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QUAL A BOA?

‘O futuro do hip-hop e do rap nacional está no Nordeste’, afirmam Tasha & Tracie em João Pessoa

Em entrevista exclusiva, as gêmeas analisam a cena nordestina e revelam como o afeto foi a saída para bloqueios criativos.

Publicado em 11/10/2026 às 7:33


					‘O futuro do hip-hop e do rap nacional está no Nordeste’, afirmam Tasha & Tracie em João Pessoa
Dupla se apresentou pela primeira vez em João Pessoa na última sexta-feira (9). Débora Luz/TV Cabo Branco

João Pessoa foi escolhida pelas rappers Tasha & Tracie para dar início à turnê do aclamado álbum ‘Serena & Vênus’ pelo Nordeste na última sexta-feira (9). Lançado em outubro de 2025, o álbum dá continuidade à trajetória musical da dupla, construída também a partir dos EPs Rouff (2019) e Diretoria (2021).

Considerado o primeiro álbum de estúdio completo da carreira das rappers, ‘Serena & Vênus’ marca um momento de maturidade e virada artística para a dupla. Com narrativas densas que passeiam pela vulnerabilidade, pela força feminina e pela realidade das periferias, o projeto consolida Tasha & Tracie entre os nomes mais influentes do gênero musical.

Em entrevista exclusiva ao 'Qual a Boa?', a dupla de rappers brasileiras formada pelas irmãs gêmeas Tasha Okereke e Tracie Okereke destacou a força e a diversidade da cena nordestina, falou sobre como o afeto as ajudou a superar bloqueios criativos e ressaltou o papel do rap na construção do pensamento crítico e na emancipação da juventude.

Confira a entrevista completa:

Qual a Boa?: Na escolha de uma cidade como João Pessoa para dar o start nessa tour pelo Nordeste, a gente vê muito um rap que muitas vezes foi visto como algo mais do Sul e Sudeste, como é que vocês enxergam o rap aqui na cena nordestina?

Tasha: Eu vejo como uma cena muito rica e muito diversificada. Eu acho que no Norte e no Nordeste a gente pode ver a inovação no rap, sabe? Eu acredito que todas as vezes que a gente vem para cá a gente vê uma cena muito forte e muito fortalecida. Quando a gente divulga os shows e tem as participações que são locais, as pessoas ficam muito felizes, engajam muito e a gente vê o quanto as pessoas realmente estão envolvidas com a cultura. Então, para a gente é muito legal fazer parte. Enriqueceu a gente muito começar a fazer shows e vir para cá, porque, às vezes, a gente fica só no eixo do Sudeste e fica numa bolha. Então, é muito interessante saber muito mais sobre a cultura local, ver os artistas incluindo no rap e fazendo essa fusão, ensina muito para a gente também.

Qual a Boa?: Especialmente no contexto de que vocês são artistas independentes investindo nessa região, não é?

Tracie: E, para a gente, faz super sentido esse intercâmbio cultural. Quando a gente começou, fomos muito bem aceitas, fomos muito bem divulgadas, sentimos uma identificação muito grande e a gente sempre teve muita vontade de conhecer vários lugares do Nordeste. E conhecemos com o nosso trabalho. Então, a gente tem muito carinho. E eu acho que o rap também é poesia e o futuro do hip-hop e do rap nacional tá no Nordeste, porque tem o repente, tem a cultura do cordel, tudo isso é muito enriquecedor. Eu acho que aqui é o que se tem de mais original quando a g/ente fala da nossa cultura. Eu acho que as pessoas aqui, que fazem rap, não são vira-latas, como a gente tem muita gente no Sudeste que tem uma parada muito vira-lata, no sentido de não valorizar o que a gente tem de influência brasileira, sabe? Então, eu acho que é tão importante vir para cá e trocar com os artistas daqui, conhecer os artistas daqui. Sempre que venho fico curiosa pra saber. Então, a gente fica muito feliz, a gente já ama, mas cada dia mais, com certeza.

Qual a Boa?: A gente fica muito feliz também com esse investimento de vocês aqui na nossa região. E, agora, eu queria voltar um pouquinho atrás na carreira de vocês, porque eu sou muito fã de Willy, então, eu queria muito ouvir vocês falando sobre amor. Recentemente, eu tinha visto alguns fãs falando também sobre um processo na vida e na carreira artística de vocês, em que vocês passaram por alguns bloqueios criativos e que o lado afetivo foi muito importante nesse momento. Os respectivos companheiros de vocês foram pessoas que chegaram junto, incentivando, inclusive, no processo de construção da era Yin Yang. Eu queria saber como é que o lado afetivo de vocês fala alto na parte artística e na construção das músicas, e se fala alto. Na construção de Serena & Vênus, em algum momento essa parte do amor e do lado afetivo também incentivou?

