Ontem foi Eduardo Carneiro. Amanhã seremos nós. E a pandemia não nos dará um mundo melhor

“O que fazemos com esse tempo, fica por nossa conta”

Yuval Noah Harari

Neste sábado (01) pela manhã, no feriado do primeiro de maio, ouvi os sons de uma carreata.

Eram bolsominions, negacionistas, ultradireitistas – sei lá com vou chamá-los.

Havia gente falando e, de vez em quando, tocava uma música.

Era Eu Te Amo, Meu Brasil, aquela marcha ufanista, detestável, ridícula e babaca que Os Incríveis gravaram na época em que o presidente era o general Emílio Médici.

O que comemorava esse povo que foi às ruas nessa carreata?

Os 400 mil mortos pela Covid-19?

A irresponsabilidade do governo brasileiro diante da pandemia do novo coronavírus?

Ou um primeiro de maio com milhões e milhões de desempregados?

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Vou tratar de um assunto muito pessoal.

Neste primeiro de maio, fez um ano que comecei um tratamento contra a depressão.

Muita gente esconde esse tipo de diagnóstico. Considera a doença estigmatizada. Eu, não. Acho útil e necessário falar sobre o assunto.

Fui derrubado em meados de abril de 2020.

Derrubado mesmo. Nada mais fazia sentido. Por vezes, nem permanecer vivo.

Os gatilhos?

Posso desconfiar de alguns, mesmo que o psiquiatra que me atende (Dr. Givaldo) não concorde necessariamente com todos.

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Há a aposentadoria, que me tirou de uma rotina de trabalho de décadas.

Há o governo Bolsonaro, que diariamente nos põe em estado de melancolia.

Há a pandemia, com todos os seus riscos.

Há o isolamento, que nos tirou do convívio com as pessoas e da tão fundamental trivialidade do cotidiano.

Há o medo da morte, que tem levado tanta gente querida.

Há uma perda afetiva importante pela qual passei semanas antes de cair em depressão.

Um ano depois, os cuidados do psiquiatra, os antidepressivos e os ansiolíticos me deixaram em condições satisfatórias para conviver com a tragédia brasileira que ora atravessamos.

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Ainda neste sábado, no início da noite, soube da morte do jornalista Eduardo Carneiro (foto).

Teve Covid e estava há quase dois meses lutando para sobreviver.

Eduardo me chamava de “seu” Sílvio.

Nunca soube se era um tratamento formal ou mera brincadeira.

Gostava muito dele.

Era um profissional experiente e competente.

E era gente boníssima.

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Para terminar.

Estou convencido de que a pandemia não nos dará um mundo melhor.

Creio que, de um modo geral, quando tudo acabar, a espécie humana terá exacerbado os seus defeitos.

Os que torcem por outro caminho – do afeto, da amizade, do amor – precisam fazer a parte que cabe a cada um.

Para que não nos restem somente mortos a contar.