Roda de conversa sobre o romance Anna Karênina reúne pesquisadores em João Pessoa

Luísa Gadelha pesquisa literatura contemporânea em Portugal e Astier Basílio pesquisa literatura russa em Moscou. Paraibanos discutem importância e profundidade da obra de Tolstoi.

Anna Karênina, livro de Tolstoi

Um livro publicado originalmente em 1877 por um dos principais escritores daqueles tempos. Que, mesmo tendo sido produzido por um homem, traz à tona questões importantes envolvendo as mulheres da época. E que, não tardou, foi logo alçado à condição de clássico da literatura mundial. É essa uma das descrições possíveis para Anna Karênina, escrito por Liev Tolstoi e que ainda hoje é tema de instigantes debates entre pesquisadores e estudiosos de todo o mundo. Pois é justo isso o que vai acontecer em João Pessoa neste sábado (18), a partir das 17h, na Casa Furtacor. Uma roda de conversas reunindo os pesquisadores Astier Basílio e Luísa Gadelha, dois estudiosos de literatura contemporânea e que recentemente releram a obra.

Astier está morando atualmente na Rússia, onde fez mestrado e agora cursa doutorado em Literatura Russa, em Moscou. Luíza Gadelha, por sua vez, realiza seu doutorado em Estudos Literários, Culturais e Interartísticos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Calhou de ambos estarem na Paraíba ao mesmo tempo. E é sob aspectos bem diferentes, leituras e visões distintas, percepções individuais, que eles vão dialogar entre si e com os presentes no dia do evento.

Luísa Gadelha, por exemplo, comenta que leu Anna Karênina pela primeira vez quando tinha 15 anos. E que agora, passados tantos anos, resolveu reler.

“É um livro que me impactou muito por causa de sua intensidade”, explica Luísa.

Luísa Gadelha, doutoranda que pesquisa literatura e feminismo

Ela destaca que a ideia sobre o evento surgiu depois que Astier, da Rússia, resolveu fazer a releitura do mesmo livro de forma simultânea a ela. E que, à medida que ambos iam lendo, iam trocando ideias, informações, impressões. “O evento de sábado é uma extensão dessas nossas conversas”, comenta.

Pesquisadora sobre literatura e feminismo, Luísa destaca que o livro foi escrito numa época em que as mulheres ainda não tinham tanta voz e que eram retratadas majoritariamente por escritores homens. Mas que, ao menos do caso de Tolstoi, isso não desabona a obra.

Isso não tira os méritos do romance. Tolstoi faz uma boa análise da sociedade da época. E traz temas muito delicados para nós que pesquisamos feminismo, como casamento, adultério, maternidade, emancipação feminina, entre outros”, completa Luísa.

Astier Basílio, por sua vez, recém-chegado da Rússia, destaca que o encontro vai ser, antes de tudo, uma troca de ideias com diferentes pessoas sobre o romance. Ele comenta o respeito que tem a Luísa enquanto pesquisadora e a classifica como “grande interlocutora, com grande sensibilidade para a literatura”.

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O pesquisador fez essa nova leitura no texto original, em russo, o que traz uma nova vivência com relação à obra. De toda forma, ele conta, a experiência mais forte foi justo o diálogo simultâneo com outra pessoa que também lia o livro. “Ter com quem conversar sobre uma obra, com alguém que também a leu. Isso é muito importante para quem gosta da literatura”, confidencia.

Astier Basílio, pesquisador paraibano que mora na Rússia

Sobre o livro em si, ele o classifica como uma obra importante da literatura mundial. “Essa importância pode ser aferida pela quantidade de adaptações para o cinema ao longo do tempo. A quantidade de países e de cultura que se lançaram nessa aventura de adaptar o clássico russo para a sétima arte”, comenta.

No mais, o pesquisador se enche de elogios ao escritor russo:

Tolstoi, pela sua grande dimensão como escritor, é considerado um filósofo. Alguém capaz de levantar questionamentos, de investigar a condição humana como ninguém. Essas especulações, essas investigações que ele faz, estão muito presentes no romance”, declara Astier.

Ele comenta ainda sobre os dualismos presentes da obra de Tolstoi, como o contraponto entre Moscou e São Petersburgo, o moderno e o antigo, a Rússia e o exterior. E tudo isso dentro da escrita narrativa.

“Tolstoi se utiliza do andamento da trama para expor as suas preocupações, os seus pensamentos, tudo de forma muito harmonioso. A trama tem uma agilidade de folhetim, e ao mesmo tempo uma grande profundidade, uma grande reflexão sobre a alma humana e sobre a hipocrisia da sociedade da época”, resume.

Apesar de toda a profundidade que cerca a obra, Astier segue a linha de Luísa e tranquila os interessados no evento. “Vai ser um bate-papo. Uma conversa sobre o romance. Depois, vamos escutar os apontamentos dos presentes”.

A história de Anna Karênina foi representada em forma de filme por diferentes países e culturas