VIDA URBANA
Camará: dez anos após o rompimento da barragem
Hoje o jornal inicia série de reportagens para mostrar como estão Alagoa Grande e os sobreviventes do rompimento da barragem.
Publicado em 15/06/2014 às 8:00
Os moradores do município de Alagoa Grande se preparavam para dormir quando o locutor Sátiro Coelho interrompeu a programação da rádio local para transmitir uma notícia que se transformaria em tragédia minutos depois: a barragem de Camará havia rompido e a água estava invadindo a cidade.
Enquanto isso, policiais militares saíram em disparada na tentativa de avisar ao maior número possível de pessoas para abandonar as casas com urgência. A verdade é que, depois daquela quinta-feira chuvosa, 17 de junho de 2004, a cidade nunca mais voltou à normalidade.
Para relembrar a tragédia, o JORNAL DA PARAÍBA inicia hoje uma série de reportagens sobre Camará e mostra como está a cidade e a população sobrevivente dez anos depois do ocorrido.
São histórias tristes, de pessoas que morreram arrastadas pelas águas e de outras centenas que perderam todo o patrimônio que levaram anos para construir. A série conta ainda o drama dos moradores que, uma década depois, ainda lutam na Justiça pelas indenizações. O Estado recorreu da decisão no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), onde o processo continua em tramitação. A demora no pagamento dos danos morais e materiais às vítimas de Camará será assunto da penúltima reportagem da série".
O trauma causado pelo rompimento da barragem ainda atormenta a população de Alagoa Grande, cidade com 28.733 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O mês de junho, tradicional pelas festas juninas no Nordeste, traz lembranças de dias tristes, que se estendem até hoje, para os moradores mais afetados pelo rompimento de Camará. Para quem perdeu parentes no desastre, a impressão é que o tempo não passou.
A equipe de reportagem visitou o município no último mês de maio e conversou com os sobreviventes. As marcas das águas que invadiram o município continuam em construções que resistiram à fúria. Marcas que impressionam e impedem que as famílias esqueçam a tragédia, considerada uma das mais desastrosas da Paraíba.
A primeira matéria da série conta a história do casal Nilza Ferreira e João Barbosa. Eles haviam se deitado há poucos minutos, quando João resolveu ligar o rádio, como era de costume. A programação o ajudava a dormir, mas naquela noite foi a salvação da família do aposentado. “Só deu tempo pegar minhas netas que dormiam no outro quarto e chamar a minha mulher. Em poucos minutos a água já estava na altura da cintura”, declarou Barbosa. Nilza ainda conseguiu pegar a pasta de documentos e correr. Todo o resto foi perdido.
“Foi uma agonia. Todo mundo saindo de suas casas ao mesmo tempo, deixando tudo para trás. Era muito choro e muito grito, foi desesperador”, lembrou Nilza. A casa da família, construída com muito esforço, foi totalmente destruída pela fúria da água.
No dia seguinte, ela e o marido voltaram ao local e viram um
cenário desolador. “Nenhuma parede ficou 'em pé' para contar história. Acabou tudo, tudo, tudo”, disse Nilza, tentando segurar o choro. Ela mostrou a carteira de trabalho e a escritura da casa ainda sujos da lama da noite da tragédia.
A indenização recebida pela família foi considerada irrisória e virou motivo de revolta. “Recebemos R$ 3 mil quatro anos depois. O que é esse valor para quem perdeu tudo o que tinha? Passamos a vida inteira trabalhando para construir nossa casa e de repente nos vimos sem nada, desamparados. É uma dor que não vai passar nunca”, lamentou João Barbosa. A casa deles foi reconstruída, mas em uma estrutura inferior à original.
“É uma revolta que vou levar para o túmulo. A gente agradece a Deus por não ter perdido a vida, mas ninguém se conforma com o que aconteceu”, comentou Nilza.

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