Com sua grande voz, Elza Soares nasceu, viveu e morreu no planeta fome

Em 1953, num programa de calouros, Ary Barroso perguntou de onde vinha Elza Soares (Foto/Divulgação). E ela respondeu: “Do planeta fome”. Foi assim a sua entrada no mundo da música popular brasileira. Elza morreu nesta quinta-feira (20) aos 91 anos de causas naturais – o mesmo dia da morte, em 1983, de Garrincha, com quem teve um tumultuado relacionamento.

Em primeiro lugar, Elza Soares foi uma grande cantora de sambas, como atestam os muitos discos que, ao longo da década de 1960, gravou na velha Odeon. Mas o samba, em sua imensidão, era pouco para ela. Elza também cantava jazz, com a voz rouca e o senso de improvisação das cantoras de jazz.

Sua carreira foi irregular. Cheia de altos e baixos como sua vida. Quando vi seu show ao vivo, no início dos anos 1980, numa edição do Projeto Pixinguinha, estava no ostracismo. E era triste e comovente vê-la daquele jeito, no ostracismo. Mas logo ela ressurgiu cantando o samba-rap Língua no disco de Caetano Veloso.

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Há quem diga que ela se reinventava. Há quem diga que não. Que esses movimentos eram a sua própria natureza. Um dia desses, não faz muito tempo, lançou o álbum A Mulher do Fim do Mundo. Não importava a idade. Ela exibia uma espantosa conexão com os temas e as sonoridades dos dias atuais.

Faz quase 70 anos que Elza Soares disse a Ary Barroso que vinha do planeta fome. Pena que, a despeito da vida longa que teve, nunca tenha saído dele.