emenda Constitucional nº 16, que passou a permitir a reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos. A mudança alterou o cenário político nacional e abriu caminho para que José Maranhão disputasse um novo mandato no comando da Paraíba.
Naquele momento, Maranhão vivia um período de alta popularidade, impulsionado pelas obras de infraestrutura e pelo desempenho do primeiro governo, iniciado em 1995 após a morte de Antônio Mariz.
Em discurso durante a campanha, o governador defendeu a continuidade do projeto administrativo.
"Nós vamos continuar no mesmo rumo, nós vamos continuar perseguindo as mesmas metas", afirmou à época.
No entanto, a continuidade contou com um rompimento: a disputa pela reeleição coincidiu com uma crise interna no PMDB. O comando do partido passou a ser disputado entre José Maranhão e o senador Ronaldo Cunha Lima, dois dos maiores líderes políticos do estado naquele período.
Segundo o jornalista Nonato Guedes, a disputa começou durante a renovação do diretório estadual do partido.

"Maranhão indicou Haroldo Lucena para a presidência do diretório e derrotou Ronaldo Cunha Lima na convenção. A partir daí, uma guerra fria se seguiu", relembrou.
O momento considerado definitivo para o rompimento ocorreu em 21 de março de 1998, durante a comemoração do aniversário de Ronaldo Cunha Lima, no Clube Campestre, em Campina Grande.
Na ocasião, José Maranhão compareceu ao evento levando ordens de serviço para obras estaduais, em um gesto interpretado como tentativa de pacificação.
Segundo Nonato Guedes, o resultado foi exatamente o contrário.
"Ronaldo praticamente ignorou as ordens de serviço e fez um discurso que surpreendeu toda a plateia", contou.
Durante a fala, Ronaldo acusou assessores do governo de transformar a festa em um ato político e fez um ultimato público ao governador.
"Ou você assume a posição de governador ou desista, porque eu assumirei”, disse.
Para o sobrinho de José Maranhão, Benjamim Maranhão, aquele episódio selou a divisão do grupo político.
"No final das contas, quem tinha razão era doutor Ivandro e Zé Maranhão. Se o grupo tivesse permanecido unido, muita coisa que aconteceu depois na política da Paraíba não teria acontecido", afirmou.
Convenção histórica e vitória nas urnas

Após o rompimento, o PMDB realizou uma das convenções mais disputadas da história do partido na Paraíba. O então prefeito de Guarabira, Roberto Paulino, foi escolhido como candidato a vice-governador na chapa de José Maranhão.
"A convenção foi histórica, uma guerra grande. Os adversários eram os próprios companheiros de partido", relembrou Paulino.
Nas eleições de outubro de 1998, Maranhão foi eleito em primeiro turno com mais de 80% dos votos, resultado que permanece como a maior votação proporcional já obtida por um candidato ao Governo da Paraíba desde a redemocratização.
Na mesma eleição, Ney Suassuna foi reeleito senador.
Continuidade do governo

Na cerimônia de posse para o segundo mandato, José Maranhão afirmou que faria poucas mudanças na equipe de governo.
"Não haverá grandes mudanças, já que estamos em um governo de continuidade e o nosso secretariado se desempenhou muito bem", declarou.
O slogan da nova gestão permaneceu "Austeridade e Desenvolvimento", reforçando a continuidade administrativa iniciada em 1995.
Uma das decisões mais marcantes do segundo governo foi a privatização da Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba (Saelpa), concluída em 2000.
Segundo o historiador Flávio Lúcio, Maranhão defendia que os recursos obtidos com a venda da empresa fossem destinados à infraestrutura hídrica do estado.
"Ele dizia que os recursos da privatização não iriam virar pó; iriam virar água", lembrou.
O governo ampliou o chamado Plano das Águas, com investimentos em:
- mais de 1.200 quilômetros de adutoras;
- construção de 14 barragens;
- implantação de projetos de irrigação;
- preparação da infraestrutura para receber a futura transposição do Rio São Francisco.
O ex-secretário Francisco Sarmento afirmou que o planejamento já previa o impacto da chegada das águas da transposição.
"A meta principal era preparar a Paraíba para receber a transposição do São Francisco", explicou.
Meio ambiente e turismo
Outra marca do segundo mandato foi a criação de unidades de conservação ambiental.
O ex-superintendente da Sudema, Erasmo Lucena, afirma que o estado não possuía parques estaduais antes da gestão.
"Foram criados 16 parques ecológicos. Não existia nenhum quando chegamos", disse.
Entre as iniciativas estão a criação do Jardim Botânico Benjamim Maranhão, do Parque Estadual Pedra da Boca e a valorização do Vale dos Dinossauros.
Também durante o segundo mandato foi inaugurado o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, hoje uma das principais unidades hospitalares da Paraíba.
Segundo a desembargadora Fátima Bezerra, viúva de José Maranhão, o governador acompanhava pessoalmente o andamento das obras.
"Ele colocava as mãos na obra. Por isso recebeu o título de Mestre de Obras", afirmou.
O segundo mandato também coincidiu com mudanças importantes na economia brasileira, como a adoção do câmbio flutuante em 1999 e a entrada em vigor da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000.
O economista Cássio Besarria afirma que o período exigiu maior controle sobre gastos públicos e endividamento.
Segundo ele, Maranhão conseguiu manter capacidade de investimento mesmo diante das novas exigências fiscais, herdando parte da estabilidade construída durante o primeiro mandato.
Renúncia para disputar o Senado
José Maranhão deixou o governo antes do fim do mandato. Em 6 de abril de 2002, renunciou ao cargo para disputar uma vaga no Senado Federal. O vice-governador Roberto Paulino assumiu o comando do estado.
Na despedida, Maranhão afirmou que encerrava o período com sentimento de dever cumprido.
Segundo Fátima Bezerra, o legado daquele governo permanece associado principalmente às obras estruturantes realizadas em todo o estado.
"Vamos falar de obras de José Maranhão e passamos o dia inteiro conversando", resumiu.
Onde ouvir
O episódio sobre o segundo governo de José Maranhão faz parte da série "Governadores: A História do Executivo na Paraíba", uma produção da CBN Paraíba com o Jornal da Paraíba.
Além do Spotify, o podcast está disponível nas principais plataformas de áudio. A produção contou com pesquisa do Cedoc da Rede Paraíba de Comunicação e, a cada episódio, o Jornal da Paraíba publica uma reportagem especial aprofundando a história de cada governo.


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