SILVIO OSIAS
A vitória de Lula é a vitória da democracia
A reeleição do presidente salva o Brasil de uma grande tragédia política.
Publicado em 26/10/2026 às 7:30

"Não se incomode/O que a gente pode, pode/O que a gente não pode explodirá/A força é bruta/E a fonte da força é neutra/E de repente a gente poderá".
Isso é Gilberto Gil no versos que abrem Realce, uma música de 1979. Volto sempre a esses versos. Explicavam tanta coisa em 1979. Permanecem explicando, quase 50 anos depois.
"A seta do tempo é sempre pra frente". Isso também é Gilberto Gil. A frase sobre o tempo e a letra de Realce. Junto ambas nesse instante em que testemunhamos a reeleição de Lula.
A vitória do presidente Lula, neste domingo, 25 de outubro de 2026, marca o início do epílogo de uma das mais extraordinárias biografias da história política brasileira.
Na solidão da cabine de votação, diante da urna eletrônica, ao digitar o 13, olhei para a foto de Lula com a plena e serena consciência de que estava fazendo aquilo pela última vez.
Aquela foto e essa consciência me permitem rever um filme que vem de longe e que as pessoas da minha geração - estou com 67 anos - assistiram em sua integralidade.
Começo com o Lula que se projetou como líder sindical na segunda metade dos anos 1970. Passo por sua prisão pela ditadura. Depois, vem a fundação do PT e a campanha de 1982.
Há, em seguida, o Lula colocado entre os protagonistas da campanha das Diretas Já, o Lula eleito deputado constituinte em 1986, o Lula de 1989, na primeira disputa presidencial.
Kleber Mendonça Filho, o grande cineasta pernambucano, disse que, um dia, lá na frente, as pessoas dirão que não se lembram que votaram em Flávio Bolsonaro para presidente.
Do mesmo modo - disse Kleber - que as pessoas esqueceram que um dia votaram em Collor e botaram a direita no poder quando os brasileiros voltaram a votar para presidente.
Na eleição de 1989, votei em Leonel Brizola, no primeiro turno, e em Lula, no segundo turno. A eleição de 1989 é a primeira das sete que Lula disputou como candidato a presidente.
E segue o filme retido na memória. O Lula da Carta aos Brasileiros, o Lulinha paz e amor e, finalmente, em 2002, a chegada à Presidência, sucedendo os oito anos de FHC.
PT x PSDB - seis disputas (incluindo as duas com Dilma Rousseff) entre petistas e tucanos. Num tempo em que podíamos pensar em alternância de poder como algo civilizado.
Há ainda o Lula que o juiz Moro mandou prender por mais de 500 dias, e o Lula que volta triunfal, em 2022, numa eleição em que o mote era a defesa imprescindível da democracia.
Sem ter sido eleito, Getúlio Vargas governou o país de 1930 a 1945, e, pelo voto popular, voltou em 1950. Ficou no poder até o suicídio, naquele trágico agosto de 1954.
A Era Vargas transformou o Brasil. O escritor Fernando Morais disse que Pedro II, Vargas e Lula são os maiores nomes da história política brasileira. Da Era Lula, somos contemporâneos.
A falta de distanciamento talvez ainda não nos permita dar essa dimensão a Lula. Mas já sabemos o quanto é gigante esse homem que foi da infância miserável ao Palácio do Planalto.
O resultado do primeiro turno e os dias que se seguiram àquele domingo, quatro de outubro, me fizeram crer que, no segundo turno, Lula seria derrotado por Flávio Bolsonaro.
A vitória de Flávio me parecia muito mais provável do que a de Lula, e o sentimento de estar diante do imprevisível esteve ao meu lado até boa parte da apuração dos votos.
A virada foi impressionante, e os mais de quatro milhões de vantagem de Lula sobre Flávio encerram qualquer discussão que possa ser levantada sobre a legitimidade da eleição.
O compromisso de Lula com a democracia é inequívoco. Já Flávio Bolsonaro ostenta o DNA de um político golpista. Sua eleição seria uma grande tragédia para a vida democrática.
Anunciado o resultado da eleição, vimos duas cenas que são muito fiéis como traduções de quem é Lula e de quem é Flávio. Refiro-me ao primeiro pronunciamento dos dois.
Em Lula, havia o estadista comemorando a vitória, agradecendo aos parceiros, ao povo que foi às ruas e reconhecendo a necessidade de render-se a um mundo que não é mais analógico.
Em Lula, havia a admissão de que o quarto governo deve ser melhor do que o terceiro, com mais participação, mais diálogo e enriquecido pela presença de novas vozes.
A menção, por Lula, ao belo Hino da Independência - "ou ficar a pátria livre..." - me trouxe a lembrança inevitável de Leonel Brizola, outro grande político brasileiro.
Já em Flávio, havia somente o mau político que não sabe ser digno na derrota, entre a molecagem e o cinismo, exibindo explicitamente a sua vocação autoritária e o seu espírito golpista.
Perder a eleição, reconhecer a derrota e sair para cuidar da vida. Deve ser assim. É o justo com a democracia e também com a civilidade. Flávio, como Jair, o pai, não sabe o que é isto.
Em seu quarto mandato, Lula vai enfrentar um parlamento hostil. Mais do que nunca, precisará da inteligência política que tem para cumprir o último mandato como presidente.
Mais importante será a construção do futuro, a consolidação de lideranças democráticas que possam suceder Lula. Será fundamental o papel do presidente na construção desse amanhã.

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