COTIDIANO
Chacina de Pioz: Polícias Civil e Federal divergem sobre crime em mensagens de assassino a amigo
Há 10 anos, Patrick Nogueira matava o tio, a tia e os primos. Entre a morte da mulher e das crianças, ele trocou mensagens com Marvin Henriques.
Publicado em 09/09/2026 às 7:02 | Atualizado em 09/09/2026 às 8:00

Em 2016, François Patrick Nogueira Gouveia foi responsável pela morte de Marcos Campos Nogueira, tio dele; da esposa do tio, Janaína Santos Américo; e dos dois filhos pequenos do casal, Maria Carolina, de 4 anos, e David de 1 ano, todos integrantes de uma família paraibana. Ele foi condenado à prisão perpétua pelos crimes.
No entanto, 10 anos depois, a suposta participação de Marvin Henriques Correia, amigo de Patrick Nogueira, no assassinato do tio e também na ocultação de cadáver de todos os mortos na Chacina de Pioz, por meio de incentivos por mensagens, segue em aberto.
No ano em que o crime completa uma década, o Jornal da Paraíba faz uma série de reportagens sobre os principais pontos dos assassinatos e também sobre a divergência entre as duas policiais que investigaram o crime: a Polícia Civil e a Polícia Federal.
A reportagem entrevistou o delegado Marcos Paulo, superintendente da Polícia Civil na Região Metropolitana de João Pessoa à época do crime, e também o delegado da Polícia Federal, Gustavo Barros. Tal qual os processos transcorreram oficialmente, os investigadores mantêm posições diferentes sobre uma eventual conduta criminosa de Marvin.
Enquanto a Polícia Civil argumenta que, sim, houve crime tipificado em lei por parte de Marvin, a Polícia Federal diz que a conduta, apesar de moralmente reprimível, não pode ser considerada crime. Veja abaixo.
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As mensagens de Marvin a Patrick

