ESPAÇO OPINIÃO
Ninguém deveria medir a alegria de alguém pelo sorriso que aparece na tela
Por Jeoás Farias
Publicado em 20/08/2026 às 16:27

Durante muito tempo, associamos o sorriso à felicidade. Quem sorri está bem. Quem viaja está feliz. Quem publica uma foto bonita está vivendo uma fase maravilhosa. Quem aparece cercado de amigos não pode estar se sentindo sozinho.
As redes sociais tornaram essa leitura ainda mais perigosa.
Hoje temos filtros para quase tudo. Filtros que melhoram a pele, corrigem a luz, modificam o corpo, organizam cenários e transformam momentos comuns em imagens aparentemente perfeitas. Mas existe um filtro muito mais poderoso e menos perceptível: o filtro sobre aquilo que decidimos mostrar da nossa própria vida.
Publicamos a viagem, não necessariamente a angústia que levamos na mala. Mostramos a festa, mas não o vazio depois dela. Compartilhamos conquistas profissionais, enquanto escondemos inseguranças. Escolhemos a fotografia sorrindo e descartamos todas as outras.
Isso não significa que exista falsidade em cada postagem feliz. A alegria publicada pode ser absolutamente verdadeira. O problema é acreditar que ela representa a totalidade da vida de alguém.
Estamos aprendendo, felizmente, a falar mais sobre saúde mental. Ansiedade, solidão, esgotamento e sofrimento emocional deixaram de ser assuntos tão escondidos quanto foram durante gerações. Mas precisamos incluir as redes sociais nessa conversa, não apenas como espaço onde esses problemas são discutidos, mas também como ambientes capazes de intensificar comparações, cobranças e a sensação permanente de inadequação.
O feed dos outros pode se transformar numa régua cruel para medir a nossa própria vida.
Comparamos nossos bastidores com a vitrine alheia. Vemos corpos, relacionamentos, carreiras, viagens, famílias e rotinas cuidadosamente selecionados e podemos concluir que existe alguma coisa errada conosco.
Só que estamos comparando uma vida inteira com um recorte. E talvez exista uma questão ainda mais delicada.
Por trás de uma presença digital aparentemente perfeita pode existir alguém precisando ser ouvido. Nem todo pedido de ajuda chega escrito: "preciso de ajuda".
Às vezes ele aparece numa mudança de comportamento, num afastamento, numa fala diferente, numa publicação incomum ou até escondido atrás do excesso de exposição e de uma felicidade que parece precisar ser demonstrada o tempo inteiro. Esses sinais, isoladamente, não permitem concluir que alguém esteja sofrendo, mas podem nos lembrar de olhar para as pessoas com mais atenção e menos julgamento.
É por isso que precisamos recuperar algo que nenhum algoritmo consegue substituir: o interesse genuíno pelo outro.
Perguntar como alguém está e querer realmente ouvir a resposta. Conversar sem transformar tudo em postagem. Perceber pessoas para além dos seus perfis.
Porque presença digital também precisa ser presença humana. As redes sociais nos ensinaram a enxergar milhões de rostos todos os dias. Talvez agora precisemos reaprender a olhar para as pessoas.
Um sorriso pode significar felicidade. Mas nunca deveria ser usado como diagnóstico de que alguém está bem.
Existem filtros capazes de esconder imperfeições em uma fotografia. E existem filtros muito mais profundos, capazes de esconder dores que nenhuma fotografia consegue revelar.
Por isso, antes de admirar ou invejar a vida que aparece na tela, lembre-se: todo feed é apenas uma parte da história. E algumas das partes que não foram publicadas talvez sejam justamente aquelas que mais precisavam ser vistas.
*Jeoás Farias - especialista em Presença Digital e colunista da CBN

Comentários