Tasha: Nossa, incentivou super! Eu acho que assim, nós como mulheres negras, né? Diferente do meu companheiro, eu nunca conheci um casal antigo, próspero mesmo, que envelheceu junto como um casal. Eu já conheci pessoas idosas que conviviam juntos há anos, mas que não tinham esse amor e companheirismo, como ele viu os próprios avós dele. Pra mim, o normal era ver muitas mães solteiras, muita violência doméstica. Então, tanto pra mim quanto pra Tracie, era o menor dos nossos sonhos casar ou se relacionar com alguém, mas acho que todo ser humano quer ser amado. Só que era algo muito distante pra gente e foi algo que pegou a gente de surpresa. Acredito que quando a gente não aprende o que tem que aprender, a gente fica vivendo aquilo de novo com outras pessoas até encontrar. Esses nossos relacionamentos foram fruto de muitas coisas que aprendemos, tanto em questão de relacionamento quanto de trabalho. E foi num momento muito importante da nossa vida. O Yin Yang foi algo que teve muito hate no começo e a gente estava muito sensível. Foi um período onde tudo o que a gente fazia era mal visto. Só que ensinou muito pra gente sobre perspectiva, porque ao mesmo tempo foi o trabalho que ajudou a Tracie a dar a maior entrada na casa dela e onde a gente mais ganhou com publicidade na vida, até então. Quando a gente se viu sem nada, o Yin Yang chegou sendo o nosso maior trabalho de todos os tempos, até aquele momento. Foi um ‘trampo’ que deu muitas publicidades e o público abraçou. Hoje é um dos nossos maiores trabalhos. Isso ensinou sobre perspectiva porque, quando a gente começa a dar certo, às vezes fica dependente da aprovação. E, às vezes, essa aprovação não vai vir de imediato, mas você tem que estar alinhada com o que acredita. Fez a gente aprender a lidar com críticas sem nos derrubar. Então foi um apoio incrível.

Tracie: A gente não tem tanto esse 'bagulho' de estrutura familiar como nossos parceiros têm. Por eles terem família, eles ensinaram a gente como é ter uma estrutura. A gente sempre foi sozinha, uma à outra. Tenho minha mãe e tal. Mas, foi muito importante porque é diferente ter pessoas do lado que conhecem a música, em quem a gente confia e que entendem o que estamos passando.

Qual a Boa?: E pra a gente finalizar, o rap sempre teve um papel muito fundamental no incentivo ao jovem desenvolver um pensamento crítico. Como é que vocês acreditam que a cena atual continua dialogando com esse rap que incentiva os jovens a pensarem além da realidade?

Tasha: Eu acho que assim, da mesma forma que eu cresci na escola me sentindo muito burra por não conseguir terminar as lições, hoje entendo que sou neurodivergente e não tinha uma facilidade de aprender da forma comum. Eu era muito curiosa e adorava ler livros. Mas, eu me sentia totalmente fora da caixa. O "Racionais MC's" foi um grupo que me ajudou muito a me questionar sobre várias coisas. Eu ouvia na minha casa desde que me entendo por gente. Mas, quando era pré-adolescente (dos 12 para os 13 anos), comecei a me perguntar quem eram as pessoas de quem eles falavam nas músicas. Hoje tenho 31 anos e até hoje aprendo coisas novas quando escuto de novo. O rap foi quem me fez ter vontade de questionar, de me perguntar e de fazer minha própria pesquisa. Então, o rap é essencial e muito importante pra trazer cultura e pra falar com as pessoas de igual pra igual, sabe? Então, acho que a gente tem um papel muito de informar, de educar. Mas, sem estar em cima daquele pedestal de cima pra baixo, sabe? Acho que o nosso papel e o papel da cena hoje é muito esse, com as mulheres vindo agora. A gente tem falado muito sobre problemas pessoais, sobre coisas que sempre estiveram com a gente. Mas, ao mesmo tempo, elas são vistas como assuntos muito novos, 'tá ligado'? Mas, que sempre estiveram na nossa vida, sabe?

Tracie: Acho que é extremamente importante como foi na nossa vida. A gente tenta ser essa influência também porque foi o que fez a gente estudar, foi o que fez a gente se sentir que era capaz de virar. Porque a gente tinha muitas pessoas que tinham a vida disfuncional e foram referências pra gente. Então, o rap é super importante no papel de fazer os jovens terem consciência de classe.

Imagem

Thay Alves

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