OPINIÃO: Você não vai ler esta coluna

Colunista fala sobre a falta de leitura de parte da população brasileira.


Três pessoas estão a conversar em uma praça, em algum lugar de João Pessoa, enquanto aguardam o ônibus para ir para casa. Uma delas nunca (!) comprou um livro. O livro como bem cultural parece não ser muito atraente para boa parte da sociedade. E não é de hoje, aqui e alhures.

Em 1949, Mauricio Rosenblat escreveu um artigo com o título ‘Nunca tantos leram tão pouco’. Destaco que, de lá para cá, a sociedade viveu o avanço dos meios de comunicação de massa e, em seguida, a massificação do uso da Internet (especificamente das redes sociais e dos aplicativos de relacionamento.

Citadas no início desse texto, as três pessoas à espera de um ônibus, em uma praça qualquer, fazem parte da última edição da pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’, desenvolvida em 2016 pelo Instituto Pró-Livro. Mais da metade da população brasileira se considera leitora, mas só 4,96 livros são lidos por ano: 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes.

Qualquer um que tenha lido pelo menos um livro é considerado leitor, conforme a pesquisa. Mas é preocupante lembrar que esse levantamento aponta que 30% da população nunca comprou um livro e 74% não compraram um livro nos três meses anteriores à pesquisa. O livro parece ser cada vez mais descartável. A leitura de livros é, infelizmente, para poucos.

E os autores ainda sofrem horrores com a falta de incentivo. Que o diga o professor Gentil Lopes da Silva, da UFRR. Em 2014, ele fez uma fogueira com os livros de sua autoria. Um protesto, claro!!! Conforme ele, um desabafo.  Seus livros foram lidos pelo fogo, no campus Paricarana, zona Norte de Boa Vista.

Amém, Capitu, amém!

Entre as principais motivações para a leitura estão gosto (25%), atualização cultural (19%), distração (15%), motivos religiosos (11%), crescimento pessoal (10%), exigência escolar (7%), atualização profissional ou exigência do trabalho (7%). As mulheres continuam sendo as mais leitoras entre todos os gêneros (59%) e aumentou o número de leitores na faixa etária de 18 a 24 anos (de 53% em 2011 para 67% em 2015).

A Bíblia é o livro mais lido em qualquer grau de escolaridade. Outros títulos que foram citados na pesquisa como mais recorrentes foram: ‘A culpa é das estrelas’, ‘A cabana’, ‘O pequeno príncipe’, ‘Cinquenta tons de cinza’, ‘Diário de um banana’, ‘Crepúsculo’, ‘Harry Potter’ e… ‘Dom Casmurro’.

O que temos aí são os leitores religiosos, os leitores que o fazem por obrigação escolar e os leitores de best-sellers. Não à toa, entre os compradores, 63% são da classe A, 40% da classe B, 24% da classe C e apenas 13% das classes D e E. Pouco mais de 100 milhões de leitores (56% da população acima dos 5 anos de idade).

Quando o assunto é o que gosta de fazer no tempo livre, a leitura ficou em 10º lugar. Perdeu para assistir televisão (73%), ouvir música (60%), usar a internet (47%), reunir-se ou sair com amigos e família (45%), ver vídeos ou filmes em casa (44%), usar o Whatsapp (43%), escrever (40%), usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).

Veja também  Juliette Freire passa som com Elba Ramalho, “a Rainha do São João”

Não temos mais tempo nem prazer na leitura de ‘textão’. Nossas leituras se tornaram rasas, superficiais e curtas… Os não leitores disseram que a falta de tempo é a principal razão por não lerem (32%), seguida por não gostar (28%), não ter paciência (13%), preferir outras atividades (10%) e ter dificuldades para ler (9%). Falta de bibliotecas por perto foi justificativa para 2% dos entrevistados, mesmo índice dos que citaram achar livro caro ou não ter dinheiro pra comprar.

Ninguém mais lê nada

Lembro de Otto Lara Resende defendendo os não leitores de livros em texto do início dos anos 1990. Argumentava ele que os jovens estavam mais interessados em aspectos visuais da leitura e que não ler livros não poderia ser identificado como alienação ou burrice. Concordava e concordo com Otto. Mas, o debate é outro no momento…

Essa é a era das leituras rasas e superficiais. Muitos daqueles que se consideram leitores, quando lendo o noticiário, por exemplo, não vão além dos títulos e manchetes. São imediatistas e desinteressados. Não à toa, maior parte diz não ter tempo para ler. A construção do argumento passou a ser ‘enfadonha’ para o leitor moderno.

Ainda há uma parcela de leitores que não consegue ler – com atenção e compreensão – nem título nem manchete. Apenas ‘passam o olho’ e já se sentem capacitados e qualificados para tagarelar a respeito do tema abordado, por exemplo, nessa coluna. Açodados leitores do nada…

Parecem não perceber (ou não se interessar) o poder que tem um livro. Como bem disse Caetano na canção ‘Livros’: “São como a radiação de um corpo negro/ apontando pra  expansão do Universo. / Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/ (E, sem dúvida, sobretudo o verso) / é o que pode lançar mundos no mundo”.

Leitores morrendo

Nossos leitores estão morrendo. E essa não é uma assertiva nostálgica de quem ainda morre de amores pelos livros de papel. Não! Tenho, inclusive, algum grau de simpatia por livros digitais… O que me preocupa é esse parâmetro raso de leitura. Em tempos de fake news, os livros e as leituras mais profundas nunca foram tão necessários.

E grato por ter lido essa coluna. Acredite: infelizmente, você faz parte de um grupo muito seleto. Está entre aqueles que não se intimidam com ‘textão’ e – concordando ou não com as ideias aqui apresentadas – está disposto a ouvir argumentos. Agora, com a sua licença, vou ali ler um livro. Sei que fará o mesmo…

* Jamarrí Nogueira  escreve sobre arte e cultura no Jornal da Paraíba aos domingos.