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SILVIO OSIAS

Ela não é Jaguaribe Carne, mas é Jaguaribe

Josélia Ramalho lança o álbum Parahybana e faz um faixa a faixa.

Publicado em 20/07/2026 às 6:31


					Ela não é Jaguaribe Carne, mas é Jaguaribe

Eu tinha 17 anos quando vi Josélia Ramalho pela primeira vez. Ela tinha somente 11 anos. Era a irmã caçula de Cláudio, meu colega no Liceu Paraibano.

Um adolescente de 17 anos não presta atenção numa garota de 11 anos. Para mim, era apenas uma criança nas tardes em que ouvia Beatles em sua casa.

Mas o talento musical já estava dentro dela, e, um pouco depois, fui testemunha da noite em que o pai, de surpresa, presenteou Josélia com seu primeiro piano.

Piano, violoncelo, composição, Grupo Pongará, Orquestra Sinfônica, formação acadêmica, professora de música na UFPB. Josélia e seus caminhos musicais.

Agora, neste ano de 2026, Josélia Ramalho lança seu primeiro álbum autoral. O nome é Parahybana. Ainda não está nas plataformas, mas já ouvi.

A primeira coisa que me ocorreu, quando fiz a audição inicial, foi: Josélia Ramalho, minha querida amiga Josélia, não é Jaguaribe Carne, mas é Jaguaribe.

Nas nossas infâncias, nas noites que antecediam os carnavais, todos nós - Josélia, Pedro Osmar, Paulo Ró, eu também - ouvimos os sons das tribos indígenas.

Os "índios" ensaiavam para o desfile carnavalesco, e os sons fortes e marcantes dos seus tambores e de suas flautinhas ecoavam pelas noites jaguaribenses.

Não por coincidência, o álbum de Josélia começa com uma música chamada Duarte da Silveira, Domingo de Carnaval, composta por Escurinho. A faixa tem a presença do próprio Escurinho e também os "índios" gravados pelo Tenente Lucena.

O álbum segue com as faixas autorais. A experiência musical misturada com as evocações familiares, a tradição e o contemporâneo, fazendo de Parahybana um breve (porque é curto), mas expressivo, autorretrato que Josélia Ramalho agora nos oferta.

Depois que ouvi o álbum, liguei para Josélia, transmiti minhas impressões e fiz uma provocação. Pedi que escrevesse um faixa a faixa para a coluna. Ela topou.

*****

PARAHYBANA POR JOSÉLIA RAMALHO

01. Duarte da Silveira, Domingo de Carnaval - Sempre que encontrava Escurinho, eu perguntava quando iríamos fazer algo juntos. Quando fui preparar repertório para o álbum, foi para ele que perguntei se tinha alguma música instrumental. "Josélia, bicho, tenho poucas!!". E me mandou o link de Duarte da Silveira, em sua interpretação do álbum. Mesmo antes de abrir o arquivo, o título me pegou. A avenida Duarte da Silveira é meu endereço certo no domingo de carnaval. Quando ouvi que a inspiração da música é a batida e o coração das nossas tribos indígenas carnavalescas, tive certeza que essa música era para mim! Os integrantes e seus cocares imensos e enfeitados passando pela minha rua, em Jaguaribe, a caminho da avenida, é uma lembrança doce que tenho da minha infância no bairro. À noite, da nossa casa, se ouviam os sons, não só das tribos, mas também dos terreiros. O arranjo que Helinho Medeiros fez coloca o foco no violoncelo, em várias camadas, com a voz, percussão corporal e a zabumba de Escurinho. E a introdução é um recorte de um fita K7 que Tenente Lucena (1912-1985) gravou na avenida, em um dos desfiles (provavelmente dos início dos anos 1980).

Foi o filho do tenente, Perilo Lucena, quem intermediou com a Tribo Ubirajaras a gravação do clipe e a autorização da gravação do Tenente. Para tudo ficar mais que perfeito, os cineastas Rodrigo T. Marques e Eduardo Consoni, com quem trabalhei no longa Toada para José Siqueira (2019) como pesquisadora musical, dirigiram o clipe da faixa.

02. Carrapicho - Composta no final dos anos 1980, quando eu iniciei tocando música popular com o Grupo Pongará, que tinha a seguinte formação, quando entrei: Poty Lucena (líder e baixista), Eudes Nazareno (flauta), Jairo (guitarra), Paulo Batera (bateria), Mônica (voz). O grupo fazia um som autoral, com músicas cantadas da dupla Poty-Eudes, numa pegada Clube da Esquina pessoense. Muitas músicas instrumentais, que me inspiraram a compor. Carrapicho começa com uma brincadeira nas teclas pretas, as mais amadas pelos pianistas, e se desenvolve para um baião-maxixe. A faceta acadêmica - à época época, eu tinha como professor de harmonia o professor José Alberto Kaplan - se revela no canône a 3 vozes, ao final.

