CULTURA
Uma biografia sem breques
Biografia definitiva do lendário sambista carioca Moreira da Silva é reeditada pela Sonora, 17 anos depois de seu lançamento original.
Publicado em 17/11/2013 às 6:00 | Atualizado em 27/04/2023 às 13:20
Moreira da Silva (1902-2000) já passava dos 90 quando o jornalista e historiador baiano Alexandre Augusto foi conversar com ele. Kid Morengueira estava em Salvador, lar de Alexandre, e era atração de um evento em homenagem ao samba, gênero do qual era autoridade máxima, afinal, fora ele um dos grandes disseminadores do samba de breque, aquele em que o interprete dá umas paradas (ou breques) em sua narrativa musical, de forma a enfatizar a letra. Até hoje, Moreira reina absoluto nesse tipo de música.
Naquela ocasião, Alexandre Augusto disse a Morengueira que queria escrever a biografia dele. “(Ele) não levou muito a sério”, responde o jornalista em papo com a reportagem por e-mail, de Londres, onde mora atualmente. “Uns meses depois, mudei para o Rio de Janeiro e ele entendeu que o projeto era realmente seríssimo. Passei 3 anos no Rio pesquisando a vida dele”.
Com patrocínio do CNPQ e de uma construtora e o argumento de que havia pouquíssima coisa publicada sobre o músico, o jornalista de Feira de Santana conseguiu escrever Moreira da Silva: O Último dos Malandros, a biografia definitiva do lendário sambista carioca, que acaba de ser reeditada pela Sonora, 17 anos depois de seu lançamento original.
A pesquisa não foi tarefa fácil para Alexandre no comecinho dos anos 1990, em um mundo que ainda não conhecia as facilidades da internet. “Hoje você pode ir ao YouTube ou ao Google e achar quase tudo. Eu não tive nada disso”, afirma o historiador, lembrando o trabalho braçal que foi levantar dados junto a centenas de jornais antigos na Biblioteca Nacional e a horas e horas de entrevistas que ele ouviu no Museu da Imagem e do Som.
O autor teve a sorte de conviver com o biografado nos últimos anos de sua vida, mas isso pouco adiantou, já que Moreira só contava as mesmas histórias que a imprensa vinha publicando desde os anos 1930. “Claro que o fato de Moreira estar vivo e eu ter convivido com ele foi uma enorme vantagem”, pondera. “Mas ele não tinha muita paciência, mentia muito e obviamente valorizava apenas a parte boa. Tive de fugir dessa armadilha”.
Felizmente o biógrafo não ficou apenas no biografado. “Fui fundo e descobri muita coisa inédita”, conta. “Entrevistei os amigos, a família, os desafetos. Tá lá no livro. Passagens engraçadas, polêmicas, toda aquela cena histórica do Rio de Janeiro e da música brasileira do século 20”.
Mais que a pesquisa, as entrevistas forneceram o material mais precioso do livro. “A nossa imprensa é superficial”, comenta o autor. “Diz que um show vai acontecer dia tal, conta um fato, uma briga, mas não vai muito além do factual. Claro que é importante vasculhar tudo até pra você ter o background da história. Mas nas entrevistas você vai mais fundo, muito mais fundo”.
Entre os entrevistados, um personagem foi de extrema importância para o livro: Aidran de Carvalho, o Carvalhinho, um antigo parceiro de Moreira. “(Ele) me contou os bastidores e muitos segredos do Kid”, afirma.
No posfácio que Alexandre escreveu para esta reedição, ele detalha a participação de Carvalhinho no livro. “Foi ele quem me contou que Moreira não conhecera o pai, detalhou os sambas comprados, a agiotagem e o relacionamento íntimo de Moreira com o cantor português Manuel Monteiro. Moreira negava, mas Carvalhinho foi categórico: ‘O portuga não levou ele para Lisboa de graça’”.
E assim, sem breques, Alexandre Augusto procura fazer o retrato mais fiel possível de um homem que, por quase 100 anos, foi um dos músicos mais queridos, conhecidos e influentes do samba brasileiro, mas também foi agiota, explorou mulheres, comprou e vendeu alguns sambas.
O livro foi feito com a aprovação de Moreira e de sua filha única (e adotada, já que ele ficara estéril), Marli. “Eles foram muito tranquilos”, garante Alexandre. “Talvez eu tenha dado sorte. Mas nunca me pediram para ler os originais e eu não permitiria esse tipo de controle. Não perderia meu tempo num projeto chapa branca”.
O único senão da biografia diz respeito ao câncer de próstata que acometeu Moreira. Ainda no posfácio, o autor confessa: “Quando comecei a conviver com Moreira, ele tinha acabado de operar de um câncer de próstata. Dona Marli me pediu para eu não tratar do assunto no livro para não chocá-lo. Respeitei e não usei a palavra câncer na biografia”.
Com a narrativa envolvente dos bons romances, o texto fluente de Alexandre Augusto narra as peripécias de Antônio Moreira da Silva, das dificuldades dos primeiros anos, passando pelos primeiros empregos (como o de auxiliar de motorista de táxi, por exemplo), como chegou até a malandragem, às primeiras gravações, o sucesso, o declínio, a volta às paradas, enfim, tudo que Moreira construiu por quase um século.
O livro também se preocupa em trazer a relação dos entrevistados, um glossário que traduz os termos usados na malandragem e até a discografia completa de Kid Morengueira, atualizada por Marcelo Fróes, sócio da editora Sonora e do selo fonográfico Discobertas.
