SILVIO OSIAS
Meio Bossa Nova, Meio Rock'n' Roll
Lembranças de um livro lançado há 25 anos.
Publicado em 11/09/2026 às 7:51

Agora em setembro de 2026, faz 25 anos que lancei Meio Bossa Nova, Meio Rock'n' Roll. O livro reunia crônicas musicais que publiquei no Jornal da Paraíba.
Na coluna desta sexta-feira, 11 de setembro de 2026, trago um texto em que conto a história do livro. Esse texto a seguir, de 2008, nunca foi publicado.
Comecei a me preparar para a chegada do ano 2000 escrevendo. Resolvi fazer pequenas crônicas musicais sobre os artistas que admiro na música popular. Um ligeiro perfil misturado com observações sobre discos e, no caso dos que tive a alegria de ver ao vivo, lembranças de shows. No início, não sabia o que fazer com os textos.
Um dia, numa reunião na sede da TV Paraíba, em Campina Grande, o superintendente Guilherme Lima pediu a colaboração de todos os que participavam daquela conversa no projeto de expansão do Jornal da Paraíba. O matutino passaria por um processo de expansão e teria a sua redação transferida para João Pessoa. Foi aí que encontrei espaço para as minhas crônicas.
A série de textos foi publicada com ilustrações do exímio cartunista William Medeiros, do Departamento de Marketing da TV Cabo Branco. À medida em que os textos eram publicados, as pessoas sugeriam que fossem agrupados num livro. Diante das primeiras sugestões, considerei a ideia muito pretensiosa, mas acabei contaminado por ela e convencido de que podia, sim, reuni-los num livro.
Procurei Jomard Muniz de Britto para mostrar o projeto e pedir que assinasse o prefácio. Jomard disse que assinaria, mas que, antes, o pedido seria feito a Gilberto Gil. Era um sonho, mas a minha reação inicial foi dizer não, porque jamais imaginei que aquilo pudesse se tornar realidade.
Jomard insistiu, e lá fomos nós ao show Gil & Milton no teatro da UFPE com os textos dentro de um envelope. Ainda na plateia, com um frio na barriga, pedi ao amigo que desistisse da ideia e não falasse nada sobre o assunto no camarim.
Ele concordou, mas, lá dentro, me surpreendeu com a seguinte abordagem: “Gil, tenho um dever de casa para você”. Gil perguntou do que se tratava, e Jomard explicou: “Sílvio escreveu um livro sobre música popular, aqui está o texto, você vai fazer o prefácio”. Entrei na conversa, dizendo que compreendia a sua falta de tempo, que ele ficasse à vontade, porém Gil me tranquilizou: “Minha agenda é muita cheia, mas eu encontrarei tempo para atender ao seu pedido”.
No jornal, chamei a série de Música Popular: Afinidades. O livro, quis chamar de Olhar de Fã, até o dia em que Moacir Santos disse que o título (sobretudo a palavra fã) banalizava o conteúdo. Jomard sugeriu Música em Transe e foi assim que apresentamos o projeto a Gil.
Por fim, o batizei de Meio Bossa Nova, Meio Rock’n’ Roll porque fala da música brasileira produzida a partir da Bossa Nova e do rock da geração dos Beatles. Também porque era uma coisa conciliadora, a bossa de um lado, o rock do outro, a possibilidade de diálogo que enxergo nos artistas do mundo. A frase veio de um dos versos de Faz Parte do Meu Show, justamente uma bossa cantada pelo roqueiro Cazuza.
O encontro no camarim do teatro da UFPE foi em abril. Em junho, estava em casa quando fui surpreendido por um telefonema de Gil: “Você vai ao meu show amanhã no Recife?”. Eu disse que sim, e ele completou: “Vá que estou com o texto do seu livro pronto e quero lhe entregar”.
Na noite seguinte, dia de São Pedro, no Marco Zero, recebi o manuscrito num camarim montado por trás do palco onde Gil faria o show dedicado ao repertório de Luiz Gonzaga. Foi uma apresentação maravilhosa, que começou com A Dança da Moda e terminou com Evocação Nº 1. Fiquei com meu irmão, Jairo, e Jomard na primeira fila. Na despedida, Gil beijou meu rosto e disse que eu voltasse para casa com Deus.

Quando Meio Bossa Nova, Meio Rock’n’ Roll foi editado, nas comemorações dos 30 anos do Jornal da Paraíba, o texto de Gil se transformou numa introdução. Na contra-capa, destaquei o seguinte trecho:
“Sílvio sempre procurou compreender a contribuição genuína dos artistas, buscando adivinhar em cada um o destino por trás do propósito, o êxtase por trás do êxito, o senso de missão por trás do fracasso. Sílvio sempre procurou, nos artistas que aprecia, o amor que lhes inspira, a inteligência que lhes propicia o encontro da novidade eficaz e a espiritualidade inerente ao teor poético de tudo que cantam e tocam”. É absolutamente desnecessário dizer o quanto fiquei feliz e honrado com as palavras de Gil.
Jomard me deu a alegria de escrever o prefácio, cujo trecho a seguir coloquei na contra-capa: “Sílvio escreve no particípio presente do escrevivendo. Como se estivesse precocemente investindo no exercício da memória afetiva e, ao mesmo tempo, inventiva. Ele escreve porque, antes de tudo, é um leitor cuidadoso, até meticuloso. Gosta de ler e sabe reler. Pelo sabor da crônica e saber da crítica, revelando seu amor lúcido ao texto bem escrito, pensado, imaginado, refletido”.
Por diversas razões, achei fundamental tê-los ali, apresentando meu livro. Entre elas, o fato de que foi Jomard que me aproximou de Gil. No fundo, sei que minhas crônicas musicais não eram merecedoras de avalistas como eles.
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As caricaturas de Elton John e João Gilberto que hoje ilustram essa coluna são de William Medeiros e estão no livro Meio Bossa Nova, Meio Rock'n' Roll.

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