03. Maracatu - Minha primeira composição. Na tonalidade de ré maior, explora principalmente as pentatônicas. As mudanças de compassos e tonalidade passeiam pelo maracatu e pelo baião. Ao fazer prova de ingresso para o bacharelado em piano, como graduada em violoncelo, foi a peça que toquei no item “música brasileira”. A curiosidade é que conclui o bacharelado em piano somente quando já tinha defendido o mestrado em performance (piano), todos pela UFPB.

04. Cinco de Agosto - Minha avó Antonina, de quem eu era o xodó, nasceu em 15 de agosto, sentei ao piano para fazer uma música para ela. Mas a música saiu muito animada, um tema em 5/4 que amei fazer. Porém, dei o título de Cinco de Agosto, e a homenageada foi a cidade de João Pessoa, que, no dia de Nossa Senhora das Neves, comemora o seu aniversário de fundação. O convidado para esta faixa é o guitarrista Rafael Chaves. Com Rafael, tem uma história e uma influência na gravação desse álbum que remonta a 2018. Tinha acabado de defender meu doutorado na UNIRIO, e uma colega de turma, a gaúcha Clarissa Ferreira, me avisa que indicou meu nome para participar do show de Rhaissa Bittar. A proposta da cantora na Casa Miragem, no Miramar, era que mulheres da cidade apresentassem suas produções antes dela fazer seu show, e lá fui eu. Toquei o Maracatu e Cinco de Agosto, depois de anos sem tocar minhas músicas. Foi legal tocar para uma geração que nunca tinha me visto no palco. Eu era apenas a professora da UFPB. Ao terminar minha apresentação, Rafael, que estava na janela que dava para o jardim da casa, perguntou: "Professora, onde posso ouvir suas músicas?". Quando respondi que não estavam gravadas em lugar algum, nem escritas na partitura, seu olhar foi um misto de incredulidade e desespero. Aquela energia dele, me fez retirar da gaveta, não apenas as minhas músicas, mas a artista com saudade de um palco somente dela. Quando eu convidei Rafael e contei o por quê do convite, ele me mandou o momento exato que estava escutando Cinco de Agosto neste dia. Um clique de uma amiga.

05. Antonina - É o nome da minha avó paterna. Meus outros avós morreram bem antes de eu nascer. O pai de papai, José, marido de Antonina, morreu antes mesmo de papai nascer. Crente da Igreja Batista, muito séria, cheia das coisas dela. Mas, comigo, a caçula da casa, se derretia toda. Interpretava sonhos como ninguém, previa acontecimentos. Será que, em algum lugar, está vendo a neta Léa tocar a música para ela? Helinho Medeiros fez um arranjo com a sanfona por cima do tema do piano que realçou tudo. O take foi único, fez todo mundo no estúdio Peixe Boi prender a respiração. Que maestria, meu querido ex-aluno, que agora é meu diretor musical. O que eu ensinei a Helinho na UFPB? Quase nada, apenas o guiei para sair pelo portão como bacharel em música (piano) e seguir a vida, voltando à UFPB para abrir o curso de sanfona. Tenho muito orgulho desses ex-alunos.

06. O vinho e o sonho - O meu velho piano Donner é meu companheiro desde os meus 13 anos. E nele, uma noite, fiquei tocando e tomando um vinho. Daí surgiu o tema do Vinho e o Sonho. E o sonho? Poty, o do Grupo Pongará, falou que a música estava precisando de uma parte B. Disse-me que sonhou com ela, acordou, escreveu em um pedaço de papel e me deu. Deu, dado! Disse que a música era somente minha, e assim foi registrada e gravada por Jurandy do Sax em seu LP Saxomaníaco. Porém, considero esta canção nosso primeiro filho. Depois vieram Marcel e Clara.

Em 2024, fiz um arranjo para Orquestra de Mulheres da ABRACELLO, associação brasileira de violoncelos. E o arranjo que gravamos é uma adaptação dessa versão. Com a participação de Teresa Cristina Rodrigues, minha grande amiga-irmã, Amanda Massa, Mayara Brito e Jeniffer Souza. O quarteto de cellos 100% feminino se junta ao piano e essa faixa com certeza é uma das que mais gosto.

*****

O xote Céu de Junho completa o álbum. Melodia de Josélia Ramalho, letra de Manoel Filho. Quem canta é Pedro Índio Negro.

Imagem ilustrativa da imagem Ela não é Jaguaribe Carne, mas é Jaguaribe

Silvio Osias

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