SILVIO OSIAS
Georgia on my mind
Da canção de Ray Charles às eleições de meio de mandato de 2026.
Publicado em 05/11/2026 às 7:52

Ray Charles, um dos maiores cantores populares do século XX, nasceu na Georgia em 1930. Era preto, pobre, perdeu a visão ainda menino, e, bem cedo, ficou órfão de pai e mãe.
Martin Luther King também nasceu na Georgia, um ano antes de Ray Charles. Ativista na luta contra o racismo, defensor da não-violência, Dr. King foi assassinado em abril de 1968.

Em seus shows pelo mundo, Ray Charles sempre cantava uma música chamada Georgia on My Mind. A canção foi composta em 1930, no mesmo ano do seu nascimento.
Eram esses os versos que saíam da sua belíssima voz: "Eu disse, Georgia/Oh, Georgia/O dia inteiro/Apenas uma velha e doce canção/Mantém a Georgia na minha mente".
Como na canção imortalizada por Ray Charles, a Georgia também está na minha mente. Não como uma evocação do lugar onde ele nasceu, mas por causa das eleições americanas.
Nesta quarta-feira, quatro de novembro de 2026, amanhecemos com a alvissareira notícia de que, pela primeira vez, o estado da Georgia será governado por uma mulher preta.
Keisha Lance Bottoms, do Partido Democrata, foi eleita governadora da Georgia. Ela tem 56 anos e já foi prefeita de Atlanta, a cidade onde nasceu em janeiro de 1970.
Major Lance, o pai de Keisha, era cantor de R&B. Depois de ser prefeita de Atlanta, Keisha trabalhou, a partir de 2021, no governo democrata do presidente Joe Biden.
A eleição de Keisha Lance é uma das diversas notícias alvissareiras das eleições de meio de mandato realizadas nos Estados Unidos na terça-feira, três de novembro de 2026.
Nas eleições de meio de mandato, é comum que o presidente da República perca a maioria na Câmara e no Senado. O que aconteceu agora foi muito mais do que isso.
A chamada "onda azul" das eleições americanas de dois dias atrás foi um verdadeiro tsunami. Um brado de contundente reprovação do governo do presidente Donald Trump.
O Texas saindo das mãos dos republicanos para as dos democratas. O primeiro senador abertamente gay. O primeiro senador muçulmano. A primeira indígena eleita governadora. Muito mais.
Os pretos e pretas dos Estados Unidos deram o jazz ao mundo. Mas os Estados Unidos separam as pessoas pela cor da pele - aprendi com meu pai quando eu ainda era menino.
A vitória de Barack Obama, em 2008, era impensável no tempo de Martin Luther King. Seguia impensável, anos depois, quando o reverendo Jesse Jackson sonhou com a Presidência.
A vitória de Barack Obama é um significativo avanço civilizatório na história dos Estados Unidos. A eleição de Donald Trump é um brutal retrocesso civilizatório na história americana.
Tomo a eleição de Keisha Lance Bottoms como símbolo das eleições americanas de 2026. É, por si só, um avanço civilizatório. E tomara que traga um sopro de esperança para 2028.

Comentários