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SILVIO OSIAS

Moacir Santos, 100 anos

Centenário do nascimento foi neste domingo, 26 de julho de 2026.

Publicado em 27/07/2026 às 6:31


					Moacir Santos, 100 anos

Anos 1940. Após fugir de casa e vagar por várias cidades, Moacir Santos chegou a João Pessoa. Um encontro casual, no Parque Solon de Lucena, mudou a sua vida.

Dois pretos, dois saxofonistas. Moacir e Dedé do Sax. Dedé exibia seu belo motor Zundapp e estava vestido com a farda da Polícia Militar. Tocava na banda.

A conversa terminou com um convite para que Moacir Santos fosse a um ensaio da banda da PM fazer um teste. Se tocasse bem, talvez pudesse ser contratado.

Moacir foi. O maestro lhe deu uma partitura. Ele tocou com absoluta perfeição. Entrou para a banda e, em seguida, para a orquestra da Rádio Tabajara.

Não era mais a Orquestra Tabajara. Esta, Severino Araújo já tinha levado para o Rio. Era a orquestra que a emissora manteve funcionando até década de 1960.

Moacir Santos se fez homem em João Pessoa. Era ele que dizia. A banda da PM, a orquestra da rádio, e Cleonice, a mulher com quem seguiu por toda a vida.

De João Pessoa para o Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro para a Califórnia, onde viveu por 40 anos, até a sua morte, aos 80, no dia seis de agosto de 2006.

Moacir era de Flores, Pernambuco. Ou nasceu num lugar próximo, que não tinha cartório, e foi registrado em Flores. Não conheceu o pai e perdeu a mãe muito cedo.

Moacir Santos era um músico dos músicos. Um músico para os músicos. Compositor, arranjador, maestro, pianista, saxofonista e grande professor.

No Rio, deu aulas a alguns dos grandes nomes da bossa nova. Os Afro-Sambas, de Baden e Vinícius, talvez não existissem se Baden Powell não fosse seu aluno.

Antes, como Tom Jobim e Severino Araújo, foi aluno de Hans-Joachim Koellreutter. Alemão que fugiu da guerra, Koellreutter é figura crucial para a música brasileira.

Também teve aulas como outro gigante: Guerra Peixe. O maestro e compositor César Guerra Peixe era um mestre da música, mas também do ensino da música.

Moacir aprofundou, como poucos, os vínculos da Mãe África com a música brasileira. É o que temos na sua obra. É o que está sintetizado no álbum Coisas.

Sua música, de singular refinamento, vai dos temas do povo nordestino ouvidos na infância ao jazz, com uma erudição que ultrapassa os limites da música popular.

Coisas. Moacir pensou nos opus da música erudita quando deu esse nome - Coisas - a umas peças instrumentais que escreveu. Coisa Número 1, Coisa Número 2, etc.


					Moacir Santos, 100 anos
Foto/Reprodução.

As Coisas estão reunidas no álbum Coisas, lançado pelo selo Forma em 1965. Reúne 10 Coisas e é um dos grandes discos da música popular brasileira.

A Coisa Número 5 ficou famosa com outro nome: Nanã. Era a "filha" mais querida de Moacir Santos, com dezenas de gravações dentro e fora do Brasil.

Nanã está no filme Ganga Zumba, que Cacá Diegues realizou em 1963. Nanã foi gravada por Nara Leão e popularizada por Wilson Simonal, já com a letra de Mário Telles.

Nanã foi extraordinariamente bem gravada por Sergio Mendes no álbum Você Ainda Não Ouviu Nada!, de 1964, com arranjo soberbo escrito pelo próprio Moacir.

Moacir Santos trocou o Brasil pelos Estados Unidos atraído pela indústria do cinema, e de lá não voltou mais. Vinha a passeio, reencontrar as raízes e os afetos.

Nos Estados Unidos, foi chamado Maestro. É o título do primeiro álbum que gravou lá. "My name is Moacir Santos", se autoapresenta na releitura de Nanã.

Baden Powell, Sergio Mendes, Eumir Deodato, Roberto Menescal, Nara Leão. Mais tarde, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Gilberto Gil, João Bosco, Joyce, Djavan.

Todos cultuaram Moacir Santos. Todos prestaram atenção nele e aprenderam algo com ele. Até Roberto Carlos, que é de outra praia, e Sivuca, a quem Moacir deu aulas.

Nos anos 1990, Mário Adnet e Zé Nogueira formaram a Banda Ouro Negro e de Ouro Negro chamaram o disco duplo que resume a obra de Moacir Santos.


					Moacir Santos, 100 anos

Ouro Negro -disco duplo e DVD gravado ao vivo - é um retrato imprescindível de Moacir Santos e sua arte densa e rica, além de profundamente afro-brasileira.

Ouro Negro começa com Nanã e reúne temas instrumentais. Nas faixas cantadas, há Milton Nascimento, Gilberto Gil, João Bosco, Djavan, Joyce e Ed Motta.

Bodas de Prata Dourada fecha o álbum. Celebra o seu casamento com Cleonice. Moacir queria que Roberto Carlos gravasse, mas não combinava com o estilo do Rei.

Lançado em 2005, seu último disco se chamou Choros e Alegria. Outra vez produzido por Mário Adnet e Zé Nogueira, tem Wynton Marsalis tocando seu trompete.

Moacir Santos merecia ter gravado muito mais. Moacir Santos merecia ser mais conhecido no Brasil. No seu centenário, ele segue vivo no coração de muitos músicos.

E há, ainda, um grupo de ouvintes, não músicos, que reverenciam a sua arte bela e profunda. É um grupo seleto de pessoas que entendem a dimensão de Moacir.

Moacir foi parceiro de Vinícius de Moraes, e do poeta, ganhou uma dedicatória na letra do Samba da Bênção, fruto da fertilíssima parceria de Vinícius com Baden Powell:

"Moacir Santos /Tu que não és um só, és tantos /Como este meu Brasil de todos os santos". Moacir, homem e músico, era um ser de luz. Não era desse mundo vão.

Imagem ilustrativa da imagem Moacir Santos, 100 anos

Silvio Osias

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