Bayeux: ‘pedaço da França’ na Paraíba tem história e economia marcadas pela resistência dos pescadores

Passado e o presente de uma cidade marcante da região metropolitana de João Pessoa é o tema do programa Paraíba Comunidade deste domingo (20), das Tvs Cabo Branco e Paraíba.

Manguezal ainda garante sustento de moradores de Bayeux. Foto: Reporudção TV Cabo Branco

A quinta maior cidade da Paraíba em termos populacionais tem uma história repleta de natureza. Bayeux, que tem sua emancipação recente, surgiu nas margens do Rio Paraíba e seus afluentes, o Rio Sanhauá e o Paroeira. Entre os nativos, os povos indígenas Potiguara e Tabajara lá viviam, e foi assim que a economia se estruturou por séculos no que vinha dos rios e do mangue. 

O passado e o presente de uma cidade marcante da região metropolitana de João Pessoa é o tema do programa Paraíba Comunidade deste domingo (20), das TVs Cabo Branco e Paraíba. A economia e educação da cidade, além do legado das águas que banham a região são os principais temas da edição.

Em 1850, numa região chamada, popularmente, de “Baralho”, muito do que se tem hoje começou. A ponte que hoje é chamada de Sanhauá, por cortar o rio por onde surgiu a cidade, era utilizada de varal para secagem dos peixes. Abarrotada de pescadores, os trabalhadores jogavam baralho enquanto esperavam os produtos estarem prontos para venda e consumo. 

Quem explicou a tradição foi o historiador Ariosvaldo Alves de Oliveira, que conta a história de Bayeux como quem fala do quintal de casa. De acordo com ele, a ponte tinha uma estrutura rudimentar de madeira até o ano de 1859, quando a comitiva do imperador Dom Pedro II passou pelo local. A autoridade prometeu que enviaria uma verba para revitalizar a ponte, e a reforma foi entregue em 1865. 

Ponte segue sendo ponto estratégico da cidade. Foto: Reproduçã Tv Cabo Branco.

Nessa época Bayeux não era considerada cidade, era uma via de acesso para o interior do estado. Uma mata que ficava entre João Pessoa e Santa Rita. A partir de 1920 Bayeux começou a ficar conhecida como distrito de Santa Rita, e passou a ser visto como destino de veraneio das famílias ricas da capital. Até essa época o local era chamado de Vila de Barreiras, passando a se chamar Bayeux só em 1944. 

O nome do município é uma homenagem a Bayeux francesa, amplamente destruída pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, o jornalista Assis Chateaubriand solicitou que a mudança de nome acontecesse para homenagear a vitória dos Aliados, grupos de países que se opunham ao regime totalitário da Alemanha. Houve festa em comemoração a nova alcunha da cidade na beira do rio. 

De 1944, ano da mudança de nome, e 1959 a região passou por um processo de transição, até que conseguiu se emancipar de Santa Rita e virou cidade reconhecida. 

O município tem, hoje em dia, várias homenagens à França, como o nome da Avenida Liberdade, a principal, além de nomes de escolas e praças.  

A Bayeux do mangue e das águas dos rios 

Pouca gente sabe que até a década de 1940 a cidade sobrevivia da economia gerada pela pesca. Em 1951 tudo mudou, quando uma fábrica de produção de cordas e tapetes chegou ao local, e os pescadores passaram a trabalhar no setor industrial. Com o passar do tempo Bayeux deixou de ser uma cidade industrial e passou a se destacar, economicamente, pelo terceiro setor. 

No entanto, a relação com os rios e com o mangue se mantém firme, tanto para economia quanto para preservação ambiental. Quem comentou sobre isso foi o Secretário de Meio Ambiente da cidade, Yuri Sales. 

“Bayeux começou sua colonização às margens do manguezal, de lá pra cá a cidade cresceu e a população ao redor dos mangues também cresceu. O sustento e a cultura ainda vem de manguezais, Bayeux durante muito tempo esteve entre as maiores produtoras de caranguejo e crustáceos da Paraíba, tudo oriundo da cultura do mangue”, explicou o gestor.

Foto: Reprodução TV Cabo Branco

Muitas famílias ainda têm no que vem das águas sua sobrevivência. Leandro da Silva é um dos homens que, há 25 anos, passa mais tempo no balanço tranquilo do rio que em terra firme. “Tudo que eu tenho hoje é da pesca, sustento meus filhos, meu barco veio daqui também. Outro trabalho não tenho não, tudo meu veio da maré”, relata.

Leandro trabalha na pesca há 25 anos.

Aguinaldo Silva começou a pescar aos 14 anos. Atualmente ele faz parte de grupos de pesca e, apesar de ter outros bicos, segue com a atividade no rio. A gratidão se repete, ele também credita tudo que tem pra viver ao que vem da maré. “Hoje não tem peixe como antes, mas dá pra gente viver”. Na fala de Aguinaldo sobre, ainda, indignação. 

“Tem gente que tá aterrando o manguezal para crescer quintais, joga o lixo no rio porque é mais fácil”, desabafa o pescador. 

Aguinaldo lamenta sobre poluição dos mangues.

Atualmente, o rio e o mangue são fontes de renda para cerca de 500 famílias do município. Esse sustento tem sido prejudicado pela poluição. O secretário Yuri Sales alegou que, desde o começo de 2021 a secretaria está implantando uma limpeza dos locais, e que apenas ano passado 5 toneladas de lixo foram retiradas. A prefeitura intitulou a ação de “Jogue limpo com o mangue”. 

Com a iniciativa, o gestor afirma que pretende implantar um turismo sustentável no local. A poluição prejudica, ainda, a reprodução de animais que sobrevivem em manguezais. 

A região de manguezal nas proximidades do Rio Paraíba possui, ainda, a trilha da santa.

Capela serve de abrigo para muitos pescadores.

O local, além de carregar uma forte presença devocional, serve de apoio e abrigo para os pescadores que precisam passar a noite por lá. Edvaldo Santana é presidente da Colônia dos Pescadores e contou que eles fazem doações de cestas básicas, mas reiterou a importância do apoio público para a sobrevivência dos trabalhadores dos rios.