CULTURA
Banga traz Patti Smith em grande forma
Há cinco anos sem gravar e sem um disco de inéditas desde 2004, Patti Smith lança aos 65 anos o álbum Banga.
Publicado em 17/07/2012 às 6:00
Leitora compulsiva e ícone do rock, Patti Smith concebe, aos 65 anos, um dos seus melhores trabalhos. Banga (Sony Music, R$ 25,00) é uma obra-prima sobre morte e vida, pautada por algumas das letras mais bem escritas da temporada, que reverencia a literatura, a música e o cinema de maneira ora poética e sutil, ora pungente e experimental.
Ao cantar sobre Amy Winehouse (morta no ano passado) em ‘Poor little girl’, Smith escolhe uma balada dôo-woop, com aqueles vocalizes masculinos dos anos 50. Mas ao mergulhar na história de Banga, um cão que, por dois mil anos, acompanhou Pôncio Pilatos, história retratada em O Mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgakov (1891-1940), ela o faz com a energia descomunal que a colocou no Olimpo dos grandes do rock.
Assim como Bulgakov, o escritor russo Nikolai Gogol (1809-1852), a atriz Maria Schneider (de O Último Tango em Paris, também morta em 2011), o cineasta Andrey Tarkovskiy (1932–1986) e até o tsunami que atingiu o Japão no ano passado dão combustível para um disco lírico, poético e artisticamente impecável.
Elas estão nas faixas ‘April Fool’, a mais pop, pontuada por um teclado vintage, na belíssima ‘Maria’ ("Eu lhe conheci jovem, agora você partiu", diz a letra), na declamada ‘Tarkovsky (The second stop is Jupiter)’ e na espiritual ‘Fuji-san’, de vocais clementes e guitarras dilacerantes.
O disco encontra seu ápice com ‘Constantine’s dream’. Tal qual Lou Reed fez com o Metallica em Lulu (2011), Smith declama por mais de 10 minutos palavras sobre o pintor renascentista Piero della Francesca, sobreposto por um vocal masculino que reza a Oração de São Francisco em italiano. Tudo isso acompanhado por uma harmonia apocalíptica, com guitarras distorcidas e um acordeon entorpecido.
Ao final de um turbilhão de emoções, um encerramento digno e tocante com uma bela releitura de ‘After the gold rush’, de um dos grandes heróis de Smith, Neil Young.
Banga foi gravado no mesmo Electric Lady Studios onde ela concebeu seu endeusado Horses, em 1975. A atmosfera evoca o rock dos anos 60 (como Love e o próprio Velvet Underground de Lou Reed) e vertentes como o punk-rock e o folk-rock. Com ela, uma banda afiada: Tony Shanahan (baixo), Lenny Kaye (guitarra) e Jay Dee Daugherty (bateria), além de participações especialíssimas.
Mitológico Tom Verlaine, líder do seminal Television, se une ao grupo, e também aos filhos de Patti, Jackson e Jesse, na sonoridade de fim-do-mundo de ‘Constantine’s dream’. E o ator Johnny Depp empresta o dedilhar de sua guitarra à ‘Nine’, faixa que a roqueira escreveu como presente de aniversário para o astro.
Sem gravar há cinco anos (quando lançou o álbum de covers Twelve) e sem um disco de inéditas desde 2004 (Trampin’), Patti Smith retornou com uma obra-prima, pautada na sensibilidade, bagagem e primor que só a maturidade traz aos grandes. E só aos grandes.

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