Vocês sabem o que é ter um professor de música clássica dentro de casa? É luxo absoluto!

Quando Tom Jobim morreu, li na Folha um texto em que Caetano Veloso dizia ser Dorival Caymmi, entre os populares, o que melhor ouvia os clássicos. Essa observação de Caetano sempre me remeteu à minha família, embora numa outra perspectiva, até porque, entre meus parentes, não havia nenhum compositor popular. Mas havia ótimos ouvintes de música erudita. O que era um luxo absoluto.

Meu tio Hugo sonhava em ser tenor lírico e era muito dedicado nas audições das grandes óperas. Meu pai também gostava muito do canto operístico, mas ainda de outras expressões do universo da chamada música clássica – do barroco ao contemporâneo. E meu tio Humberto – ah, meu tio Humberto! -, este era, de longe, o que melhor ouvia os clássicos na família e o que mais se dispunha a transmitir conhecimentos.

Eu o chamei sempre de tio Berto. Em seus tempos de solteiro, era dele o melhor equipamento de som. Era dele a melhor coleção de discos. E era ele quem carregava esse desejo de formar ouvintes. Se a alguém devo as minhas audições dos clássicos e parte do conhecimento que adquiri para degustá-los, é, certamente, a tio Berto, que nasceu em 1935 e morreu aos 80 anos, em 2015.

Com ele, tive muitas aulas de música. Não, não. Não eram de música. Eram aulas de audição musical. Muitas permanecem arquivadas na minha memória afetiva. A mais marcante, talvez, tento reproduzir agora no texto escrito: o dia em que me chamou para conhecer a Sinfonia do Novo Mundo. The New World Symphony é a nona sinfonia do compositor Dvorak, de origem tcheca, escrita em sua passagem pelo Conservatório de Nova York.

Antes da audição, meu tio falou do compositor. Sua origem eslava, sua ida para os Estados Unidos no final do século XIX, suas obras principais. Depois veio a explicação de que aquela sinfonia fundia as matrizes de Dvorak (a música eslava) com as impressões sobre a música que ouvira na América, o Novo Mundo. Havia, portanto, saudade e descoberta na peça que me apresentaria em seguida.

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O equipamento de som, ele montava às vezes em cima da mesa da sala de jantar da casa dos meus avós. Uma velha e pesada mesa de madeira. Era importado provavelmente da Holanda. Um Philips genuíno com lindas caixas de cor cinza. Na minha mente infantil, aquelas caixas acústicas eram como duas casinhas. Delas, brotavam sons fantásticos que eu jamais viria a deletar.

Curioso. Tio Berto usou a América e não as fontes do compositor para me atrair naquela audição da Sinfonia do Novo Mundo. Enquanto o disco tocava, ele insistia nos cenários que talvez já me fossem minimamente familiares, porque os vira nos filmes do gênero western. “Ouça, feche os olhos, imagine que você está dentro de um filme de faroeste” – dizia algo mais ou menos assim.

Penso que tinha uma predileção pelo segundo movimento da sinfonia, o largo. Ele se deteve muito no largo e me contou uma história. Aquele movimento lento, Dvorak fez a partir do seu encantamento com a música produzida pelos negros da América. E foi premiado com esse tributo: trecho da sua melodia foi transformado mais tarde num spiritual. Chama-se Comin’ Home. É clássico do gênero.

Eu já tinha uns 30 anos no dia em que recebi para uma entrevista, no estúdio da TV Cabo Branco, uma cantora lírica americana. Negra, registro de soprano, a jovem chegara ali com o cearense Gerardo Parente, pianista e professor de música que a Paraíba acolheu como se seu filho fosse. Antes da entrevista, falei de Dvorak e do largo da Sinfonia do Novo Mundo. Não sei porque falei. Talvez intuindo que me brindaria com a melodia do spiritual. E ela o fez.