Marvin Henriques é alvo de uma ação na Justiça por supostamente “dar dicas” para Patrick concluir o quarto assassinato, após o triplo homicídio da esposa do tio e dos primos. A conversa entre os dois acusados foi registrada pela polícia espanhola entre as 15h55 do dia 17 de agosto até as 6h57 do dia 18 do mesmo mês, ambos horários da Espanha.
No conteúdo, Patrick relata com detalhes como matou a mulher e as duas crianças. Marvin pergunta qual das três vítimas ele matou primeiro e Patrick responde que “na mulher, depois a mais velha e depois o moleque de um ano”.
Patrick contou, nas mensagens, que cortou a garganta de Janaína e que seus primos ficaram gritando nesse momento. “As crianças ficaram gritando. Massa que os pirralhos nem correm, só ficam ‘travadão’. O pirralho de um ano falava algumas coisas, mas na hora falava nada, não”, detalhou Patrick.
Durante a conversa, Marvin se mostrou compreensivo com o amigo e chegou a dar dicas, como o fato de Patrick tentar enterrar os corpos e na forma de abandonar o casa onde a família foi assassinada.
“Sai pela frente mesmo, de manhã, como se fosse caminhar ou algo do tipo. Sei lá. De madrugada pode parecer suspeito. Mas eles não vão descobrir nem tão cedo as mortes”, comentou Marvin nas mensagens.
De João Pessoa, por meio do WhatsApp, Marvin alertou Patrick em não deixar rastros na cena do crime: “Ajeita essas luvas direito. Deixa eu ver aqui o que mais [tem a ser feito]. Tem alguma coisa por aí? Ou alguma coisa que ligue a você?”. A isso, Patrick deu uma resposta negativa.
“Beleza. Então está tranquilo, mas tem que ficar pensando minuciosamente, para não dar merda”, conclui Marvin.
Em um outro momento, enquanto esperava Marcos retornar do trabalho, após matar a tia e os primos, esquartejá-los e limpar o local dos assassinatos, Patrick comentou que achou que fosse vomitar, mas que não sentiu nojo e chegou até a rir no início do esquartejamento e, por fim, a ter raiva pelo esforço de esquartejar as vítimas.
Ainda nas mensagens Patrick comenta que precisava compartilhar o fato com alguém, mas que tinha medo de perder o amigo caso relatasse algo sobre os três primeiros homicídios.
“Eu estou feliz que tu está de boa. Eu fiquei com medo de tu dizer ‘boy, acabou’. Eu tenho medo de te perder, mas eu não podia não compartilhar contigo”, desabafou Patrick.
Marvin, então, envia uma mensagem rindo e chama o amigo de assassino.
“Eu pensei que ia mudar algo na minha vida [matar alguém]. Eu pensei que ia me sentir mais vivo”, Patrick responde.
O amigo responde explicando que não podia fazer nada, que ele era " doente" mesmo. Em outra troca de mensagens, os dois afirmam que amam um ao outro.
Polícia Civil viu crime nas mensagens
Ao Jornal da Paraíba, o superintendente da Polícia Civil à época dos crimes disse que a investigação contra Marvin Henriques enxergou as mensagens como “auxílio” a Patrick Nogueira no assassinato do tio Marcos Campos.
Marcos Paulo disse, inclusive, que a conduta de Marvin poderia incidir no crime de concurso de pessoas, que diz respeito a duas pessoas ou mais cooperarem para fazer um crime.
"A gente avaliou que sim, eu e o Dr. Reinaldo, a gente achou que sim. Dr. Reinaldo Nóbrega era o então chefe da Delegacia de Homicídios e a gente viu que havia, sim, concurso de pessoas, não somente deste último homicídio, na ocultação dos cadáveres, até porque o Marvin, ele ainda que a distância, ele instigou, ele auxiliou, ele pesquisou, a forma de incentivar, estimulou todo o cometimento desses dois crimes que eu me referi, o homicídio (do tio) do Patrick e a ocultação dos cadáveres todos da famílias”, disse.
O delegado disse ainda que além dos crimes em si na conduta, há também um auxílio psicológico na conclusão do crime contra Marcos Campos.
"Ele ficou instigando, ele ficou auxiliando, como eu disse, e pesquisando como se ocultar um cadáver, mantendo inclusive um aspecto emocional, de auxílio emocional, não só auxílio, de cometer o crime, de que o próprio Patrick, ele perseverava, que ele aguentasse firme para que ele terminasse todo o serviço. Então, nisso a gente não tem a menor dúvida que ele foi sim determinante para o cometimento do quarto homicídio e para ocultação dos quatro cadáveres”, ressaltou.
“Homicídios iriam ocorrer com ou sem Marvin”, diz Polícia Federal sobre mensagens
Também em entrevista especial para o Jornal da Paraíba, o delegado da Polícia Federal na então investigação sobre o crime, Gustavo Barros, falou que, conforme a corporação enxergou, não havia possibilidade de tipificação das mensagens de Marvin como uma conduta criminosa, mas sim algo moralmente reprovável.
O delegado disse que os crimes ocorreriam mesmo sem um suposto auxílio de Marvin e que uma eventual participação dele é “insiginificante”.
“O fato é que pelas informações que a gente colheu no inquérito, inclusive nas próprias mensagens, é muito claro que os homicídios iriam ocorrer com ou sem Marvin. Ou seja, a participação dele é insignificante no sentido de que não iria aumentar nem diminuir a possibilidade, nem a ocorrência do crime”, disse Gustavo Barros.
Ele disse ainda que, por essa questão, o caso não foi adiante na esfera da Polícia Federal e não houve um indiciamento da corporação contra Marvin Henriques. O delegado disse ainda que, mesmo sem ver tipificação do crime, a conduta é reprovável.
“A conduta do Marvin, apesar de reprovável, do ponto de vista ético, esperavam que ele fizesse outra coisa, tudo bem, mas, no nosso entender, aquilo ali está longe de ser um homicídio, de ser uma participação no homicídio”, ressaltou.
Gustavo Barros, inclusive, disse que concorda com a decisão da Justiça da Paraíba, que inicialmente absolveu Marin Henriques pelo suposto auxílio na Chacina de Pioz.
Caso está em aberto na Justiça
No processo criminal após o indiciamento feito pela Polícia Civil, o caso foi apreciado pela Justiça da Paraíba. Inicialmente, após análise da peça da defesa, a Justiça entendeu que ele não participou do homicídio e que não praticou nenhum crime tipificado no Código Penal Brasileiro, decidindo assim pela absolvição sumária. A sentença foi da juíza Aylzia Fabiana Borges Carrilho, do Segundo Tribunal do Júri da Capital, em 2021.
Após essa decisão, o caso foi tratado como finalizado. No entanto, mais recentemente, em 2023, a Justiça reabriu o processo contra Marvin Henriques, que já estava em liberdade. A nova decisão foi tomada em fevereiro daquele período após pedido do Ministério Público da Paraíba (MPPB).
O relator do acórdão, desembargador João Benedito da Silva, considerou que o jovem instigou e deu apoio moral para que Patrick Nogueira cometsse o crime. O entendimento dele foi acatado por unanimidade pela Câmara Criminal e o desembargador determinou a revogação da absolvição de Marvin.
A Justiça também pediu a retomada do trâmite processual com prioridade, considerando que o crime aconteceu no ano de 2016 e a absolvição sumária de Marvin foi revogada. Portanto, o processo foi reaberto.
Defesa de Marvin diz que conduta foi reprovável, mas não há crime
Sheyner Asfora, advogado de Marvin, foi entrevistado pela reportagem. Ao Jornal da Paraíba, ele afirmou que defesa vai entrar com um pedido de incompetência da Justiça Estadual da Paraíba para julgar o processo reaberto. Segundo ele, o caso deve ser julgado pela Justiça Federal, devido aos acordos internacionais de cooperação de investigação entre o Brasil e a Espanha.
Sobre a conduta de Marvin em relação a Patrick, ele disse que as mensagens não caracterizaram crime e, sim, uma conduta moralmente reprovável.
"Foi reprovável do ponto de vista moral, do ponto de vista ético, do ponto de vista cristão, mas moralmente reprovável, não reprovável do ponto de vista jurídico-penal. Essa esfera não tem qualquer responsabilidade. Esse é um ponto importante e que a defesa sustenta em várias oportunidades", ressaltou Sheyner.
Sobre o ponto da troca de mensagens não caracterizar crime, a defesa afirmou que as mensagens não influenciaram Patrick Nogueira no assassinato de Marcos e que a interação foi escolhida pelo assassino e não partiu de Marvin.
"Todos têm a plena consciência que as mensagens só surgiram, só foram iniciadas após a morte, o homicídio das três vítimas. E houve um intervalo para a espera do tio. E foi por conta própria que assim ele fez. O Patrick inicia essa conversa e iniciou com o Marvin. Poderia ter iniciado com qualquer pessoa, qualquer outra pessoa que estivesse aqui no Brasil, em qualquer lugar do mundo. E eu disse naquela oportunidade, e aqui repito, a troca de mensagens não caracterizou o crime", disse.

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