SILVIO OSIAS
"Será que ele está no pão de açúcar? Viva o Arrigo Barnabé!"
Nascido no Paraná e projetado em São Paulo, músico fez 75 anos.
Publicado em 15/09/2026 às 7:00 | Atualizado em 15/09/2026 às 7:33

Em 1979, no festival da Tupi, nem tudo soava como a MPB que todo mundo conhecia e ouvia. Entre as concorrentes, havia algo novo, ousado e incomum.
Era Sabor de Veneno. Arrigo Barnabé e sua banda. Arrigo, um músico de 28 anos, nascido no Paraná, que se projetava a partir da cena paulistana de vanguarda.
No palco, Arrigo e as vocalistas da banda perguntavam: "Sabor de quê?". E a plateia, entre a estranheza e uma certa indignação, respondia: "De merda!".
Em 1980, Arrigo Barnabé lançou seu primeiro álbum. Clara Crocodilo saiu por um selo alternativo. Era um disco independente, como se dizia naquela época.
"O perigoso marginal, o delinquente, o facínora/O inimigo público número 1" - era como Arrigo Barnabé nos apresentava seu personagem, Clara Crocodilo.

A história de Clara Crocodilo era contada no lado B do álbum. Mas o disco todo tinha uma grande unidade. Soava como se fosse uma espécie de disco conceitual.
Clara Crocodilo oferecia uma grande salada sonora. Do dodecafonismo dos eruditos do século XX ao jazz e ao rock. Remetia um pouco a Zappa e os Mothers.
Cenas urbanas, o protagonismo de um cantor que não sabia cantar, vozes de sopranos, uma banda incrível. Não havia nada comparável a Clara Crocodilo.
The Arrigo Barnabé Project. Creio que ficou assim fora do Brasil. Aqui, vimos Clara Crocodilo ao vivo no Projeto Pixinguinha, na edição de 1983.
Arrigo Barnabé fez três noites de Clara Crocodilo num Teatro Santa Roza lotado. Um petardo, uma experiência única. Só sabe quem foi contemporâneo.
"Clara crocodilo fugiu/Clara crocodilo escapuliu/Vê se tem vergonha na cara/E ajuda clara, seu canalha". Era assim. Não havia nada igual. E nem houve depois.
Clara Crocodilo - disco e show - botou Arrigo Barnabé num circuito, digamos, alternativo. Não gosto muito da palavra, mas me permito usá-la aqui.
"Será que ele está no Pão de Açúcar?/Viva o Arrigo Barnabé!" - isso aí a gente ouvia no disco Uns (1983), de Caetano Veloso, antes do samba-enredo É Hoje.
"Nomes de nomes/Como Scarlet Moon de Chevalier/Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé/E Arrigo Barnabé" - Caetano voltou a Arrigo em Língua.
Em 1984, Arrigo Barnabé foi levado para um grande selo. Relançou Clara Crocodilo - agora, não mais um disco independente - e lançou Tubarões Voadores.
Tubarões Voadores repetia muito do que havíamos ouvido em Clara Crocodilo. Ótimo disco, mas sem o sabor da novidade que o álbum de estreia trouxera.
Em 1986, Pô, Amar é Importante, da trilha do filme Cidade Oculta, tocou no rádio. Como se Arrigo, se autodiluindo, estivesse buscando um lugar no mainstream.
O tempo passou, e Arrigo Barnabé seguiu correndo por fora. Músico de formação, foi dar aula, gravou discos pouco ouvidos, revisitou Clara Crocodilo ao vivo.
"É engraçado a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer" - Caetano fala isso no disco ao vivo que gravou, em 1978, com Maria Bethânia.
"É engraçado a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer". A fala antecede Carcará, mas, de algum modo, ela se aplica a Arrigo Barnabé.
Arrigo precisava acontecer, e ele aconteceu. Do seu jeito, da maneira que foi possível. Com o público que podia ter, com o espaço que o mercado lhe dava.
Clara Crocodilo,o disco de 1980,colocou seu nome na história da música popular brasileira. Nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, Arrigo fez 75 anos.

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