63% dos brasileiros querem que 31 de março de 1964 seja uma data desprezada, e Lula faz a parte dele

Terça-feira, 31 de março de 1964. Domingo, 31 de março de 2024. Neste domingo de Páscoa, faz 60 anos que um golpe militar depôs o presidente João Goulart, dando início a uma ditadura que se estendeu por 21 longos anos. O regime de exceção suprimiu liberdades, perseguiu, cassou, exilou, prendeu, torturou, fez desaparecer, matou.

De abril de 1964 a março de 1985, cinco generais governaram o Brasil, todos impostos e “referendados” pela via indireta: Humberto de Alencar Castelo Branco (1964/1967), Artur da Costa e Silva (1967/1969), Emílio Garrastazu Médici (1969/1974), Ernesto Geisel (1974/1979) e João Baptista Figueiredo (1979/1985).

Em dezembro de 1968, os militares endureceram o jogo com a decretação do AI-5. Foi o golpe dentro do golpe. Em 1969, Costa e Silva não terminou seu mandato por problemas de saúde, e uma junta militar governou o país até a posse de Médici, o presidente do período mais sombrio da ditadura militar.

O Brasil de Médici foi o Brasil do chamado milagre econômico, do “ame-o ou deixe-o” e do ufanismo exacerbado do “eu te amo, meu Brasil”. Mas foi, tristemente, o país em que o próprio presidente reconheceu que a economia ia bem, mas o povo ia mal.

O jornalista Elio Gaspari se debruçou sobre a ditadura militar numa obra de cinco volumes. É essencial, se você quiser compreender o período. Ele afirma que foram duas décadas de avanços e recuos, ou, como se dizia na época, ‘”aberturas” e “endurecimentos”.

Segundo Gaspari, o presidente Castelo Branco procurou exercer uma ditadura temporária. Costa e Silva tentou governar dentro de um sistema constitucional. De 1968 a 1974, o país esteve sob um regime escancaradamente ditatorial. De 1974 a 1979, ainda sob a mesma ditadura, dela começou-se a sair.

O poder voltou aos civis em março de 1985 após a eleição ainda indireta da chapa Tancredo Neves/José Sarney. Tancredo vinha das lutas democráticas. Sarney, da condição de aliado da ditadura. Tancredo morreu, e Sarney governou por cinco anos até que os brasileiros recuperassem o direito de votar para presidente.

De Ulysses Guimarães a Mário Covas, de Leonel Brizola a Luiz Inácio Lula da Silva. Havia muitos candidatos disputando a eleição de 1989. Ironicamente, o povo disse não à resistência democrática, elegendo um candidato que representava a direita e, em última análise, a própria ditadura: Fernando Collor de Mello.

Em 1994, nos 30 anos do golpe de 1964, o presidente era Itamar Franco, o vice que assumiu quando em 1992 Collor foi defenestrado por um impeachment. Em 2004, nos 40 anos, o presidente era Lula, um operário que chegou à Presidência. Em 2014, nos 50 anos, era Dilma Rousseff, presa e torturada por atuar na luta armada.

Em 2024, chegamos ao sexagésimo aniversário do golpe que depôs Jango. Data redonda, esses 60 anos do 31 de março de 1964 têm algumas peculiaridades. Em primeiro lugar, coincide com o momento em que se investiga em que medida o ex-presidente Jair Bolsonaro, derotado em 2022, tentou dar um golpe para se manter no poder.

Há também o 8 de janeiro de 2023, o trágico domingo em que, sete dias após a posse do presidente Lula, milhares de pessoas invadiram a Praça dos Três Poderes, em Brasília, e vandalizaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. O 8 de janeiro, seus presos e muitos já condenados.

Neste sábado, 30 de março de 2024, o Datafolha divulgou uma pesquisa interessante. 63% dos entrevistados disseram que querem que o 31 de março de 1964, a data que marcou o início da ditadura militar, seja desprezado. 28% querem que a data seja lembrada.

Nos quartéis, equivocadamente, os militares costumavam lembrar do 31 de março como se a ditadura tivesse dado uma contribuição à democracia brasileira. Agora, estão impedidos de festejar, mas também foram vetadas, dentro do governo, manifestações que apontariam o mal que o regime de exceção fez ao país.

Agindo como quem é refém dos militares, o presidente Lula não quer que essa conversa de ditadura seja remoída. Ao vetar a agenda que estava sendo montada pelo ministro Sílvio Almeida, dos Direitos Humanos, Lula se posicionou de modo vergonhoso contra a história e a memória das lutas democráticas do povo brasileiro.

Há de se considerar o quão negativo é que um líder político com a estatura e a biografia de Lula faça o que ele está fazendo com a memória de 1964. Sua atitude, no mínimo, inibe e desestimula os que, fora do governo, se programaram para promover eventos críticos aos 60 anos do golpe militar.

Parece difícil crer que um presidente reconhecido como de esquerda tenha se posicionado assim. Mas é fácil. No fundo, a ditadura não faz parte da história de Lula. Na segunda metade dos anos 1970, quando ele se projetou na luta sindical, a luta de Lula era entre empregados e empregadores. Não era a luta da democracia contra o arbítrio.

A gente estuda História porque o passado não pode ser esquecido. Quanto mais se conhece o passado, melhor se entende o presente e se projeta o futuro. Hoje, domingo de Páscoa, é 31 de março de 2024. Faz 60 anos que um golpe militar depôs João Goulart. Faz 60 anos que a ditadura começou. Não vamos esquecer. Apesar de Lula.

A deposição do presidente João Goulart foi um golpe duradouro e profundo na democracia brasileira. Seis décadas se passaram, e a preservação da democracia permanece na nossa ordem do dia. É exercício permanente – mas muito complexo – aprimorá-la para que, no futuro, ela seja melhor e mais sólida.