CULTURA
Conterrâneo velho de guerra
Um dos nomes mais importantes do cinema, Vladimir Carvalho faz 80 anos dividindo reminiscências de uma vida dedicada à Sétima Arte.
Publicado em 31/01/2015 às 6:00 | Atualizado em 27/02/2024 às 17:50
Ele é, acima de tudo, um amante da Sétima Arte. Fez parte da história do cinema em 1960, quando estava na diminuta equipe do visceral documentário que abriu as portas para um novo olhar cinematográfico, Aruanda, e realizou clássicos do documentarismo brasileiro com obras como O País de São Saruê (1971), O Homem de Areia (1981) e Conterrâneos Velhos de Guerra (1991), dentre outros.
Completando 80 anos de vida neste sábado, o paraibano radicado em Brasília Vladimir Carvalho continua em plena atividade, “decantando” novas obras fílmicas.
“Na pacata Itabaiana dos anos de 1940, num tempo em que as salas de cinema marcavam a vida social das cidades do interior do Brasil, meu pai, cinéfilo inveterado, nos levava semanalmente ao cinema. Do velho Cine Theatro (assim mesmo, com ‘th’) Ideal aos cinemas do Recife e, depois, João Pessoa, foi um pulo para me tornar obsessivo espectador”, relembra o cineasta. “Até o dia em que cruzei com O Homem de Aran (1934, de Robert J. Flaherty) e entendi que o cinema era muito mais do que entretenimento. Passava a ser cultura, visão de mundo, criação do gênio humano e me deixei fascinar pelo filme documentário”.
O fascínio pelo cinema, pelos pioneiros do documentário como Joris Ivens (1898-1989) e o próprio Flaherty (1884-1951), a Nouvelle Vague e Orson Welles (1915-1985) o impulsionaram a fazer um programa de rádio e escrever sobre o assunto nos jornais. Até Linduarte Noronha (1930-2012) – que fora professor de Vladimir no ginásio – convidá-lo para Aruanda.
“Não éramos totalmente inocentes da responsabilidade enquanto ‘realização’, porque devorávamos o Tratado de la Realización Cinematográfica, de Leon Kulechov”, conta.
“Linduarte havia escrito uma extraordinária reportagem sobre o povoado da Serra do Talhado. O trabalho foi pensar e estruturar, no papel, o que de antemão fomos ver in loco para escrever o roteiro. O resto é história conhecida: o filme refundou o documentário no Brasil, juntamente com Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni”.
Dentre as universidades da vida, o cineclubismo foi uma das escolas para a alfabetização em cinema. “De fato, a academia que conheci primeiro foi a universidade propriamente dita, mas, informalmente, devo tudo ao cineclubismo patrocinado pela igreja e ao Partido (Comunista). Minha formação se deu paradoxalmente em torno dessas duas respeitáveis instituições”.
Vladimir diz que sente na pele até hoje tal “melange” ideológica.
“De dia, gravitava no Café Alvear, em torno de Bento da Gama, nosso saudoso Bentinho, em intermináveis papos em que nos seduzia com o que sabia do marxismo, da literatura, da história política; e de noite estava eu no Cine Clube de João Pessoa, sob comando do padre Antônio Fragoso e de José Rafael de Menezes, junto com meus cupinchas de sempre: Gonzaga Rodrigues, Wills Leal, João Ramiro Mello e, claro, o onipresente Linduarte Noronha, com cachimbo, lambreta e tudo”.
Passando tantos ciclos tecnológicos da realização documental até chegar a obras mais recentes, como Engenho de Zé Lins (2006) e Rock Brasília: A Era de Ouro (2011), Vladimir não deixa de lado a sua intuição na produção de seus filmes.
“Antigamente, a câmera, como instrumento de trabalho, me assustava, era quase um tabu, mas hoje posso empreender coisas durante a filmagem que, sei, são pura experimentação consciente ou não. Se não tiver a possibilidade poética e linguística, não me interessa sair por aí filmando. Forma e conteúdo são práticas univitelinas”.
