Ricardo Coutinho chegou ao segundo mandato à frente do Governo da Paraíba depois de uma das eleições mais disputadas de sua trajetória política. A reeleição, em 2014, aconteceu após o rompimento de uma aliança que havia sido decisiva para sua chegada ao Palácio da Redenção quatro anos antes.
Entre obras que começavam a transformar a infraestrutura do estado, mudanças na administração pública, programas sociais e uma relação mais tranquila com a Assembleia Legislativa, o segundo governo de Ricardo também foi marcado por conflitos com servidores e pela tensão com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
O mandato terminou em 31 de dezembro de 2018, mas a gestão continuou no centro do debate político paraibano nos anos seguintes. A Operação Calvário transformou antigos integrantes do governo em alvos de investigações e alcançou o próprio ex-governador, que passou a sustentar que era vítima de lawfare.
Esta reportagem faz parte da série especial “Governadores: A História do Executivo na Paraíba”, projeto original do Jornal da Paraíba e da Rádio CBN, idealizado pelo repórter Guilherme Bezerra e com reportagens do repórter Gustavo Demétrio.
O episódio do podcast está disponível no Spotify e em todas as plataformas de áudio. OUÇA ACIMA.
A reeleição

Em 2014, Ricardo Coutinho chegava ao quarto ano do mandato com vontade de permanecer mais tempo no governo. Algumas das obras iniciadas durante a primeira gestão começavam a tomar forma, aumentando a popularidade do governador. A relação com a Assembleia Legislativa também havia se acalmado, pelo menos em parte.
A reeleição, entretanto, estava longe de ser uma disputa simples. O principal adversário era um antigo aliado. A aliança entre Ricardo e Cássio Cunha Lima havia sido fundamental para a vitória de ambos nas eleições de 2010, mas foi se desfazendo aos poucos a partir das eleições municipais de 2012.
As pesquisas daquele ano mostravam Cássio na frente. Em uma delas, divulgada em junho, o senador aparecia com mais de 43% das intenções de voto, enquanto Ricardo tinha pouco mais de 25%.
O rompimento entre os dois grupos tinha raízes ainda mais antigas. A disputa municipal havia colocado novamente em lados opostos aliados que, poucos anos antes, estavam juntos para derrotar José Maranhão.
O avanço do processo eleitoral consolidou Cássio como principal nome da oposição. O senador confirmou sua candidatura ao governo, tendo o deputado federal Rui Carneiro como candidato a vice.
“É um olhar para o futuro, para o amanhã. Eu aprendi com os meus erros, aprendi com os meus sentimentos pessoais. Quero reconciliar o governo com a sociedade. O governo precisa fazer as pazes com o Estado e fazer algo novo, diferente, melhor, fruto desse amadurecimento”, disse Cássio ao confirmar a candidatura.
Além de Ricardo e Cássio, disputaram o primeiro turno Vital do Rêgo Filho, Antônio Radical, Tárcio Teixeira e Major Fábio. Ricardo escolheu Lígia Feliciano para a vice. A eleição foi apertada. Cássio terminou o primeiro turno com 47% dos votos, enquanto Ricardo Coutinho ficou com 46%.
A vantagem de Cássio, porém, não foi suficiente para garantir a vitória.
A virada no segundo turno

No segundo turno, Ricardo conseguiu virar a eleição. O governador reuniu novos apoios e recebeu, principalmente, a adesão de setores do então PMDB. A aproximação com José Maranhão representava uma mudança significativa no cenário político.
Em 2010, Ricardo e Maranhão estavam em lados opostos. Agora, o apoio de Maranhão ajudava Ricardo a enfrentar Cássio. Ricardo Coutinho acabou reeleito com 52% dos votos, contra 47% de Cássio Cunha Lima.
Acompanhado de lideranças políticas, o governador comemorou a vitória na Granja Santana. Depois, seguiu para um hotel em Tambaú, onde concedeu uma entrevista coletiva. A vitória marcava o início de mais quatro anos no Palácio da Redenção.
