SILVIO OSIAS
Uma celebração quieta para os 85 anos de Paul Simon
Aniversário do compositor foi nesta terça-feira, 13 de outubro de 2026.
Publicado em 14/10/2026 às 6:25

A balada, típica canção americana, tem um piano elétrico cheio de blue notes e, no meio, um solo de saxofone. A melodia é linda, sofisticada, e o cantor tem uma voz doce.
A letra conta a história de um reencontro casual. Na rua, ontem à noite, ele viu um velho amor. "My old lover". E sentaram, tomaram umas cervejas e conversaram sobre o passado.
"Eu não sou do tipo de cara que costuma se socializar/Eu tenho os meus velhos hábitos familiares/Eu não me deixo levar por músicas de amor/Que sussurram em meus ouvidos".
E segue: "Ainda louco, após todos esses anos". Sim. Still Crazy After All These Years é o nome da canção. Lembro dela agora que Paul Simon, em turnê, completa 85 anos.
Ainda louco, após todos esses anos. Penso que é um autorretrato permanente de Paul Simon. Essa "loucura" da qual não devemos abrir mão, que deve nos acompanhar pela vida.
A outra canção de Simon que me ocorre agora diz mais ou menos assim: "Eu não conheço um sonho que não foi destruído/Ou jogado para baixo/Mas está tudo bem, está tudo certo".
E segue: "Nós vivemos tão bem por tanto tempo/Ainda assim, quando penso na estrada/Eu me pergunto o que deu errado/Eu não posso ajudá-lo, eu me pergunto o que deu errado".
O eu lírico sonha que está morrendo, e sua alma sobe inesperadamente. O eu lírico sonha que está voando, e seus olhos podem enxergar claramente a Estátua da Liberdade.
É uma canção americana. Seu nome é justamente este: American Tune. Paul Simon compôs e gravou há mais de 50 anos. Continua bela. E o melhor (ou pior): assustadoramente atual.
Menciono uma terceira canção de Paul Simon. Poderia mencionar muitas. É René and Georgette Magritte with their Dog After the War. Remonta ao início da década de 1980.
Parte de uma fotografia do casal Magritte, ele, um pintor famoso do século XX, e, com sua singular melodia, desemboca nos grupos vocais Penguins, Moonglows, Orioles e Five Satins.
Faz alguns anos que Paul Simon está perdendo a audição. Pensou até que não gravaria mais nem faria shows. Mas gravou um álbum em 2023 e agora está fazendo uma turnê mundial.
O álbum se chama 7 Psalms. Sete salmos. Tem uma única faixa. É sobre vida, morte, Deus. Quando ouço, penso que é sacro e profano. E que só poderia ser gravado por um homem velho.
A atual turnê de Paul Simon se chama A Quiet Celebration. O programa tem duas partes. Na primeira, ele faz os sete salmos. Na segunda, agrada o público com sucessos.
Nos Estados Unidos, Paul Simon é um dos grandes da sua geração. Talentosíssimo autor de letras e melodias, desde o tempo - anos 1960 - em que fazia dupla com Art Garfunkel.
Sozinho, voltou-se para a música do mundo. Os peruanos do grupo Urubamba. Os sul-africanos do álbum Graceland. Os brasileiros Airto Moreira e Sivuca. Os tambores do Olodum.
E os percussionistas do Brasil - Mingo Araújo, Cyro Baptista, Dom Chacal e Sidinho Moreira - que botam nosso molho no concerto de Simon para 750 mil pessoas em Nova York.
Simon cantou reggae - Mother and Child Reunion - quando o ritmo jamaicano ainda não era um fenômeno mundial. Simon botou Porto Rico no belo e subestimado The Capeman.
Simon, um garoto judeu, cresceu nos arredores de Nova York, ouvindo os grupos vocais de pretos e pretas dos anos 1950, além dos Everly Brothers, matriz da dupla com Garfunkel.
Quatro dias antes de fazer 85 anos, Paul Simon lançou um disco duplo com a íntegra de um concerto da turnê A Quiet Celebration. A voz frágil traz as marcas da passagem do tempo.
O primeiro CD tem os sete salmos. O segundo CD reúne grandes sucessos. Ainda louco, após todos esses anos? - é certo que sim. 85 anos, uma celebração quieta. Celebremos com ele.

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