INQUIETAÇÃO
“Tenho o mau costume de ir filmando ao sabor dos acontecimentos e junto muitas imagens que me seduziram de alguma maneira”, comenta o documentarista a respeito da maturação de um projeto. “Geralmente, desconfio que ali reside um assunto que voltará às minhas cogitações: por isso, às vezes, dizem que levo dez anos para realizar um filme. Não é verdade!”, desmistifica.
Tanto que no ano passado, viajando pelo Sertão paraibano, uma ideia ficou catucando a cabeça do inquieto Vladimir para fazer um longa sobre a transposição das águas do rio São Francisco. “Propus, então, que se faça um filme coletivo, usando toda uma geração de cineastas da região, hoje aptos a tratar essa realidade tão perturbadora. Parece que a coisa vem prosperando, pois João Carlos Beltrão e Diassis Pires já deram início às filmagens”.
Radicado em Brasília desde os anos 1970, Vladimir Carvalho é professor emérito da UnB e fundou, em 2012, o Cinememória, um grande acervo audiovisual ‘institucionalizado’ que conta um pedaço da História da Sétima Arte e da sua trajetória pessoal.
Atualmente, o incansável conterrâneo velho de guerra está realizando um longa independente (“leia-se ‘com recursos próprios tirados das garras’”, segundo o próprio) sobre vida e obra do pintor modernista pernambucano Cícero Dias (1907-2003), que viveu na França desde 1937 e se tornou compadre de Picasso (1881-1973). “Uma vida rica de episódios e significados. Mas é trabalho árduo porque toda a sua geração já se foi e pouco restou de memória testemunhal”.
NO DNA: "A PARAÍBA É MINHA NAVE-MÃE"
Como seu irmão Walter Carvalho, o cinema está intrinsecamente ligado no sangue de Vladimir, assim como o amor pela sua terra natal.
“A Paraíba é minha nave-mãe e até hoje mantenho intacto o cordão umbilical”, observa. “É inarredável esse background, essa vivência, esse vis a vis com uma terra que vi de perto desde menino, primeiro no interior e depois nas lutas da capital, como estudante pobre, mas que teve sorte de conviver com uma geração muito inquieta e talentosa. Isso não se apaga jamais, passa a fazer parte do nosso DNA”.
Instigado a rememorar os piores e melhores momentos da sua trajetória fílmica, o documentarista tem uma lembrança paradoxal sobre o primeiro momento de filmagens do clássico Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho (1933-2014), onde foi assistente de direção. No Engenho Galiléia (PE), quando explodiu a Ditadura Militar, toda a equipe teve que fugir.
“A fuga do Cabra... foi assustadora e, ao mesmo tempo, algo que curti. Foi como uma iniciação no perigoso terreno da clandestinidade que durou poucos meses, porque logo me vi ignorado pelos órgãos de segurança e voltei a circular pelo Rio de Janeiro como ilustre desconhecido”.
Mas sua pior lembrança foi um ‘pesadelo’ que perdurou quase uma década, quando o longa O País de São Saruê – uma empreitada no Polígono das Secas – sofreu interdição de nove anos pela Censura Federal, sendo liberado em virtude da redemocratização do país, com a queda do regime.
“Como realizador, experimentei grande e positiva emoção quando o público prorrompeu em aplausos para o Conterrâneos Velhos de Guerra, no Festival de Brasília de 1991”, relembra. “Os aplausos incluíam as palmas do ministro Antonio Houaiss, figura de minha grande admiração”.
Sobre seu papel na Sétima Arte, Vladimir Carvalho se mostra modesto. “Fui pouco menos do que um grão de areia, um pontinho imperceptível, na caudalosa massa de público que acompanhou o cinema desde o século passado”.
Visto sua obra que ainda continua sendo escrita na película da História, tal afirmação se mostra equivocada.

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