Em 1º de janeiro de 2015, Ricardo Coutinho tomou posse para o segundo mandato. Mas os desafios já estavam postos.
As mudanças na administração
Logo no início do novo governo, Ricardo anunciou uma série de mudanças na estrutura administrativa do estado. O governador chamou as medidas de “racionalização da estrutura administrativa do governo”. A Fundação de Ação Comunitária, a FAC, foi extinta. Suas funções passaram para a Secretaria de Desenvolvimento Humano.
As secretarias de Infraestrutura, Recursos Hídricos e Ciência e Tecnologia foram reunidas em uma única pasta. A Companhia de Desenvolvimento de Recursos Minerais também teve sua estrutura modificada.
A Secretaria de Interiorização foi substituída por uma nova secretaria voltada para a Agricultura Familiar e o Desenvolvimento do Semiárido.
Segundo Ricardo, 300 cargos foram extintos automaticamente com as mudanças. Outros 10% do total de cargos comissionados também seriam reduzidos, o que representaria um corte de aproximadamente 900 servidores.
A justificativa era reduzir a estrutura e organizar as despesas do governo. O segundo mandato, porém, não seria apenas de redução administrativa.
UEPB e os conflitos com servidores
Se a relação com a Assembleia Legislativa melhorou durante o segundo mandato, a convivência com alguns setores do funcionalismo permaneceu marcada por conflitos. Um dos casos mais emblemáticos foi a relação com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
A UEPB já havia enfrentado duas greves durante o primeiro mandato de Ricardo. Em 2011, a paralisação estava relacionada à autonomia financeira da instituição. Em 2013, professores e funcionários voltaram a cruzar os braços, dessa vez reivindicando reajustes salariais.
Em 2015, o conflito voltou a se intensificar. Professores da universidade entraram novamente em greve e permaneceram mais de cem dias paralisados. A categoria reivindicava reajuste salarial, mas não conseguiu alcançar o aumento pretendido.
Raniery Paulino, que à época fazia oposição ao governador na Assembleia Legislativa, criticou a relação do governo com a universidade, relembrando o período em entrevista especial para o podcast.
“A UEPB, que é uma bandeira que eu sempre defendi, ela viveu garroteada naquele governo, onde teve, inclusive, que diminuir o número de alunos”, afirmou.
Segundo ele, a situação chegou a ameaçar a expansão da instituição.
“Por pouco não fechou, inclusive, a UEPB alguns campi. Foi o único período onde a UEPB não foi possível se expandir. E isso é um momento muito lamentável.”
A relação entre governo e universidade seria uma das questões que continuariam presentes no segundo mandato.
A Assembleia e uma nova relação entre os poderes
Uma das mudanças políticas mais importantes do segundo governo aconteceu justamente na relação com o Poder Legislativo. Os grandes embates entre Ricardo Coutinho e a Assembleia, frequentes no primeiro mandato, perderam força.
Fábio Maia, que ocupou cargos nos governos Ricardo Coutinho, inclusive o de chefe de gabinete e secretário de Planejamento, avaliou que a nova composição política permitiu um ambiente diferente.
“Você tem uma tranquilidade maior de debater alguns temas sem ter essa visão da miopia política de ser contra por ser contra", relembrou Fábio analisando o novo momento com a Assembleia.
Um dos principais personagens dessa aproximação foi Adriano Galdino. O deputado estadual foi um dos nomes preferidos pelo governador para assumir a presidência da Assembleia Legislativa e passou a atuar na construção de uma relação mais próxima.
“A gente foi protagonista, a gente foi parceiro, a gente cada vez mais deu a nossa contribuição, através do Poder Legislativo, para uma construção permanente de uma Paraíba cada vez melhor e mais justa para todos”, afirmou Galdino em entrevista especial para o podcast.
Na avaliação dele, era necessário construir uma relação de diálogo.