Da convivência com o biografado, Alexandre Augusto conta o que mais lhe surpreendeu em Moreira da Silva: “A vontade de viver e, principalmente, de cantar daquele senhor quase centenário, que se negava em abandonar os palcos. Se negava a abandonar a música”.
NOVA CAIXA DO KID
O Discobertas aproveita o lançamento do livro para colocar nas lojas uma nova caixa com músicas de Kid Morengueira – o selo já havia editado os boxes O Último Malandro (2011) e O Tal Malandro (2012).
Moreira da Silva – Anos 50 reúne três CDs, dois deles contendo raro material lançado em 78 rotações. Anos 50 Vol. 1 compreende músicas lançadas entre 1950 e 1963, enquanto o Vol. 2 investe em outras tantas lançadas entre 1953 e 1955. Cada um tem 14 faixas e neles há o registro de marchinhas, além de sambas e outros gêneros.
Completa a caixa outra raridade: O Tal, disco de dez polegadas lançado em 1955 e que nunca havia sido relançado em toda sua trajetória. A reedição traz nada menos que onze faixas bônus, todas remasterizadas.
Para o biógrafo de Moreira, esta é a melhor fase do sambista. “Gosto mais até que a fase posterior, a do Kid Morengueira, com Miguel Gustavo”, revela Alexandre Augusto. “O box é um trabalho de resgate primoroso da obra de Moreira. Nesse aspecto, é complementar ao livro”.
"BIÓGRAFO É PROFISSÃO DE FÉ"
Moreira da Silva: O Último dos Malandros sai em um ano importantíssimo para os rumos da biografia no Brasil. Há dois meses, o grupo Procure Saber colocou em evidência a posição de artistas de renome como Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e outros.
Posição que, dizem os críticos, vai de encontro à liberdade de expressão, afinal o grupo luta pela manutenção dos códigos 20 e 21 do Código Civil, que garantem ao biografado o poder de vetar uma biografia a seu respeito, antes mesmo dela chegar às lojas.
Foi com esse artifício que Roberto, por exemplo, se pegou para tirar de circulação sua mais completa biografia até hoje, Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César Araújo. A Associação Nacional dos Editores de Livros briga, na Justiça, para modificar esses artigos.
Alexandre Augusto conta que teve o cuidado de fazer Moreira da Silva e sua filha assinarem um documento permitindo que ele escrevesse o livro. “Quando escrevi (a biografia), pedi autorização para Moreira e dei maior sorte dele não querer ler os originais. Tenho certeza que teria problemas, pois mostro que ele foi agiota, explorou algumas mulheres da vida, comprou e vendeu samba etc”, comenta o biógrafo.
Ao JONAL DA PARAÍBA, Alexandre diz que Paulo César foi ingênuo ao dedicar 17 anos de sua vida à biografia de Roberto Carlos. “Ora, ele fez porque quis e, certamente, sabia dos riscos que corria. Será que ele não sabia que Roberto, um cara super reservado, iria detestar ler o relato da amputação? Claro que sabia! E sabia também que poderia ser processado. E a Justiça é isso, julgou e ele perdeu. É o risco do negócio” desabafa, antes de ponderar: “Fico triste porque é um livro muito bom”.
“Eu consigo me colocar na posição do biografado, que tem a sua vida exposta em um livro. Não deve ser nada confortável. Mas para isso existe a Justiça e querer exigir autorização prévia me parece um completo absurdo”, acrescenta o pesquisador.
Alexandre revela que começou a pesquisar a vida do cineasta Glauber Rocha (1939-1981) assim que terminou de escrever a biografia de Moreira da Silva, mas nessa ele brecou. “Intui que teria problemas com a família do cineasta baiano. E realmente ia ser muito frustrante passar anos nisso e depois ver meu trabalho proibido. Simplesmente desisti”.
O historiador baiano acha que quase ninguém faz biografia no Brasil para ganhar dinheiro. “Talvez a exceção seja Fernando Moraes ou Ruy Castro”, arrisca. “Daí que achei uma grande bobajada quando vi Djavan dizendo que os biografados teriam direito no bolo. Ele certamente não sabe o que está falando. O autor hoje se dedica anos e tem direito a 10% do valor de capa.
Ou seja, se você vende três mil livros a R$ 40,00 cada – que no Brasil já é quase best-seller –, você vai receber apenas R$ 12 mil. E mesmo a editora fica com muito pouco, quando tira os custos de produção, impostos e distribuição”, explica, para arrematar: “Biógrafo é profissão de fé. Você tem realmente de amar para se dedicar a isso”.
Marcelo Fróes, por sua vez, acredita que toda essa polêmica aguçou o interesse do público pelas biografias, mas atesta que esse tipo de livro vem crescendo no Brasil e não é de hoje. “Vejo que há uns 5 anos, esse mercado vem aquecendo, vide o sucesso de livros biográficos como o de Eric Clapton (Eric Clapton – A Autobiografia), que saiu aqui em 2008 e continua em catálogo até hoje. Nas décadas passadas não era assim. As biografias tinham uma tiragem e desapareciam”, comenta.
Por outro lado, o sócio-proprietário da Sonora pondera: “Se a legislação mudar, receio que o mercado seja inundado de publicações de qualidade duvidosa. Espero que o mercado continue crescendo, mas em termos de qualidade, e não só de quantidade”.
Marcelo Fróes informa que o Sonora fecha seu primeiro ano com cinco títulos e já tem alguns projetos engatilhados para 2014.
“Mas é cedo pra adiantar qualquer coisa”, desconversa. “A meta é fazer um lançamento por mês e ir crescendo aos poucos, com responsabilidade”.

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