“A Filha Perdida incomoda porque estamos habituados a enxergar mães como seres que vivem apenas para seus filhos”

A coluna hoje abre espaço para Luísa Gadelha. Ela viu e comenta A Filha Perdida, que está sendo apontado como um dos melhores filmes de 2021.

A FILHA PERDIDA

Luísa Gadelha

Como leitora, admiradora, entusiasta e, sobretudo, estudiosa da obra de Elena Ferrante, não foi sem ansiedade que aguardei a adaptação audiovisual de seu romance A filha perdida, que estreou no último dia 31 na Netflix.

Protagonizado por Olivia Colman, sempre incrível, e dirigido por Maggie Gyllenhaal, atriz já conhecida que estreia como diretora, A filha perdida narra uma história aparentemente banal: Leda, professora universitária, quarenta e oito anos, sai sozinha de férias para uma praia pouco badalada na Grécia. Subitamente, Leda vê seu cotidiano pacato se tornar agitado ao acompanhar uma família grande, barulhenta, de maus modos, que compartilha a praia com ela. E, sobretudo, vê-se encantada por uma jovem mãe que brinca na areia com sua filha e uma boneca.

Sim, enredo banal apenas na superfície: num ímpeto talvez inexplicável – e atenção, porque essa história é carregada de silêncios, nem todos preenchidos pelos vislumbres que temos do passado da protagonista -, Leda rouba a boneca da criança. Leva-a a consigo e observa a menina chorar e espernear, sofrendo penosamente sua perda.

A maternidade e suas complexidades próprias são um tema central na obra de Ferrante: em todos os seus livros ela vai explorar seus dilemas (maternidade versus carreira, mães que abandonam seus filhos, mães que não desejavam se tornar mães, bem como outras formas de vivenciar a maternidade), em menor ou maior grau. Considero A filha perdida um livro emblemático nesse ponto. O prazer de brincar de boneca – porque somos socializadas a isto, desde cedo, reproduzindo o comportamento de nossas mães – está diretamente associado ao prazer, ainda que carregado de rancor e de culpa, de esconder uma boneca e – por que não? – de observar uma criança sofrer com isso. Afinal, somos seres contraditórios dentro de nossa própria lógica.

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A filha perdida incomoda não só pela crueldade gratuita de roubar uma boneca: incomoda porque estamos habituados a enxergar mães como seres que vivem apenas para seus filhos, como mulheres desprovidas de desejo e de sexualidade, como pessoas que não podem vivenciar intensamente outras experiências sem abrir mão da maternidade: nenhuma dessas questões é posta quando pensamos em um pai. E, por isso, o debate, por muitas pessoas já tido como ultrapassado no feminismo, permanece tão atual.

Maggie Gyllenhaal, acompanhada de Olivia Colman, soube transpor bem para as telas a densidade dessa condição (e aqui um parênteses: Elena Ferrante só permitiu que seu livro fosse adaptado com a condição de que uma mulher viesse a dirigi-lo): a juventude que se vai, os arrependimentos, os “se”s que tropeçam o tempo inteiro pelo caminho, nossas escolhas, arrevesadas ou não, e os silêncios, muitos, tantos, preenchidos, paradoxalmente – vejam só! – pela escrita de Ferrante.

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Luísa Gadelha é graduada em Letras, mestra em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba e doutoranda em Estudos Literários e Feministas pela Universidade do Porto. Servidora da UFPB, também escreve sobre literatura e é editora do site de poesia Zona da palavra. Tem poemas publicados em revistas brasileiras e portuguesas.