“Eu busquei esse diálogo, busquei essa compreensão que ele deveria sim buscar o equilíbrio, buscar o consenso, dialogar com todos os demais poderes para que a gente pudesse cada vez mais ter a Paraíba que nós queremos", ressaltou.
As obras
Com a relação política mais estável, o governo avançou na execução de obras iniciadas ou planejadas ao longo dos primeiros anos de gestão. Na capital, um dos principais problemas era a mobilidade urbana. O Trevo das Mangabeiras foi construído em uma área por onde circulavam diariamente cerca de 30 mil veículos.
Durante uma visita ao local, em 2015, Ricardo Coutinho classificou a obra como a mais importante intervenção de mobilidade urbana em João Pessoa naquele momento.
A inauguração, porém, também trouxe dificuldades. O primeiro horário de pico registrou congestionamento e motoristas tiveram dificuldade para compreender a nova circulação. A solução para outro ponto crítico da cidade seria o Viaduto Eduardo Campos, no Geisel.
“Você, para passar ali, no antigo rótulo do Geisel, você tinha que ter coragem, fé e pé”, contou.
Segundo ele, a obra solucionou um problema que afetava não apenas moradores, mas também pessoas que chegavam à capital vindas do interior.
“Aquilo ali era um ponto nevrálgico muito grande que foi solucionado com o viaduto Eduardo Campos", disse.
A execução do viaduto acabou se encontrando com uma mudança importante na política nacional. Durante parte do governo Ricardo, a Presidência da República estava sob o comando de Dilma Rousseff. Em 2016, Dilma sofreu o impeachment e Michel Temer assumiu a Presidência.
Para Ricardo Coutinho, a mudança afetou diretamente as parcerias entre o governo estadual e o governo federal. Ele citou como exemplo os recursos destinados ao Viaduto do Geisel.
“Quando o Temer assumiu, por exemplo, na noite que ele assumiu, 17 milhões que tinham sido encaminhados por Dilma para o viaduto do Geisel, que era a parte do governo federal, a nossa parte era 24 milhões, sempre o estado colocava mais dinheiro que o governo federal para a gente fazer as coisas. Aí 17 milhões ele levou de volta e eu disse: eu não paro a obra, eu vou fazer a obra", disse.
O episódio simbolizou uma mudança na relação entre o governo estadual e Brasília durante a segunda metade do mandato de Ricardo.
Saúde e Organizações Sociais

A saúde também ocupou espaço importante na segunda gestão. Uma das principais obras foi o Hospital Metropolitano, em Santa Rita, concebido para ser referência em atendimento cardiológico e neurocirurgia.
A unidade começou com previsão de 135 leitos, sendo 40 de terapia intensiva. Quando estivesse funcionando em sua capacidade total, chegaria a 226 leitos, com 60 leitos de UTI.
“Destaco que hoje é um patrimônio nosso, uma marca muito forte, o Hospital Metropolitano”, afirmou o deputado estadual Hervázio Bezerra, que era líder do governo Ricardo na época.
Mas a política de saúde do governo tinha outro elemento que se tornaria controverso nos anos seguintes: a administração de hospitais por Organizações Sociais.
A utilização das Organizações Sociais começou no Hospital de Trauma da capital. Ricardo Coutinho reconheceu que não era um defensor da ideia, mas afirmou que decidiu recorrer ao modelo diante dos problemas encontrados na unidade.
“Eu nunca morri de amores pela tese da OS”, disse em entrevista especial para o podcast.
Mesmo assim, segundo ele, a contratação de uma Organização Social foi utilizada para reorganizar o hospital.
“Normalizei o hospital. Colocamos carteira assinada para todo mundo que não tinha. Criei um protocolo rígido de atendimento", disse.
O governador também citou mudanças no atendimento de emergência.
“Desde a ambulância que chega, quantos minutos é que tem que chegar o médico. Não tinha essa história, enfim.”
Segundo Ricardo, o Hospital de Trauma passou de 148 para 331 leitos. O modelo de gestão, entretanto, seria posteriormente associado às investigações que atingiriam a administração estadual.
Políticas sociais
Além das obras de infraestrutura e dos investimentos na saúde, o governo também ampliou programas voltados para a população mais vulnerável.
Cida Ramos, aliada de Ricardo Coutinho e secretária de Desenvolvimento Humano durante quase todo o período dos governos, citou iniciativas como o Cartão Alimentação, o Cidade Madura e o Acolher.
O desafio, segundo ela, era transformar as ações em uma política social mais organizada. A atuação abrangia diferentes públicos.
“Sistematizar para os idosos, para crianças e adolescentes. Aquela secretaria tratava de muitas coisas. O escopo dela foi aumentando à medida que nós atuávamos", disse Cida.
Entre as áreas atendidas estavam direitos humanos, emprego e renda, assistência social e a relação com movimentos sociais. Cida Ramos avaliou que a estrutura conseguiu consolidar essas políticas.
O fim do governo
Ricardo Coutinho deixou o governo da Paraíba em 31 de dezembro de 2018. Ao fazer um balanço da administração, o ex-governador afirmou que o segundo mandato havia representado a consolidação das políticas iniciadas nos primeiros quatro anos.
“Eu governei com a metade e fiz muito mais coisas”, afirmou Ricardo, ao falar sobre os recursos disponíveis para o Estado.
A gestão terminou com obras em diferentes regiões, programas sociais e uma estrutura administrativa que, segundo seus aliados, havia sido ampliada e consolidada. Mas, depois da saída de Ricardo, uma nova fase começaria.
A Operação Calvário

O ano de 2019 foi marcado por notícias envolvendo antigos integrantes do governo. A Operação Calvário havia sido desencadeada em dezembro de 2018 e passou a investigar suspeitas relacionadas a contratos públicos e Organizações Sociais.
A Operação Calvário teve oito fases e resultou na prisão de servidores e ex-servidores de alto escalão da estrutura do governo da Paraíba. As investigações atingiram também Ricardo Coutinho. Em dezembro de 2019, o ex-governador chegou a ser preso ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Natal, no Rio Grande do Norte.
Segundo a acusação apresentada na época, Ricardo era apontado como chefe de uma organização criminosa que teria desviado cerca de R$ 134 milhões da saúde paraibana. O ex-governador negou as acusações.
Em sua defesa, Ricardo passou a sustentar que havia sido vítima de perseguição política e de lawfare.
🔍 Lawfare nesse contexto é o uso estratégico das leis, dos tribunais e do sistema de justiça como meio de combate político.
“Para no final de 2019, prendem pessoas, dizem que só soltam se a pessoa colocar meu nome em alguma coisa, e meu nome era colocado, porque a pessoa queria sair", afirmou Ricardo.
A Operação Calvário continuou produzindo desdobramentos depois da prisão e da posterior soltura de Ricardo Coutinho, no dia seguinte. Em 2026, instâncias superiores voltaram a se manifestar sobre o caso.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o arquivamento da ação penal contra Ricardo. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes decidiu trancar a ação penal relacionada à Operação Calvário contra o ex-governador.
O ministro considerou que a denúncia não poderia ter avançado porque estava baseada predominantemente em delações premiadas e em provas derivadas dessas próprias delações, sem elementos independentes que confirmassem as acusações.
As decisões acrescentaram um novo capítulo à longa disputa jurídica que começou depois do fim do governo.
Onde ouvir o podcast
Além do Spotify, é possível ouvir o primeiro episódio da série "Governadores: A História do Executivo Na Paraíba", pelo Deezer e também pelo Google Podcasts.
Foi parte importante do projeto do Cedoc da Rede Paraíba de Comunicação, com o levantamento de arquivos históricos sobre o governador.
O Jornal da Paraíba, a cada episódio, vai trazer a história dos governos em edições especiais em texto.


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